Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

terça-feira, março 30

Saramago

Parece que no "Ensaio sobre a lucidez" defende o voto em branco. Por menos já vi o PCP expulsar (ou suspender) militantes. Mas, enfim, a um Nobel perdoa-se tudo. Com o Arafat é a mesma coisa.
|| JPH, 12:24 || link || (0) comments |

E tu nas ilhas...

...e eu a preparar-me. É engraçado, não é, Ana? Chegas um dia das ilhas e no outro parto eu. Para as outras ilhas, as "nossas", as verdinhas, lá pró meio do Atlântico. São só dois dias mas já não é mau. À medida que se aproxima o dia da partida vou-me apercebendo das saudades que já tinha. Crescem-me as ilhas na cabeça. Pena que o Pico vá ficar fora de vista. Mas tentarei não perder o Algar do Carvão.
|| JPH, 12:22 || link || (0) comments |

"Sete palmos..."

Acabou ontem, parece. Ainda bem. Andava triste demais. Chega de tristeza.
|| JPH, 12:14 || link || (1) comments |

segunda-feira, março 29

...

Bom dia.
|| JPH, 13:31 || link || (1) comments |

sexta-feira, março 26

Blogless week

Ilhas, ilhas, ilhas. Estou a caminho de uma "blogless week". JPH, areja a casa, despeja a caixa dos 'mails', mantém a harmonia do lar (se conseguires), vê se os meninos se alimentam e alimentam esta coisa com posts. Até prá semana.
|| asl, 12:04 || link || (0) comments |

quinta-feira, março 25

Savimbi

Não concordo com o JPH sobre a polémica dos últimos dias. O assassínio do líder do Hamas choca todos os que não defendem a pena de morte, o assassínio a sangue frio e ainda acreditam no direito. De resto, a catástrofe promete prosseguir no Médio Oriente. Mas nos últimos dias lembrei-me muito de Jonas Savimbi e dos comentários que se seguiram ao assassínio, pelo exército de José Eduardo dos Santos, do líder da UNITA. Nessa altura, vi gente festejar e vi gente chorar - curiosamente, encontravam-se em pólos ideológicos opostos aos que hoje choram e aos que hoje "festejam".
|| asl, 22:13 || link || (0) comments |

A Vital Moreira e ao Albergue dos Danados

Por ter escrito que morreram com o líder do Hamas "palestinianos que se ofereceram como escudos humanos do homem, sabendo os riscos que corriam" fui criticado por Vital Moreira e por "Nicky Florentino". Vamos por pontos:

1. Há muito tempo que Israel tinha anunciado que o sheik Yassin era um alvo a abater. Ninguém o desconhecia. Nem o próprio nem quem o rodeada. O sheik Yassin, como todos os cobardes, fazia-se movimentar rodeado de gente. Colocava essa gente na posição de escudos humanos e essa gente não podia deixar de o saber. As crianças - essas sim, inocentes - faziam também parte dessa horrorosa manobra, pela mão de adultos "responsáveis" e "conscientes". A morte de inocentes na operação de liquidação do sr. Yassin deve, também, ser posta à conta do próprio alvo. É espantosa a condescendência com líderes terroristas tenebrosos que fazem das multidões os seus escudos.

2. A luta do sr. Yassin ia muito além da contestação às ocupações ilegais levadas a cabo por Israel. A luta dele era, pura e simplesmente, pela eliminação de Israel, "tout court". Considero, portanto, que Israel tinha inteira legitimidade para o considerar um alvo a abater. Israel já cometeu muitos actos considerados criminosos - e com centenas de vítimas inocentes - mas este, não foi, no meu entender, um deles.

3. Desafia-me Vital Moreira a polemizar com o director do jornal onde trabalho. Não vá por aí que não vale a pena. Por duas razões: primeiro é perda de tempo polemizar aqui (na blogosfera) com uma pessoa com quem estou praticamente todos os dias, lado a lado, na redacção. Se tiver que o fazer, faço-o de viva voz; segundo: insurgi-me contra vozes da esquerda críticas em relação à operação militar israelita.
|| JPH, 16:41 || link || (0) comments |

quarta-feira, março 24

Tarefa

A Cavalo de Ferro acabou de editar "Alguns gostam de poesia", uma antologia dos polacos Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska. Aqui vai o Tarefa, de Czeslaw Milosz, escrito em 1974:

Tarefa

Angustiado e trémulo, penso que sentir-me-ia realizado na vida
Se tivesse a coragem de confessar-me em público,
Revelando o logro, meu e da minha época:
Somente nos era permitido o crocitar dos anões e dos demónios,
Sendo-nos porém proibidas as palavras dignas e limpas,
Sob a severa pena de se achar perdido
Quem se atrevesse a proferir uma delas
|| asl, 17:49 || link || (1) comments |

Ainda a "separação de águas"

A Laranja Amarga sublinhou uma aparente contradição nas minhas diatribes sobre o terrorismo: "JPH (...) 'regozija-se' com o assassinato do Sheikh Ahmed Yassin aqui mas uns quantos posts antes desvela as qualidades de um possível diálogo com grupos terroristas. Afinal por quantos posts será válida uma opinião?"

É uma crítica competente - e elegante nos termos - que merece resposta. No meu modesto entender é uma valente treta o argumento de que com terroristas não se fala. Fala-se, sempre se falou e vai-se voltar a falar outra vez. Arafat até foi terrorista, depois deixou de ser, depois voltou a ser conforme se ia falando com ele ou não. Portanto: o argumento de que com esses senhores não há "diálogo" ou "negociação" ou "diplomacia" comigo não pega. Não passa de uma bravata de comício, mais nada.

Mas agora pode-me perguntar: e com o Ossama, negoceia-se? Por mim agora não. Chegará a altura? Não sei, não faço a mínima ideia. O que digo com inteira convicção é que agora os EUA têm inteira legitimidade para assassinar (ou eliminar, o que se queira) o sr. Ossama. O homem é, assumidamente, o líder de uma organização que desencadeou contra os EUA vários actos de guerra, o principal dos quais foi o 11 de Setembro. É um chefe militar inimigo que pode, legitimamente, ser alvo de um acto de guerra - e morrer por isso. E isto aplica-se a Bin Laden como ao sheikh Ahmed Yassin. E digo mais: acções militares como as do assassinato do líder do Hamas têm, para mim, mil vezes mais legitimidade do que a invasão do Iraque (feita à margem de qualquer legalidade internacional e, ainda para mais, assente numa vergonhosa mentira).

Referiu ainda a Laranja Armada a minha "deselegância" por ter integrado o Pedro Oliveira na "esquerda burra" (designação que, aliás, fez o seu caminho). Admito. E por isso devo uma explicação: passo-me literalmente dos carretos quando se sublinha, sobre o sheikh Yassin, que ele era um velhinho "inválido", "tetraplégico" que se movimentava de cadeira de rodas (e não foi só Pedro Oliveira que o fez, Vital Moreira também e Mário Soares idem, ontem, na SIC-Notícias).

Seria o senhor, por isso, menos perigoso? E tornava-se, por isso, um alvo mais frágil? Não, claro que não. O sublinhado das características fisicas do sr. Yassin quando se descrevem as circunstâncias da sua morte implica, no respectivo subtexto - como também o argumento de que "só" era um líder "espiritual" - a ideia de que se estava perante um velhinho gá-gá sem qualquer valor político-militar. Falso, rotundamente falso, como todos sabemos.

Bom, é tudo, para já, se for o caso.
|| JPH, 12:20 || link || (0) comments |

terça-feira, março 23

Esquerda - a separação das águas (resposta)

1. Revejo-me num texto (assinado "Rui") contido na caixa de comentários do texto do Daniel Oliveira intitulado "Está tudo trocado". Reza assim o dito comentário: "Penso que está claro que existe um estado de guerra entre Palestina e Israel. A Palestina utiliza as armas que estão à sua disposição, nomeadamente em ataques com homens bomba. No entanto Yassin não era um "politico". Era um general. Só que um general que defendia o ataque generalizado à população civil [israelita]. Que estabelecia, quando ainda planeava os ataques, alvos civis como prioridade. Em guerra, o ataque, seja por que forma for, aos líderes politicos não é um acto ignóbil. É uma consequência do estado de guerra. Sharon é um alvo admissivel nesta guerra. Os civis israelitas ou palestinos não. A menos que sejam atingidos aleatoriamente e sem terem sido considerados alvos pré-determinados." Nem mais!

2. Isto resume-se, então, no seguinte: anteontem decorreu, com sucesso, uma operação militar israelita de eliminação de um líder militar inimigo. Morreram com ele palestinianos que se ofereceram como escudos humanos do homem, sabendo os riscos que corriam. Admito (uma vez sem exemplo) que o Francisco José Viegas pode ter razão quando afirma que a operação foi, do ponto de vista político, um erro. Mas isso é política. Quanto à legitimidade militar da operação ela é inegável. Em nenhum plano esta operação é comparável aos actos terroristas de bombistas-kamikaze que se vão matar para dentro de autocarros, restaurantes, etc.

3. Pedro Oliveira escreveu no Barnabé que eu não sou "lá grande coisa a escrever", além de não saber ler. Está no seu direito. Parece-me uma resposta proporcional ao facto de eu ter considerado que um seu 'post' sobre o assassinato do líder do Hamas era próprio de uma "esquerda burra".

4. Sobre jornalistas blogueiros remeto Filipe Moura para um texto do João Fernandes. Está lá tudo o que penso. Permite-me o Filipe Moura que eu tenha opinião sobre as coisas (qualquer coisa, de Israel à Scarlett Johanson) fora do jornal onde trabalho?
|| JPH, 17:03 || link || (0) comments |

Esquerda - A separação das águas (best of)

O post abaixo mereceu vários comentários, na blogosfera e por mail. Selecionei apenas os críticos. Ei-los, sintetizados.

1. "O Sheikh Ahmed Yassin era um criminoso? Seria. Isso legitima a pura e simples eliminação do indívuduo? Não. Ou defende o senhor em causa que um homicida pode ser fisicamente eliminado pelo Estado sem julgamento? Ou mesmo com ele? Convenhamos, se um palestinanao decidisse eliminar Sharon e se defendesse dizendo "Não foi um acto de terrorismo de Estado - foi um acto de guerra. Um acto de guerra eficaz, porque pela liderança se debilitam exércitos." o que diria João Pedro Henriques?" In Irreflexões

2. "Está tudo trocado? Diz o meu caro João Pedro Henriques, do Glória Fácil, que o assassinato do líder do Hamas «não foi um acto de terrorismo de Estado – foi um acto de guerra». E diz mais: foi «um acto de guerra eficaz, porque pela liderança se debilitam exércitos.» Estou confuso. Se o que ali se vive é uma guerra, se o Hamas é um exército, estará o João Pedro a defender que os atentados bombistas são actos militares? Que os suicidas são soldados? E que tal aplicar a estes novos “soldados” , quando capturados, o estatuto de prisioneiro de guerra? E, sendo assim, seria então Ahmed Yassin um líder político de um dos lados? E, continuando nesta lógica, passaríamos a considerar o assassinato de líderes políticos com “exércitos” a seu cargo como “actos de guerra” admissíveis? Se sim, o assassinato de Sharon, um homem que já ordenou por várias vezes a morte de inocentes e o bombardeamento de alvos civis, também seria um acto de guerra aceitável? E o de Arafat? Tento apenas seguir o tortuoso raciocínio do João Pedro Henriques. Para mim, Ahmed Yassin não é um líder político com um exército que está em guerra. A última vez que ouvi falar de uma Autoridade Palestiniana, o seu líder era outro. É que eu ainda faço alguma distinção entre guerra e terrorismo, entre militares e terroristas e entre Estados e grupos terroristas. E até acho que uma das coisas que os distingue é que os Estados devem comportar-se como tal, seguindo algumas regras ditadas pelo direito. Mas isto sou eu, que sou um bota-de-elástico." Daniel Oliveira in Barnabé

3. "Um pouco de veneno antes de me deitar (...) Eu já sabia que o João Pedro Henriques do Glória Fácil não era lá grande coisa a escrever. Agora constato que ele nem sequer ler sabe. O meu comentário à morte do líder do Hamas não exprimia qualquer espécie de compaixão para com o homem. Limitava-se a sublinhar o aterrador simbolismo que envolveu a sua morte: o facto de se tratar de um inválido de cadeira de rodas faz dele o mártir por excelência, a execução tem lugar à porta de uma mesquita e os disparos partem de um helicóptero de fabrico norte-americano. Quem não percebe isto é mesmo muito limitado. Pedro Oliveira in Barnabé

4. "O BLOGUE E O JORNAL Confesso que me irritam um bocado os jornalistas que usam os seus blogues para se “desforrarem” dos seus jornais, isto é, para aí escreverem o que não escrevem no seu trabalho. Não é, ou pelo menos não era, esse o estilo da Glória Fácil. Há geralmente uma preocupação de separar o jornal do blogue. Mas não se pode admitir que um jornalista tenha uma opinião no blogue, sobre um assunto de tamanha importância, que não seja visível no jornal. Principalmente se for um jornalista da secção política, e de política se tratar. É uma questão de honestidade básica para com o leitor. O João Pedro Henriques obedece a estes requisitos e até já tem escrito artigos de fundo no jornal onde trabalha. Mas preferiu atacar directamente o Pedro Oliveira (e indirectamente todo o Barnabé e o Blogue de Esquerda) escrevendo no blogue. Ora, opiniões como as que levaram a tal ataque têm sido expressas ao longo de vários anos nas páginas do Público por diversos autores, com destaque para Vital Moreira e Miguel Sousa Tavares. Por que não escreve o João Pedro um artigo sobre essa esquerda burra no Público? O director nem se deveria importar nada. Ou será que o João gosta muito de polémicas (conforme não se cansa de nos recordar), mas só na blogosfera?" Filipe Moura in Blogue de Esquerda

4. "Caro " inteligente" que pena tenho de não estarmos no tempo do nazismo???!!! Ou do Salazar!!! A arrasar os seus inimigos de "héli" ou à metralhadora!! Contra os seus inimigos da direita!!! Que grande valentia !! Deve ser só a escrever gostava de o ver no meio de uma " guerra" como diz ou numa revolta, seria o primeiro a esconder a cabeça porque o resto nem cabia no buraco!!! A sua democracia é de deitar fora e ninguém chegar ao pé porque cheira péssimamente. Sr. Pedro Henriques que tristeza é o Senhor!!!"
Isabel Maria Pimentel, via mail

PS 1: Filipe Moura escreveu ainda um outro comentário em que, à minha boleia, destila sobre o António Ribeiro Ferreira, ex-director adjunto do DN (e meu parceiro de gigantescas discussões no Snob). Diriga-se ao próprio que eu não tenho procuração para o defender.

PS 2: Dentro em breve, a resposta.
|| JPH, 15:52 || link || (0) comments |

segunda-feira, março 22

Esquerda - a separação das águas

Sheikh Ahmed Yassin, líder do Hamas, foi assassinado, o que não me provoca um segundo que seja de angústia ou pena ou lamento ou o que quer que seja. Dizem que era um "inválido de cadeira de rodas" e que que foi "abatido" por tiros disparados "de um helicóptero Apache".

Sabendo que é também possível que um "inválido de cadeiras de rodas" abater um "helicóptero Apache", não me parece grave.

O que me provoca angústia é a esquerda burra (*) que mora no Barnabé (apesar dos esforços de sensatez do Daniel Oliveira).

Porque, obviamente, no assassinato do chefe do Hamas não há o assassinato de um inocente. Era tudo menos "inocente", o senhor Yassin. Não foi um acto de terrorismo de Estado - foi um acto de guerra. Um acto de guerra eficaz, porque pela liderança se debilitam exércitos.

Convinha, por isso, uma separação de águas, à esquerda: não quero a companhia de quem lamenta o "assassinato" do senhor Yassin. A "esquerda" que tem pena do tal líder do Hamas porque andava de "cadeira de rodas" não tem autoridade nenhuma para andar a apanhar boleias da vitória do PSOE. Essa esquerda dá mau nome à decisão espanhola.


(*) - Referência ao texto "Mais um passo na direcção do choque das civilizações, cortesia de Israel", de Pedro Oliveira
|| JPH, 18:04 || link || (0) comments |

domingo, março 21

Terna é a eternuridade

Luís,

resolve-me, por favor, o problema da Vanessa lá com o Bartleby. Combinei um jantar com a Alice e logo que tiver novidades aviso. O meu médico - se bem que hipocondríaco - proibiu-me de ler blogues durante aí dois ou três dias. Diz ele que, para lá de provocarem conjuntivite, torna-me anti-social. Tentei explicar-lhe a distância que ia do mal à eternuridade, e um pouco da sua glória, mas mandou-me passear. Eu estou exausta. Andar de veleiro é muito pior do que o que se pensa. Vou tomar o "El Mal de Montano", paciência para os efeitos secundários.
|| asl, 22:20 || link || (0) comments |

Querido Inverno

Nunca ninguém te compreende, mais ao Outono. Desprezam-te as bondades, estão sempre aflitos para se verem livres de ti. Neste dia, em que as hordas saem para a rua em odes à Primavera, comunico-te que continuarei a render-te homenagem, mais às tuas adoráveis idiossincracias. Não sou, confesso, insensível ao prolongamento da luz nem aos vestidos floridos, mas não entrarei em euforias excessivas, com o declarado objectivo de te retirar qualquer espécie de qualidade. Gosto de ti, sempre gostei de ti, nunca deixarei de gostar. Veneradora e obrigada, despeço-me.
|| asl, 17:24 || link || (0) comments |

sábado, março 20

Injustiça

Pois, pois!

Mas a The Economist cometeu uma injustiça: esqueceu-se de Durão Barroso. Pode não ser um Ás no concerto das grandes potências, mas, ainda assim, poderia ser... um valete. Está mal!
|| Nuno Simas, 23:06 || link || (1) comments |

The Economist

A revista The Economist tem, esta semana, uma capa traiçoeira. Na capa, mostra quatro cartas de um baralho que baralhou meio mundo sobre as armas de destruição maçica do sr. Saddam. Tudo ases. O Ás de Copas ? Blair, o de ouros ? John Howard (primeiro-ministro da Austrália), o de espadas (claro, o guerreiro intr?pido!) ? o Jorge Dabliu. O último é o Às de paus, o sr. Aznar, decorado com uma cruz vermelha pintada sobre a testa.
O titulo é One down, three to go? Olhei para a capa, e suspeitei de uma perigosa viragem (esquerdalha?) da insuspeita revista. Não. Eu NÃO tinha visto o ponto de interrogação.
Pois!
|| Nuno Simas, 22:56 || link || (0) comments |

Inveja amigável

Mesmo dos maiores amigos se sente às vezes ataques de inveja. Vejam os "Golpes de Vista". O gajo já tem o Montalbán, e, como se não bastasse, escreveu-o no blogue antes de me contar a mim. Não sei se lhe volto a falar (bem) tão cedo. Isto é um ataque de ciúmes público.
|| asl, 22:33 || link || (0) comments |

Manguel sobre o 11 de Março

Não faltam motivos para ler o "Babelia" deste sábado. Há uma entrevista da María Luisa Blanco ao Lobo Antunes (bela fotografia a da capa), um texto sobre o último romance de Imre Kértesz, o lançamento em Espanha de "Viagens na minha terra", de Garrett, e uma pequena entrevista a David Byrne.
Até se pode dispensar isto tudo, mas há dois textos que são imperdíveis: os diários dos dias 11 e 13 de Alberto Manguel. Estão na última página.
|| mjo, 14:15 || link || (0) comments |

sexta-feira, março 19

Seinfeld

O meu querido Rui tem, no seu blogue, uma receita fundamental para os fanáticos do "Seinfeld". É uma coisa muito complicada, que mete muitos "downloads", mas que nos deixa ver os episódios da melhor série do nosso mundo. Vão lá ver, se perceberem alguma coisa de "downloads". Eu telefonei-lhe, fiz-lhe um choradinho, e ele manda-me os "downloads" que eu não consigo fazer.
|| asl, 23:56 || link || (1) comments |

Cercado

Parece que o número dois da Al Qaeda foi cercado algures na fronteira Afeganistão/Paquistão. Acho bem (sem ironia). O combate ao terrorismo passa por isto - e muito.

Mas agora pergunto: foi para isto que se invadiu o Iraque?
|| JPH, 15:12 || link || (1) comments |

quinta-feira, março 18

Azorean Torpor

Ora vem a calhar este Azorean Torpor, de Vitorino Nemésio

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci. Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais - talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde.

E um desconsolo, um não-partir nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.
|| asl, 23:13 || link || (0) comments |

Foi-se a zundap, fica o veleiro

O Bonirre gamou a zundap e parece que vai estar fugido o resto de Março, vidé as últimas da Natureza do Mal. E o veleiro, ó eternuridade, quem gama o veleiro? O sobrinho do conde, tu próprio, o médico de Santa Maria, o jardineiro, a Vanessa, a Alice...?
|| asl, 17:14 || link || (0) comments |

Terrorismo: Argumentos que ficam sempre bem num centro de mesa

...ou até num comício pró-Bush/anti-Zapatero/anti-Bin Laden (tudo junto). Convém dizer aos berros, com muito vigor, muitos pontos de exclamação.

Argumento 1: Com os terroristas não se negoceia! Os terroristas combatem-se! Não há tréguas! Aos terroristas só dizemos: entreguem-se! Nada mais! É guerra, é guerra!

Argumento 2: Não interessam as razões do terrorismo! Procurar compreender é contemporizar! É pela compreens?o que começa o perdão! Que começa a cedência! É a guerra, É a guerra!

Isto - insisto - tem de ser dito perante uma audiência já previamente convertida a este argumentário. Ou seja: É um enorme risco fazer estas afirmações perante quem possa perguntar, mesmo que com total candura:
a) Nunca Londres negociou com o IRA?
b) Nunca Madrid (Aznar inclusivé, nas tréguas de 99) negociou com a ETA?
c) Nunca Telavive e a Casa Branca conversaram com o sr. Arafat?

Sendo a resposta "sim" nos três casos, pergunta-se a seguir: negociar não implicou, inevitavelmente, uma certa dose de entendimento sobre os motivos dos terroristas? Sim ou não?

É evidente que grande parte da direita blogueira (e não só) perdeu, com o acontecimento espanhol, o que lhe restava de bom-senso. Sentados nas suas poltronas anatómicas, com os olhos pregados no computador e os dedos fervendo sobre o teclado, escrevem "estamos em guerra" ou "é a guerra, é a guerra". Dos mortos espanhóis vão lendo umas coisas pelo "site" do El País. Impressiona, mobiliza, inspira inflamados discursos pró-guerra - mas não cheira mal nem suja as mãos. Só vantagens.

Entretanto já esqueceram que foram completamente toureados (para não dizer corneados) por Bush e Blair na questão das ADM. Vivem com as mentiras. Mas, mentira por mentira, porque não desviam a sua voracidade bélica para uma Playstation? A mim parece-me, muito sinceramente, que todo este belicismo é toldado por um certo imaginário infantil.
|| JPH, 17:09 || link || (8) comments |

Os amigos são para as ocasiões

Ah pois são. Por isso tenho que dizer que a Inês tem um blogue. É umbiguista. Mas há meninas em quem o umbigo fica muito bem à mostra. Será o caso. Bjs.
|| JPH, 16:52 || link || (0) comments |

O caso Luís Morel

O médico hipocondríaco existe. Chama-se Luís Moreira, ou Morel, se preferirem, por causa do R. Fonseca. Embora sem a violência alcoólica com que Luís Gouveia Monteiro arrancou a palavra eternuridade ao velho baleeiro do Pico, também eu extorqui a identidade a Luís Moreira, para este jogo onde se confunde a glória, o mal e a eternuridade.
Luís não lê blogues, não sabe usar o “mail”, mas por um mecanismo de compensação tecnológica domina na perfeição as SMS. Envia-me, com alguma regularidade, mensagens com sublinhados, pontuações exdrúxulas, acentuações comoventes e outras delicadezas de que, pelo menos via SMS, seria eu incapaz.
Ontem, depois de uma SMS delicada, tive um assomo de sentimento de culpa por usar a sua existência para fins que lhe são alheios. Devo-lhe tanto e agora ainda mais uma explicação, em SMS: “Fiz de ti uma personagem de uma historia”.
- O quê, UMA HISTÓRIA, QUE HISTÓRIA? (O espanto vem em maiúsculas).
- Não te preocupes. Baralhei os teus dados, os factos, não te arranjarei maçadas.
Telefonou-me.
- Que brincadeira é essa? Quem é que eu sou?
- És um médico chamado Luís.
- Não quero ser Luís, preferia não ser médico.
- Já está. Agora já não vou mudar o nome. O ser médico dá jeito para umas metáforas. És um médico hipocondríaco.
- Hipocondríaco não sou.
(Nunca ninguém assume)
- Gostava que tivesses olhos azuis.
- Olhos azuis?
- Sim, como Jácome de Bruges.
- E sabes lá tu se o Jácome de Bruges tinha olhos azuis?
- Era flamengo, e além disso a Agustina já escreveu isso no “Concerto dos Flamengos”. Passou à história pátria. Por mim, tinhas barriga.
- Eu não quero ser reconhecido, mas não quero ficar irreconhecível. Eu não tenho barriga. Cortei no álcool, vou ao ginásio, ando a pé, e agora pões-me com barriga!
- Um nadinha de barriga. Qual é o mal? O Morávia gostava de mulheres com barriga.
- O que é que já escreveste sobre mim?
- Nada de muito especial. Dei uma carga emocional àquela vez em que me receitaste Dexamytrex, lembras-te, quando eu me vim embora, no porto? Eu estava com conjuntivite.
- Aquilo não me pareceu nada conjuntivite, julguei até que estivesses comovida por nos separarmos. Só falei no Dexamytrex porque tu querias à viva força um medicamento.
- Era mesmo conjuntivite. Mas, na história, dou a entender que choro mesmo e tu não o percebes e limitas-te a passar a receita, o Dexamytrex.
- Não quero que faças de mim um brutamontes.
- Há um brutamontes, mas não és tu. A propósito, sabes andar de mota? Como é que se mexe naquilo? Ah, já me esquecia. És de Santa Maria.

|| asl, 14:01 || link || (0) comments |

terça-feira, março 16

Alegria

O meu melhor amigo chegou à blogosfera. O meu afilhado, o meu vizinho, o meu "compagnon" de algumas "routes", é dado a "golpes de vista". O blogue nasceu hoje e, em breve, vai surpreender mais que o Zapatero. Eu gostava de fugir ao estilo das Produções Fictícias, mas neste caso é impossível: DM é mais talentoso que eu sei lá, tem um humor cáustico, sabe tudo sobre os brasileiros, os açorianos e os nova-iorquinos, as boas ondas e o riso.
Tem o defeito de ser do Sporting, mas como diz ele citando um outro, "é a vida". E ainda dizem que a blogoesfera está em crise.
|| asl, 22:52 || link || (0) comments |

Informação útil

As férias da Páscoa dos miúdos são entre 3 e 18 de Abril
|| asl, 22:24 || link || (0) comments |

Tonino

Saudações especiais aos nossos companheiros secretos, que não se esqueceram do aniversário (84 anos) de Tonino Guerra.
|| mjo, 17:22 || link || (0) comments |

Tudo o que penso...

...ou quase tudo o que penso sobre os acontecimentos de Espanha estão resumidos, com brilhantismo, neste post do Liberdade de Expressão . Reparem numa das últimas frases: "Cada país tenderá a participar na luta contra o terrorismo na medida dos seus interesses."

Só acrescento uma ideia: nada impede que um país alinhe a cem por cento no combate ao terrorismo mundial sendo contra a invasão do Iraque. Quem se exclui da invasão do Iraque não se exclui do combate ao terrorismo.
|| JPH, 16:58 || link || (0) comments |

Almada em fútil

Entro na perfumaria, conto frascos e boiões e os anos que terei de vida. Não, não chegam nem para metade da perfumaria.
|| asl, 16:28 || link || (0) comments |

O sequestro de Eternuridade

A primeira vez que ouvi a palavra eternuridade foi nos Açores, a um velho baleeiro muito imaginoso do Pico. Depois, uma noite, o Luisinho Gouveia Monteiro sequestrou o velho e, a golpes de gin tónico, extorquiu-lhe a palavra, que ele hoje faz passar como sua. Eu, testemunha do sequestro, acho que devo prestar alguns esclarecimentos.
Não vi a Vanessa nos Açores, duvido que alguma vez lá tenha estado (sempre que lhe falo das ilhas, responde-me invariavelmente que tudo aquilo deve ser uma grande seca), embora, reconheço, seja verosímil que tenha namorado o Bonirre, o Jota, o homem do smoking e até tu, Luisinho, embora não queira insistir demasiado neste ponto para não criar problemas a ninguém.
Relativamente ao escrivão Bartleby, quando ela o intimou: "beija-me", ele respondeu, como sempre: "Preferia não o fazer".
O médico hipocondríaco – que podia ser de Santa Maria, mas não é luso-brasileiro (em breve apresentarei provas) – ela não namorou, que alguma certeza eu preciso de ter.
Sim, Alice, a nossa amiga, estava lá – com demasiadas afinidades com John. Alice, exímia avaliadora de bailarinos, não me perdoou não a ter levado ao baile do Amor da Pátria.
|| asl, 13:06 || link || (1) comments |

segunda-feira, março 15

E já agora...

poderão V.Exas meditar, pausadamente, na seguinte hipótese/possibilidade/eventualidade (riscar o que não interessa):

O combate ao terrorismo mundial está a ser travado de forma completamente errada, tendo produzido resultados totalmente às avessas do esperado.

Achais possível admitir esta hipótese? Só para efeitos de discreto raciocínio? Assim, sei lá, uma coisa intima...
|| JPH, 22:12 || link || (0) comments |

Aos rambos da luso-blogosfera

E não há volta a dar. Os espanhóis são uma cambada de cobardes. Os rambos da luso-blogosfera (não há links, são muitos, que enfiem a carapuça) acham que a vitória do PSOE foi uma "vitória" do terrorismo; uma "cedência"; um acto de "acobardamento". E etc.

Ou, por outras palavras: os espanhóis são - é urgente dizê-lo - uns bardamerdas. Criámos deles uma imagem: gente brava, honrada, belicosa, una contra o "inimigo". Mas tudo isso são mitos - os espanhóis são, na verdade, uma grande porcaria. A gente bem que suspeitava...

Porque - dizem os(as) rambos(as) da luso-blogosfera - "cederam ao medo". Deram uma "vitória ao terrorismo". O Ossama ri-se às bandeiras despregadas. Os espanhóis, envergonhados, não confessam a ninguém (nem às amantes) que votaram no PSOE por acreditarem que o PSOE os vai tirar da guerra do Iraque.

Os espanhóis souberam, algures de quinta-feira para domingo, que estarem ao lado do EUA lhes podia valer mais mortes do que a dose habitual.

Mudaram - por isso - de políticos e de políticas. Tiraram o país de uma guerra, a do Iraque. De caminho censuraram também uma mentira (a de Aznar, que quis à viva força que o atentado fosse da ETA). A um país que já lida com um terror (a ETA) não se pode pedir que lide com dois (ETA+Al Qaeda).

Os Rambos da luso-blogosfera, cujo único terror é o trânsito das horas de ponta, acham isto mal. É deixá-los falar.
|| JPH, 19:34 || link || (0) comments |

A burrice, o medo, o preconceito, a inteligência

1. Do medo ninguém entende. O medo é concreto. O medo não se antecipa. O medo sente-se. Não sinto medo quando me parece parece improvável levar uma pedrada. Sinto medo quando ela me atinge. Antes disso não é medo. É outra coisa - cujo nome desconheço. Uma coisa garanto: sei do que falo quando falo de medo. Sei mesmo. (E não tem nada a ver com experiências jornalísticas).

2. A burrice é intelectualizar (manipular contra a evidência dos factos). A burrice é pensar que os espanhóis não iriam registar no voto o que aconteceu quinta-feira. Os burros são os que valorizam sondagens de opinião sobre a visão espanhola da guerra do Iraque feitas antes de se saber que os atentados não foram da ETA. Os burros ignoram a realidade concreta da vida da pessoas. Não fazem a mínima ideia. Passaram em Atocha e compararam com a Grand Station.

3. O preconceito é a variante mundana da burrice. Nem o preconceito nem a burrice assumem o medo. O preconceito intelectualiza; a burrice alheia-se (variantes da mesma coisa). Os espanhóis recusaram uma coisa e outra. Disseram: estamos fartos deste medo. Já nos chega a ETA. Com essa ETA aguenta-se; com a outra, islâmica, que mata aos duzentos de cada vez (no mínimo) já não. E elegeram um poder que promete tirá-los da condição de alvo.

4. Os espanhóis cederam ao novo medo. E eliminaram a condição de esse novo medo existir. A inteligência pode ser um exercício colectivo e desorganizado.
|| JPH, 18:31 || link || (0) comments |

A minha Madrid

"Olho as incongruentes luzes ainda acesas sob o sol que avança tornando-as insignificantes; e contudo são elas o tempo respeitoso e benigno que quer deixar testemunho daquilo que cessou; até que a sonolenta mão de algum funcionário repare no desperdício e apaga a luz, e depois apaga-a. E ainda assim os passageiros aí continuam, e ainda assim a luz não se apagou".

Este excerto, retirado do livro "Negras Costas do Tempo", do Javier Marías, encontrei-o ontem à noite, quando peguei em todos os livros que tenho dele e me sentei no sofá a reler as páginas sublinhadas a lápis. Demorei-me em "Coração Tão Branco", o livro que meu a conhecer Madrid, algum tempo antes de visitar a cidade.

Há acasos misteriosos: li este maravilhoso romance durante uma viagem de comboio Lisboa-Madrid, há cerca de cinco anos. Era a primeira vez que visitava a cidade de Marías, não consegui dormir durante a viagem nocturna de cerca de oito horas e foi este livro (o mesmo que alguns anos mais tarde receberia uma dedicatória do autor) que me deu a minha Madrid. A mesma que ainda hoje conservo com o maior carinho.
|| mjo, 18:20 || link || (0) comments |

A realidade

Os resultados eleitorais em Espanha foram condicionados pelos atentados de quinta-feira? Verdade incontornável (basta ver a taxa de participação).

De quinta-feira para domingo o sentido de voto mudou - do PP para o PSOE. Outra verdade incontornável (é ver pelas sondagens - todas - que se faziam antes de quinta-feira).

O eleitorado reagiu, assim, a um facto. Quer dizer: não se alheou da realidade. O eleitorado configurou-se com a realidade. Reagiu. Mudou.

A realidade faz-nos medrosos. Mas também corajosos. Ou nem uma coisa nem outra, a maior parte das vezes - que é aquilo que somos, sempre. Mas quando mudamos por causa da realidade é muito possível que, depois, a realidade mude.
|| JPH, 16:33 || link || (0) comments |

Chamamentos, presságios

Segurei algumas vezes na testa de Margarida, enquanto ela vomitava de amor este Verão no Faial, mas também vi Jos, o brutamontes, a segurar-lhe na testa junto ao muro da praia de Porto Pim.
O belo horrível: virei a cara e afastei-me muito depressa, naquela noite Porto Pim estava cheio de mulheres mas só Margarida vomitava. Jos acariciava-lhe a testa. Corri pela rua acima e entrei no bar da esquina, o primeiro bar antes de chegar ao cais, arranjei uma mesa no primeiro andar e fiquei a olhar o porto. Lá fora, um marinheiro a quem tínhamos dado boleia andava de um lado para o outro, hesitando, talvez, entre ficar ou partir.
Nunca lhe direi: Margarida não saberá que eu vi que o homem por causa de quem ela vomita lhe segura na testa.
As palavras inúteis devem desaparecer.
São horas de recolher à colónia americana. Deixei a criança entregue a John, desde manhãzinha, para levar Margarida a vomitar pelo Faial. Fomos a Castelo Branco, aos Capelinhos, ao vulcão, um homem esticou o braço e parámos:
- Como te chamas?, perguntei, embora os nomes sejam geralmente inúteis e a minha memória guarde poucos nomes reconhecidos nos Açores.
Ele não respondeu.
- As palavras inúteis devem desaparecer.
Permaneceu silencioso.
Há vezes em que só dizendo nada chegamos à divina proporção. Olhei-o pelo espelho retrovisor e só percebi que era de lá fora, mas talvez isso não fosse mais do que um presságio, o Faial é lugar de chamamentos, presságios conforme o voo do açor.
Dói-me o corpo todo e na mochila só tenho Dexaval e Dexamytrex. Não choro nem vomito, mas quando me passou as malas para a mão e finalmente me viu os olhos no porto da sua ilha mínima, já o barco estava mesmo a largar, Luís, o médico hipocondríaco, disse-me:
- Dexaval-O ou Dexamytrex.
- Dexaval e Dexamytrex?
- Pode ser.
Margarida fugiu a correr do baile da Sociedade Amor da Pátria. Fui ter com o homem de smoking com quem ela dançava, a última vez que a vi, por um segundo feliz.
- Ela não quer ser encontrada?
- Não sei.
- Não, não é mulher para mim. Eu ando à procura de uma mulher que não quer ser encontrada.
Saio do bar da esquina, preciso de voltar à colónia americana. A rua Cônsul Dabney fica longe, irei pelo atalho, pelas escadinhas que se apanham a meio da marginal, já é muito tarde, não sei se passaram dois dias ou quatro desde que chegámos à Horta de lancha.
No cais, o marinheiro silencioso continua de lá para cá, de cá para lá, olha vagamente a ilha defronte.
Vira-se. Acho que me viu.
- Olá, aceno-lhe reconhecida, agradecida, com aquela súbita alegria com que um rosto meio desconhecido se torna familiar só porque nos dói o corpo todo.
Ele não responde, e volta o olhar para a Madalena. (may be continued)
|| asl, 15:07 || link || (0) comments |

sexta-feira, março 12

Nós também nunca perdoaremos

O texto que aqui se transcreve foi escrito por Javier Marías ontem à tarde e publicado na edição on line do El País. Leiam, por favor.


De Buena Mañana

Cada vez que ETA asesina -y casi siempre lo hace de buena mañana, los terroristas madrugan, o quizá es que no duermen la noche previa-, existe la costumbre de que, hacia el mediodía, los responsables de los ayuntamientos de las ciudades salgan a la puerta de sus edificios, con calor, frío o lluvia, y guarden uno o dos minutos de silencio. A ellos se suman cuantos ciudadanos lo deseen, normalmente los que están cerca de allí. Es una cosa que impresiona mucho, ese silencio que es a la vez luto y repulsa, un silencio colectivo, de personas que interrumpen sus actividades o sus recorridos y se quedan quietas en mitad de la calle. Si alguien lanza un grito o una maldición contra los asesinos entonces, su voz suele ser acallada, porque en esos momentos la condena verdadera es no decir nada. Y, pese a la reiteración de esta costumbre a lo largo de demasiados años, el acto no ha perdido fuerza, ni se ha gastado, a diferencia de tantas otras reacciones que se han tornado huecas por culpa de las repeticiones.

A diferencia de los terroristas, yo me levanto tarde. Desde mis balcones se ve e1 Ayuntamiento de Madrid, en pleno centro de la ciudad. Si estoy escribiendo, más bien absorto, un repentino silencio me indica que se ha producido un atentado. ¿Quién habrá sido?, se pregunta uno. ¿Quién esta vez? ¿Un pobre concejal de pueblo, que compagina sus tareas municipales con su trabajo de carpintero o su tienda de golosinas? ¿Un periodista? ¿Un militar, un policía? ¿Un juez? ¿Alguien importante, un político? ¿Una señora con sus niños, que pasaban cerca de donde estalló la bomba? ¿Unos obreros? ¿Quizá bomberos, cuando ayudaban a otras víctimas anteriores y la segunda bomba retardada los pilló cuando las rescataban? Excepto curas, ETA ha matado a toda clase de gente. No es de extrañar, sus asesinos llevan acumulados más de mil muertos.

Hoy he notado ese silencio sospechoso, desde mi casa. Me he asomado a un balcón, y desde allí he visto al alcalde y a todos los concejales, de su partido y de la oposición, de pie delante del edificio, callados. Había también más transeúntes que de costumbre, transeúntes parados. Las banderas, a media asta. "Otra vez", he pensado, ¿quién habrá sido?, sin imaginar que esa pregunta carecía hoy de sentido, porque de momento sólo hay muertos anónimos, y van ciento setenta y ocho cuando escribo estas líneas, y aún habrá más, aún no han acabado de morirse muchos de los asesinados, en tres o cuatro estaciones de ferrocarril madrileñas, trece bombas han estallado de buena mañana, cuando los trenes de cercanías van llenos de gente que va al trabajo, de estudiantes que van a sus clases, de personas con sueño, que acaban de levantarse.

Es el atentado más sangriento de toda la historia de España, e1 más masivo, cuando faltan un par de días para las elecciones generales, esas a las que nunca faltamos -por poco que nos gusten los partidos políticos actuales- quienes vivimos bajo el franquismo y ansiábamos poder ir a las urnas alguna vez en la vida. Aquella dictadura acabó. La de ETA permanece, casi como una prolongación de aquélla. Se nota tanto que esa organización añora el franquismo, cuando ellos hasta podían parecer "resistentes".

ETA no soporta que exista una democracia, todo lo imperfecta que se quiera. Que en el País Vasco no exista ninguna opresión desde hace más de veinticinco años, o sólo la que impone ella; que haya allí un Gobierno autónomo y un Parlamento con amplísimas competencias, incluida una policía vasca contra la que también ETA atenta de vez en cuando. ETA es hoy sólo una Mafia. Saben sus miembros y sus simpatizantes que si dejan de matar no serán ya nadie, no serán ya gente "de respeto" -es decir, temible y aprovechada- en sus pueblos y ciudades.

Madrid sufrió, durante el franquismo, la misma opresión que e1 País Vasco o que cualquier otra región de España. Si no más, habida cuenta de que el Gobierno central estaba aquí siempre, controlando bien de cerca, reprimiendo y encarcelando "en territorio propio". Hoy ha vuelto a sufrir la opresión máxima. Podía haber sido cualquier otro sitio, es sólo que aquí hay más gente y siempre pueden caer más víctimas.

Hace unos años supimos, por confesión propia, que los miembros de un comando etarra que dispararon en la nuca a un concejal de Sevilla y a su mujer, que paseaba con él por la calle pero que ni siquiera tenía ningún cargo, celebraron aquella noche su hazaña con una gran cena, champagne incluido, e incluidas las risas. No hay por qué pensar que hoy no lo celebren igual, los autores de esta matanza y quienes les dieron las órdenes. Qué estupendo, y qué risa, mirad cómo llora la gente, cómo cae despedazada, cómo estallan sus cuerpos o quedan aprisionados en el amasijo de hierros, cómo salen despedidos, volando, mirad cómo arden vivos, y cómo siguen muriendo luego en los hospitales, uno tras otro. Iban al instituto, a la oficina, a la fábrica. Y miradlos ahora, qué gran risa.

Puede que un día ETA se disuelva. Es muy posible que entonces haya una amnistía que saque a la calle a todos sus presos, como la que ya hubo al comienzo de nuestra democracia, y a todos los que entonces había se les devolvió 1a libertad, incluidos los que habían cometido asesinatos. Si ese día llega, será de alegría, porque ETA habrá acabado, y estoy seguro de que los ciudadanos consentirán esa amnistía, la darán por buena, aunque sea con asco. Pero no en nuestro fuero interno, no en nuestra memoria ni en nuestra conciencia. Ahí, en el terreno no cívico ni político; ahí, en el terreno personal e íntimo, jamás la perdonaremos.

|| mjo, 15:50 || link || (0) comments |

ETA

Estou-me a dar conta de uma certa satisfação nalgumas cabeças de esquerda (não estou a falar do Barnabé) com a informação de que, afinal, os atentados de ontem não terão sido cometidos pela ETA mas sim pela Al Qaeda. Gratuitamente, disponibilizo-lhes um slogan para um autocolante:

A ETA não mata tanto
A ETA mata mais branco


Se forem rápidos ainda o imprimem a tempo da manifestação de hoje, às 18h00, na Praça de Espanha.
|| JPH, 12:50 || link || (0) comments |

quinta-feira, março 11

Madrid

O terror tomou conta de uma das minhas cidades do coração. E a dor nunca mais se apaga.
|| mjo, 19:09 || link || (0) comments |

Acho que agora voltei de vez

Dias mirabolantes obrigaram ao meu afastamento desta nossa casa (parece que estou a competir contigo Nuno). Espero sinceramente retomar a escrita de posts com a assiduidade dos primeiros tempos do GF.
Depois de tantos dias longe dos blogues só hoje consegui pôr a leitura em dia e fiquei muito muito contente com os textos da Ana e do João Pedro. E também com o regresso do Nuno, claro, de quem aguardamos muitos mais posts.
Também em atraso estão os meus agradecimentos ao Lu?s, que me enviou uma rosa (sempre tão carinhoso e tão atento), e aos belíssimos excertos (Pavese e Walser) que publicou na sua Montanha Mágica.
Sobre a minha falta quanto a receitas culinárias (como bem notou o Filipe Moura), prometo umas sobremesas daqui a uns dias. Apesar de os comentários que já começámos a ouvir alegando algum enfado provocado pela gastronomia Glória Fácil resta dizer que continuaremos a chatear durante mais algum tempo. É que agora a fome aumentou...
|| mjo, 17:50 || link || (0) comments |

Amor da Pátria

Quando Vitorino Nemésio chumbou o ano, no liceu de Angra, o pai recambiou-o para a Horta para, com mais sossego, se corrigir. Foi aí que conheceu José Dutra. Tornaram-se íntimos e nos bailes do Amor da Pátria amaram a mesma rapariga, Margarida. Margarida preferiu Nemésio, por causa dos poemas, deve ter sido, porque se bem me lembro Dutra, que já conheci muito velho, fora muito mais belo que Nemésio. Na casa de férias em São Roque do Pico, José Dutra ainda murmurava no último Verão:
- Era burro, o Nemésio, era burro no liceu.
Quem me contou do ressabiamento eterno do pai com Nemésio foi Margarida, a neta. Quando lhe nasceu uma filha – da primeira mulher que o beijou nas traseiras do Amor da Pátria, depois de Margarida ter escolhido Nemésio – José Dutra quis ficar com o nome por perto. Nomes inúteis, Nomes de família.
Estive com Margarida no Faial. Ela dividiu o Verão entre a casa do avô, no Pico, e a sua casa pertinho da Cônsul Dabney.
- Alguma certeza deve existir, repetia. Se não de amar, ao menos de não amar.
Enquanto dizia isto, vomitava.
Dei grandes passeios com Margarida, vomitando ela por Porto Pim, vomitando na Matriz, a vomitar mais longe na Espalamaca, uma vez alugámos um carro e vomitou no fim do nosso mundo conhecido, junto ao vulcão. Margarida vomitava de amor.
Nunca percebi o que viu Margarida em Jos, o holandês brutamontes. Tentei distraí-la.
- Hoje há baile no Amor da Pátria.
- Não vou.
Foi. Depois dançou com um homem de “smoking” e, por instantes, num segundo rápido, via-a feliz. A boa sociedade da Horta parecia ter voltado ao tempo dos Dabneys, mas o homem de “smoking”, quero crer, não era da boa sociedade da Horta. Talvez fosse um marinheiro ou um deportado. (continua)
|| asl, 17:05 || link || (0) comments |

Não vi, não irei ver

A Paixão de Cristo, de Mel Gibson: não vi, não irei ver. Chega-me o que já sei pela TV e pelos jornais. Nem quero imaginar o efeito deste filme nos países muçulmanos, nos mais extremistas. Uma escola de ódio anti-semita óptima para formar bombistas-kamikazes em duas horas apenas.
E, além do mais, a estética do horror e da tortura como instrumento proselitista. Não há, aqui, grande diferença entre o Gibson e aquelas organizações católicas (como o SOS Vida) que distribuem folheto anti-abortos a miúdos à porta das escolas, folhetos com fotografias (forjadas) de orientais a comerem fetos "no churrasco". A hierarquia católica cauciona, claro. Uma vezes pela passividade (o caso do folheto), outras activamente (o filme). Roma, já se percebeu, está a andar para trás.
|| JPH, 14:41 || link || (0) comments |

Atocha

O horror de Atocha foi connosco, não foi connosco? A indiferença nacional relativamente à ETA é um "case study", cuja génese deve andar entre Afonso Henriques e o domínio filipino.
|| asl, 11:35 || link || (0) comments |

quarta-feira, março 10

Aborto

Este meu amigo, aquele que às vezes desagua em áreas de serviço lá prás 5h00 da manhã onde se irrita sozinho com caçadores cinquentões, disse-me um dia destes:

- Eu também abortei. Duas vezes. Uma não sei onde foi. A outra sei: foi num andar de um prédio na Estrada dos Arneiros, ali em Benfica, sabes? Era uma enfermeira parteira da Alfredo da Costa, a fazer uns dinheirinhos extra. Serviço limpo, devo-te dizer. Uma senhora simples, simpática, a televisão da sala tinha um naperon bordado por cima, uma jarrinha com flores de plástico, o quadro do menino que chora na parede...

- Meu caro, os homens não abortam...

- Isso achas tu...há homens que abortam...eu abortei...olha, não sei explicar.
|| JPH, 20:10 || link || (0) comments |

terça-feira, março 9

Caçadores

Ele, quando muda de casa muda de área de serviço. É lá que atraca antes de entrar em casa, que em casa não bebe.

A última enchia-se à noite, pela madrugada fora, de estudantes, a marrar para os exames, muitos de portátil ligado, todos de carrinho. Amantes, também, alguns - poucos. Hoje a àrea de serviço dele é outra. Não tem estudantes nem amantes nem nada acabado em antes.

Pelas cinco da manhã começam a chegar os caçadores. Cinquentões, sessentões, todos na idade média. Todos de camuflado, muito gasto. Vê-se bem que passaram pelo "ultramar". Três anos de "ultramar" topam-se à légua na cor da pele. Eles vão agora às perdizes como antes iam aos pretos - pensa ele, já bebâdo. Bem, mas antes perdizes que pretos, pensa ele, que assim finalmente conseguiu desencantar um argumento a defender a caça. Ide e caçai rapazes, rosna ele, para dentro, antes de ir a correr vomitar a cerveja.
|| JPH, 17:05 || link || (0) comments |

Cinema com cidade dentro

Tem a sua graça um cinema que deixa entrar lá dentro a cidade à volta. É assim no "Saldanha Residence", aqui em Lisboa. Ouve-se o metro passar, ao fundo. Em filmes urbanos, como o Lost in Translation, faz todo o sentido. Ao princípio nem se percebe bem se é do filme se não é. Em filmes urbanos fica sempre bem. Já no "Dança com Lobos", enfim...mas também não deixa de ter piada.

PS: Sei que isto é um pouco desagradável. Mas não posso deixar de revelar esta informação, que me chegou de fonte seguríssima. Desculpem-me, não levem a mal. Mas aí vai: os lábios da Scarlett Johansson foram inchados manualmente, com plásticas. Uma boca assim não existe. Atrevo-me a dizer: é inconstitucional; e viola várias directivas comunitárias.
|| JPH, 12:51 || link || (1) comments |

Glória, Barnabé, Público

1. Eu não devia comentar o PÚBLICO no Glória Fácil. Vou passar a dominar a minha impulsividade e deixar de escrever directamente para o “blogger”. Microsoft Word forever.

2. Tive um arroubo de brutalidade com o Daniel, que até deixou o JPH, o nosso bruto de serviço, espantado. Ao perguntar ao Daniel “Quando o PÚBLICO nasceu tu já sabias ler?” era uma piada à idade dele, que, de resto, não teria o melhor dos gostos. Eu achava que o Daniel, mais novo do que eu, era muito muito mais novo do que eu. Como sofro do síndrome de Matusalém, convenci-me que o Daniel era (ou é) um ‘miúdo’. Não é. Já percebi que também já tem alguns anos.

3. À minha brutalidade, o Daniel respondeu com contenção e simpatia. Não é costume na blogosfera ou na vida. A gerência agradece.

3. Considero ofensivo o Daniel dizer que o PÚBLICO é uma “sombra” do que foi. A palavra “sombra” é sobrecarregada e hostil. Mas, repito, reagi com um ímpeto desnecessário, nomeadamente para quem tenta separar o PÚBLICO do Glória Fácil.

4. O Daniel tem todo o direito de dizer o que lhe apetecer sobre o PÚBLICO, como toda a gente, aliás. Penso que a ideia do PÚBLICO inicial é mitificada, porque o seu nascimento foi uma revolução, uma paixão, como todas mitificável. Mas a todos os nostálgicos recomendo as curas, a que eu própria de vez em quando procedo – por exemplo, consulto o Centro de Documentação do PÚBLICO, para onde remeto todos os que se quiserem dar ao trabalho de comparar. Uma sombra?
|| asl, 11:58 || link || (0) comments |

Jácome, André, Luís, Luís, Severo

Quem eu encontrei na ilha Terceira, e tinha olhos muito azuis, foi Jácome de Bruges, o fantasma do donatário. É a única certeza que tenho das viagens deste ano aos Açores: muito do resto é vago, impreciso, brumoso.
Morreram-me dezenas de palavras na Horta. Em Dezembro passado, numa ida rápida ao Faial, ficou lá mais meia-dúzia – não tive pena, as palavras inúteis devem desaparecer. Se morrerem no canal, morrem aos pés do fantasma de Margarida, a que queria ficar e queria partir, no mau tempo. Morrem em boa companhia. No bar do Peter, na única mesa de onde se vê o pico do Pico como deve ser, festejei a morte dessa palavras desnecessárias, confusas e toscas com água tónica e gin (muito pouco gin para a água tónica, como gozam os autóctones).
O Luís do Mal esclareceu, convincente, que não é o André. Bem me parecia. O rapaz que eu encontrei num porto de S. Jorge não percebia – e isso via-se logo – de educação sentimental. Era, porém, de confiança: o modo como olhava a Madalena denunciava-o. Os homens de confiança olham vagamente a ilha defronte.
Provavelmente, não era o André B. – embora ele não o tenha desmentido. Era de confiança, insisto, e tinha visto um touro cair à água no Cais do Pico. Pelo menos, era tanto de confiança como Severo, o da Graciosa, que, quando aportámos no meio de uma agreste tempestade, nos disse:
- Isto aqui é sempre assim e no Inverno é pior.
Fomos comer tubarão e chorar. Telefonei ao Luís, o médico hipocondríaco, à procura de consolo, embora eu soubesse de antemão que não se deve pedir consolo a hipocondríacos:
- O que é que eu faço aqui durante cinco dias?
- Lê. Não há nada para fazer, é um ‘stress’. Sei lá, dorme.
Quando, na madrugada seguinte, a luz intensa nos deu um pequeno-almoço feliz, contentámo-nos pela confiança depositada em Severo e em Luís, que, ao fim e ao cabo, nos proporcionou aquele prazer inesperado. A confiança tem dois gumes.


|| asl, 11:11 || link || (0) comments |

domingo, março 7

Velas, Madalena

Talvez me tenha cruzado com André Bonirre, um dos que escrevem na Natureza do Mal, este Verão nos Açores. Tenho dúvidas se o André era mesmo o André, mas o problema é meu, porque confundo rostos fora do contexto e já invoquei, por falta de memória, santos nomes em vão. Descontextualizadas, as personagens atropelam-se como numa “sitcom” e a Madame Bovary é minha prima. Talvez o André não fosse o André, o que é o mais provável, mas mesmo o André não sendo o André vou continuar a contar a história porque foi para isto (contar quaisquer histórias mesmo falsas ou monocórdicas ou as duas coisas ao mesmo tempo) que abri agora o "blogger".
Estávamos no cais de Velas (São Jorge) e queríamos ir para a Madalena do Pico. O “Princess of Seas” ou o que o valha tinha avariado, e exaustos e espojados em cima de uma bagagem excessiva para quem já andava há uns dias naquilo, de barco para barco, comíamos no chão. John partia queijo com a mão e gozava com a minha recusa em me livrar do (como lhe chamava) “lastro sentimental”: uns livros da Terceira, muito pesados, uns jornais velhos, alguma parafernália de “giftshop” delicada.
Só tínhamos queijo e children fast food, (filipinos, acho) para comer à mão. As dores de estômago começavam a provocar-me saudades do Luís, o médico hipocondríaco que sofre de uma espécie rara de agorafobia e só na sua ilha mínima pode sobreviver.
O barco, que tinha avariado a meio do canal, não tinha solução rápida. Ficámos à espera de outro que, daí a três horas, chegaria do Faial. Falávamos alto, por falta de assunto.
E então o André (ou outra personagem) que estava sentado à minha beira, perguntou-me se era açoriana, o que muito orgulho me deu por causa da pronúncia. No grupo central, eu tento imitar a pronúncia, o que não é possível em São Miguel.
- Não, sou de ‘lá fora’. (Disse eu, julgando ser André açoriano e desejando copiar o seu dialecto. “Lá fora” igual a Continente)
- Ah, mora no estrangeiro! (Como André não era açoriano não percebeu o ‘lá fora’ e julgou que eu fosse emigrante, o que também é muito banal).
Depois de nos termos desiludido mutuamente, ao constatarmos, no chão das Velas, a nossa continentalidade, André contou-me que andava à procura de uma poetisa perdida nos Açores. Eu falei-lhe do Luís que gostava de Emanuel Félix – e pareceu-me ele ser sensível à história do médico hipocondríaco.
Antes do Cruzeiro do Canal chegar, ainda me contou de uma tourada que tinha assistido no Cais do Pico (S. Roque) em que o touro caiu à água. Foi muito difícil evitar que o touro se afogasse.
Quando chegou o barco, no meio da confusão – pensei que com tanto peso ou a criança, ou eu, ou o evitável, segundo John, “lastro sentimental” cairiam à água como o touro – e perdi o André. Pelo canal S. Jorge – Pico, a noite estava estranhamente bela e os faróis indicavam o Cais mais perto, a Madalena mais longe, a Horta assim inalcançável. As palavras, quando morrerem, ficam-se neste mar mais central e não em Ponta Delgada como quer o “Bartleby” de Vila-Matas.



|| asl, 22:57 || link || (0) comments |

sábado, março 6

Receita

Vou aderir à moda das receitas. A minha primeira receita (de suave inspiração mediterrânica) não tem nome, fui eu que a inventei num dia de necessidade.

Ingredientes:

Uma perna de borrego
Azeite
Alhos
Hortelã
Um limão
Sal e pimenta



Compre uma perna (ou uma mão) de borrego. Já agora, peça para a desossar no talho. Lave bem a carne e corte em pedaços pequenos.
Num tacho grande (de preferência de barro) ponha cinco ou seis dentes de alho, sal e pimenta. Ponha 1 dl de azeite no tacho. Aqueça o azeite e os alhos em lume brando. Passados dez minutos, coloque a carne e tape o tacho. Deixe guisar a carne, em lume brando, durante uma hora. Atenção: vá mexendo a dita cuja – a carne – para não «pegar».
Está, então, na altura de espremer um limão. Misture um pouco de água ao sumo do limão e adicione ao guisado. Deixe apurar durante mais meia hora. Ou até mais, conforme o gosto dos comensais.
The last but not the least, ponha uma raminho de hortelã, depois de bem lavada.

Sirva com arroz branco (solto), feijão branco cozido ou batata frita ou... o que lhe apetecer!

Enjoy!
|| Nuno Simas, 22:23 || link || (1) comments |

sexta-feira, março 5

Onde irão parar as últimas palavras

"(...) Pouco antes de desligar o telefone, Juan fez-me duas perguntas, que ficaram sem resposta, porque lhe disse que preferia responder por escrito. Quis saber qual é a essência do meu diário e qual seria a paisagem - tem de ser real - que mais conviria a esse conjunto de notas.
(...) Quanto à paisagem, diga-se que se é verdade que a todos os livros corresponde uma paisagem real, a deste diário seria a que se pode encontrar em Ponta Delgada, nas ilhas dos Açores.
Por causa da luz azul e das azáleas que separam os campos uns dos outros, os Açores são azuis. A lonjura é, sem dúvida, o feitiço de Ponta Delgada, esse estranho lugar onde, um dia, descobri num livro de Raul Brandão, em As Ilhas Desconhecidas, a paisagem onde irão parar, quando chegar a sua hora, as últimas palavras; descobri a paisagem azul que acolherá o último escritor e a última palavra do mundo, a que morrerá intimamente nele: "Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço...".


Enrique Vila-Matas
Bartleby & Companhia
|| asl, 16:32 || link || (0) comments |

Nostalgia barnabeica

Por costume e facilidade, tento manter em reservatórios estanques estes sujeitos da minha vida dupla. Eu, Glória Fácil, não comento aqui o PÚBLICO e no PÚBLICO esqueço-me da Glória Fácil. Passo o Natal com o PÚBLICO e alguns almoços com a Glória Fácil. É uma tentativa, sei lá, de fidelidade. Mas hoje, o Barnabé, resolve comentar os 14 anos do PÚBLICO com aquela nostalgia esquerdalha do antigamente é que era bom, o antigamente que nunca se consegue localizar bem e que nos pode levar àquele terrível máxima "com Franco estávamos melhor". Uma sombra do que foi o quê? Vai ao Centro de Documentação e reaviva memórias, Barnabé. Quando o PÚBLICO nasceu tu já sabias ler?
|| asl, 14:01 || link || (0) comments |

quinta-feira, março 4

Arroz

Um bom arroz é um dos mais delicados pratos que se pode fazer. O meu bom arroz demorou praí 15 anos a apurar e só o sei fazer de uma maneira, frito em cebola e azeite, com um nadinha de colorau. Se no fim for embrulhado em jornal (é, aliás, uma das melhores utilizações do Expresso) ou colocado no forno, torna-se uma obra-prima. Viciei-me neste arroz - apesar de gostar de arroz de espigos, malandrinho, nunca tive coragem de o fazer (acho que com medo que demore outros 15 anos a apurar).
|| asl, 22:51 || link || (0) comments |

Cozinha indiana

Um blogue muito dedicado ao amor e ao ócio, começou a postar receitas de uma das mais maravilhosas cozinhas do mundo, a indiana. Gulab jam, para começar. Rui, pede lá à autoridade conjugal a receita dos bojés. Aqui a malta agradece.
|| asl, 22:46 || link || (0) comments |

Doce regresso

Para breve as sobremesas.
|| mjo, 16:34 || link || (0) comments |

Ups!(IV)

Escrevia eu ontem que, nestes dois meses em que não postei, perdi algumas polémicas, trocas de posts mais ou menos antipáticos e azedos com este e com aquele. Enfim, fui acompanhando à distância. Lendo, aqui e acolá!

Sistematizando. Segue lista de coisas-que-não-escrevi-ou-não-fiz-e-talvez-me-apetecesse-ter-feito-ou-escrever-aqui-no-Glória-se-tivesse-tido-oportunidade.

1. não escrevi para o Glória nem postei receitas;

2. não «inventei» um blogue para escrever que li um livro em chinês, apesar de não saber distinguir uma caracter chinês... Quem diz chinês, diz grego ou latim; tudo serve para ficar embriagado pela forma das letras...

3. não recebi um Óscar. Nem e-mails...

4. não encontrei as armas de destruição maciça do Saddão no Iraque; mas também não fui ao Iraque nem estou interessado;

5. não segui os conselhos da ministra Manuela Ferreira Leite [que Deus a guarde e lhe dê muita saúde] e não reduzi o meu défice orçamental doméstico; bem pelo contrário;

6. não resisto a sorrir com os sucessivos episódios da novela presidencial com o dr. Lopes e o prof. Aníbal; o dr. Lopes parece dizer «agarrem-me, agarrem-me se não eu candidato-me a Presidente...; o prof. Aníbal respira fundo, fica vermelho de fúria, range os dentes e diz que não diz nada; o eng.º António diz que não quer ser candidato; enfim...

7. não postei sobre o sr. Avelino e aquelas lindas cenas, no domingo, no estádio com o nome do sr. Avelino; o sr. Avelino partiu um equipamento que o sr. Avelino tinha comprado com o dinheiro do sr. Avelino.
7.a) as entrevistas do sr. Avelino, segunda-feira na SIC e na TVI, foram dos melhores momentos de humor televisivo da última década;

Post Scriptum Hoje está um sol magnífico. E eu não encontro uma esplanada para me sentar... Que maçada!
|| Nuno Simas, 12:57 || link || (1) comments |

Ups!(III)

Deve ser de já não bloggar há muito... Os últimos dois posts de ontem não entraram. Vou tentar reescrevê-los em versão condensada.

A emissão segue dentro de momentos...

|| Nuno Simas, 12:25 || link || (0) comments |

quarta-feira, março 3

Blog-free lunch

Fui almoçar com uns blogless friends. Apareceram, quinze minutos depois, mais dois amigos, um deles blogger. Os blogless friends aterrorizaram-se na expectativa de, nós dois, levarmos a conversa para os blogues - que lhes parece ao nível da física quântica ou da maçonaria regular. Prometemos um "blog-free lunch". Cumprimos. O bacalhau dourado estava óptimo, o outro blogger comeu costoleta panada. Não tocámos no "site meter", não aludimos ao "techorati", nada de nada, rien de rien. Um almoço como antigamente, no tempo em que não havia blogues.
|| asl, 18:40 || link || (0) comments |

Ups! (II)

Long time no see! Pois. Já lá vão meses sem dar sinal de vida. Sem dar à costa. A quantidade de «coisas» - polémicas a sério e fait divers blogosféricos - que eu fui perdendo?!... Enfim, ia lendo, à distância, de longe!

A certa altura, tive mesmo o receio de ser despedido (com justa causa) do blogue! Mas não. O mentor JPH ia telefonando de vez em quando, ora queixando-se do «sitemeter», ora dizendo que não se importava que eu «postasse» qualquer coisa... Hoje estou de folga. Cá vai!
|| Nuno Simas, 14:52 || link || (0) comments |

Ups!

Gluug! Voltei à superfície!
|| Nuno Simas, 14:25 || link || (0) comments |

Receitas, receitas, receitas

Isto das receitas adquiriu uma dimensão que não imaginávamos. Agora chovem mails.

Sopa Assada
Coza uma galinha, de preferência, do campo. No caso de não arranjar, as outras tb dão...bom, mas coloque na panela os temperos necessários e umas tiras de presunto (cortadas míudas).Reserve a água da cozedura. Coza à parte massa de cotovêlo, mal cozida (al dente). Depois disto feito, coloque metade desta massa no fundo dum pirex, e junte a galinha cozida e previamnte desfiada, as tiras do presunto e cubra isto com espargos de conseva, depois coloque por cima a outra parte da massa e leve ao
forno a gratinar. Sirva com a sopa da galinha que as pessoas irão colocar, no prato da massa, conforme gostem de mais molho ou menos. Vão ver como é bom!Um abraço e continuem a ser como são.
Fátima Rosado


Do nosso leitor António Pereira recebemos três receitas. Ei-las:

Caldeirada de Mexilhões (in Roteiro Gastronómico de Portugal)
Ingredientes:
·2 kg de mexilhões;
·2 cebolas;
·1 copinho de azeite;
·60 g de margarina;
·1 copinho de vinho à Madeira;
·1 raminho de salsa picada;
·sumo de 1 limão;
·3 tomates;
·sal;
·piri-piri q.b.

Confecção:
Limpe os mexilhões esfregando-os com uma escova. Num tacho com azeite e margarina refogue as cebolas
descascadas e cortadas em rodelas, a salsa, os tomates lavados e cortados em pedaços, o vinho da Madeira e o piri-piri. Quando tudo estiver bem refogado, junte os mexilhões e, quando estes abrirem, retire-lhes a concha vazia e regue-os com o sumo do limão. Coloque-os numa travessa juntamente com o seu molho e sirva.

Sopa de cação
Ingredientes
Postas de Cação - 4
Azeite - 3 colheres de sopa
Coentros - 1 ramo
Alhos - 3 dentes
Vinagre - 1 chávena
Farinha - 1 colher de sopa
Pão - 200 g
Sal q.b
Louro - 2 folhas
Colorau - 1 colher de chá

Preparação
As postas do cação devem ter cerca de 3 cm de espessura. Depois de bem arranjado o peixe, põe-se de
molho durante duas horas em água vinagre, sal e louro. Refogam-se no azeite os coentros e os dentes de alhos picados. Adiciona-se depois a pouco e pouco a água necessária para a sopa. Tempera-se de sal e
introduz-se o cação. Deixa-se cozer. Depois adiciona-se à sopa meia chávena de vinagre onde se
desfez a farinha e, querendo, uma colher de chá de colorau. Deixa-se ferver até que a farinha não saiba a
cru. Corta-se o pão às fatias finas, que se colocam bem acamadas numa terrina. Regam-se com o caldo e por cima dispõe-se o peixe. Serve-se imediatamente.


Ensopado de Borrego
Ingredientes (4 pessoas)
Carne de Borrego - 1,2 Kg
Cebolas médias - 2
Vinho branco - 4 dl
Margarina - 1 colher de sopa
Alhos - 2 dentes
Louro - 1 folha
Pimenta q.b
Tomates maduros - 3
Batatas novas - 0,5 Kg
Pão qb
Sal q.b

Preparação:
Corta-se a carne em bocados, tempera-se com com sal, vinho branco, alhos picados, louro e pimenta. Aguarde pelo menos uma hora. Leve ao lume as cebolas picadas, o óleo e a margarina. Quando a cebola ficar transparente adicione o borrego escorrido. Cozinhe uns minutos com o tacho destapado. Quando a carne começar a secar adicione o tomate pelado e cortado aos pedacinhos e a marinada. Tape o tacho e mantenha-o em fervura lenta até a carne estar macia. Se achar necessário acrescente um pouco da água a ferver. Apure o molho e rectifique os temperos. Dentro de uma travessa funda disponha o pão cortado às fatias. Cubra com o borrego e o molho. Polvilhe com salsa picada. Acompanhe com as batatinhas cozidas.



Nota final: O Glória Fácil prescinde totalmente de reclamar (porque seria mentira) qualquer espécie de originalidade primordial em matéria de culinária blogosférica. Um abraço a todos. Bom dia.
|| JPH, 12:49 || link || (0) comments |

terça-feira, março 2

Frémeaux & Associés

Será vergonhoso. Mas assumo que só hoje soube da existência da editora francesa "Frémaux & Associés" (ler o penúltimo post, "Anthologie Celine"). Indo ao site dá-se conta do anúncio de uma Antologia Sonora do Pensamento Francês (que, claro está, não inclui Céline). Inclui, isso sim, pensadores como Sartres, Althuser, Deleuze, Raymond Aron, Foucault.

Pergunto: existe por cá algo minimamente parecido? Ou, não existindo, é totalmente impossível construir uma coisa parecida? Respostas, se houver, ao mail do Glória Fácil (coluna da esquerda).
|| JPH, 16:10 || link || (0) comments |

Sopas

Sofia afirma que há imenso tempo que escreve sobre receitas - ou seja, o Glória Fácil não iniciou nenhuma moda. Ok. O seu a seu dono (no caso, a sua dona).

Dito isto, partilho uma pequena mania quando cozinho cremes de legumes. Antes de os pôr a cozer faço sempre um leve refogado com alho francês. Quando o alho acastanha acrescento-lhe a água e os legumes.
|| JPH, 15:58 || link || (0) comments |

"Anthologie Celine"

Será possível? Cerro os olhos. "Anthologie Celine", leio, letras vermelhas e pretas, sobre uma fotografia a preto e branco. Na foto, ao centro, de pé, lá está o homem, envelhecido, magro, despenteado, olhos claros, onde ainda paira um vigor antigo. Peço ao funcionário que me deixe ver a obra. É ele mesmo, Celine, numa edição que nunca cá tinha visto. Digo que a vou levar. "Não quer ouvir antes?"

Não, levo já, quanto é? Eis a descoberta: Um CD duplo da editora francesa Frémeaux & Associés com registos sobre (e do) génio Louis Ferdinand Céline: três entrevistas, duas canções cantadas pelo próprio, leituras de excertos da "Viagem" e da "Morte a crédito". Na MC do Picoas Plaza.
|| JPH, 14:47 || link || (0) comments |

Amanhã, Bassorá

Digo-vos: não há como começar o dia com umas marchas militares. O caos é lá fora. Aqui: as tropas em parada, fardas azuis bem engomadas, botinhas a brilhar, atacadores e lenços de peito brancos reluzentes, os carros de combate a precisar de rodagem, lavadinhos de fresco, os pneus envernizados, uma banda afinada, rigor, disciplina, uns mandam, outros obedecem, discursos ouvidos como mandam as regras, olhos postos no infinito (e o cérebro, se calhar, em Bagdad, onde ontem foram mortos mais umas dezenas).
Sol, frio, ordem - hoje. Amanhã, Bassorá.
|| JPH, 14:27 || link || (1) comments |

segunda-feira, março 1

Sophia, doce Sophia

Separados Fomos

Separados fomos por cítaras e canto
E pelos longos poemas silabados
E entre nós dois deitaram-se paisagens
Que nos mantinham imóveis e distantes

Embora o fogo secreto das palavras
E a veemência do canto e das imagens
Embora a paixão das noites consteladas
E o nevoeiro tocando a nossa face

Separados fomos por cítaras e canto
Como outros por prisões ou por espadas
|| asl, 22:35 || link || (0) comments |

Coentros

Não tenho paciência para algumas discussões, atravessadas por um moralismo rançoso, que dominam o debate sobre a "blogosfera hoje" - aquele que se arvora em principal combatente do politicamente correcto é quase sempre o mais politicamente correcto. Eu estou aqui para postar receitas de cozinha.

Segue, então, o verdadeiro creme de coentros (muito forte, só aceitável para verdadeiros amantes de coentros)

Cenoura, cebola, batata, eventualmente nabo. Um molho de coentros. Tudo cozido, mói-se com a varinha mágica. Azeite só no fim. Tem que ficar mesmo em creme (se ficar muito líquido, deve-se pôr mais batata).
|| asl, 22:20 || link || (0) comments |

Espelho meu

Espelho meu, espelho meu, digam lá se há alguém mais belo do que... (Isto é dedicado a uns blogues que não cito para manter virginal esta escrita).
|| asl, 21:27 || link || (0) comments |

"Do patrulhamento ideológico"

Um belo texto no Cruzes Canhoto (CC) sobre o famoso "patrulhamento ideológico", expressão em que Francisco José Viegas se viciou - e JPP ampliou. O texto do CC é uma resposta a Luís Carmelo que, no Miniscente, escreveu: "Aconselho os blogues apenas empenhados na carcaça ideológica, na bajulação à agenda noticiosa diária e nas tricas insossas a repetirem com Mário de Sá-Carneiro as palavras que aparecem no início do Eu-Próprio Outro: “Sou tão grande que só a mim posso dizer os meus segredos”.

Lendo o Miniscente verifica-se, de facto, que não há ali qualquer "bajulação à agenda noticiosa diária". Posts sobre os Óscares, sobre o filme do Mel Gibson, sobre a "candidatura" de uma professora de Évora a Presidente da República, ao centenário do Benfica são só, naquele blogue, referências subliminares a Mário de Sá-Carneiro. De agenda noticiosa não têm nada!

Escolho do texto do CC a mesma frase que o João Fernandes escolheu: "Porquê tal animosidade contra quem (...) se limita a falar apenas do que lhe interessa, do que o diverte, daquilo em que se sente mais seguro ou, como me aconteceu hoje, daquilo em que lhe der na real gana?"

Acrescento só mais umas coisinhas:

1. A obsessão que o Aviz e o Abrupto devotam ao tal de "patrulhamento ideológico" transforma-os, a eles próprios, nos principais patrulhadores ideológicos da actual realidade blogosférica nacional. Denunciam o monstro - e transformam-se nele. Sem se darem conta, claro.

2. Sempre que falam do "patrulhamento ideológico" suscitam uma pergunta imediata a quem os lê: mas afinal de quem é que estão a falar? Nunca dizem, claro. Quem quiser que enfie a carapuça (eu, por norma, enfio). Mas esta prática (de nunca chamar os bois pelos nomes) pode ser objecto de uma vasta gama de qualificativos: vai "falta de frontalidade" à "cobardia" pura e simples. Julgamentos de carácter, claro, pensará JPP. Eu digo: pois...Por mais que me esforçe, não consigo separar a escrita de quem a escreve.

3. Por ora, é tudo.
|| JPH, 20:40 || link || (0) comments |

Março marçagão

Manhã de Inverno, tarde de Inverno, noite de cão
|| asl, 20:06 || link || (0) comments |

Coentros

Não sou muito de poejos. Mas, se tiverem paciência, aqui o pantagruel fácil pode partilhar duas receitas de sopas: o velho creme de coentros (à bruta) e a sopa de legumes-com-um-nadinha-de-coentros-que-nem-se- percebe-que-são-coentros (muito mais sofisticada). Não pode ser é já, I'm sorry.
|| asl, 18:13 || link || (1) comments |

Europeias

António Sousa Franco é o cabeça de lista do PS às eleições europeias. Confirmou-se, portanto, um dos prognósticos do prof. Marcelo.
|| JPH, 17:48 || link || (0) comments |

A vida mais A Praia

Aqui há uns tempos, o Ivan Nunes fez uma óptima análise ao filme do Woody Allen, que repesco agora, onde se analisa o filme melhor que nos textos abaixos, que reproduzem apenas "achismos".


Woody Allen em AntZ

De cada vez que Woody Allen fizer um filme novo, haverá sempre um idiota para proclamar que se trata do «regresso» do realizador às suas comédias dos «bons velhos tempos». Haverá também outros, suficientemente sensatos para não fazerem semelhantes descobertas, que se limitarão a manifestar o seu enfado pelo carácter repetitivo da obra do realizador. Mas parece-me que faz mais sentido comparar a obra de Woody Allen ao discurso de um paciente ao longo da psicanálise: de tempos a tempos, os mesmos temas, os mesmos problemas e as mesmas obsessões reaparecem; no entanto, nunca são formulados da mesma maneira, nem no mesmo contexto, nem dizem nem querem dizer precisamente a mesma coisa. Um filme de Woody Allen de 2003 está trinta anos distante de um filme de Woody Allen de 1973, não só no plano do facto mas porque ele passou trinta anos a mastigar os mesmos temas, as mesmas obsessões.
Esta imagem da análise parece-me que faz especial sentido em relação a Anything Else. O filme introduz uma novidade muito significativa no universo de Woody Allen. Não é a primeira vez que o actor que encarna «a personagem de Woody Allen» é outro que não o próprio Allen: já aconteceu com Kenneth Branagh em Celebrity (1998) e até com o boneco animado de AntZ (1998), um dos meus filmes preferidos «de» Woody Allen dos últimos anos, em que a formiga Z era o próprio Allen. Mas é a primeira vez em que «a personagem de Woody Allen» entra pela mão de dois actores diferentes, com dois papéis diferentes, no mesmo filme. Jason Biggs é «Woody Allen», o «Woody Allen clássico», que vai ao psicanalista, passa a vida desorientado pelas mulheres e vive obcecado com a morte; mas Woody Allen também é «Woody Allen», um personagem mais velho, uma outra faceta de Allen, que no filme só existe enquanto amigo e confidente do primeiro.

E o que diz, basicamente, o Allen-velho ao Allen-Biggs? Diz-lhe, a todo o momento, que ele tem que largar o lastro, tem que deixar o seu agente profissional inútil, a rapariga por quem vive obcecado e que faz dele gato-sapato, o psicanalista de quem está dependente, deixar tudo e até Nova Iorque e partir para a Califórnia. Numa frase só, Allen-velho diz a Allen-Biggs para escolher a vida em detrimento da análise; para viver, e não obcecar permanentemente a pensar nisso. Esta ideia é sublinhada em várias passagens do filme, mas sobretudo pelo contraste entre as conversas de Allen-Biggs com o seu psicanalista – um psicanalista que nunca tem opinião sobre nada e que só abre a boca para decretar o fim da sessão ou para devolver as perguntas do seu analisado – e as conversas, que por vezes aparecem imediatamente a seguir, em que Allen-Biggs põe as mesmas questões ao Allen-velho e este, pelo contrário, não dá senão conselhos e até ordens sobre tudo o que o mais novo deve fazer na vida para se libertar, ser ele próprio e, em última instância, ser feliz. O Woody Allen mais velho também já esteve na psicanálise, até ao dia em que, perante o cretinismo do psicanalista, lhe enfiou com um extintor na cabeça.
Temos portanto dois Allens, pela primeira vez, no mesmo filme. O Allen-velho diz ao Allen-Biggs, ao Allen «clássico», que se liberte das suas obsessões, que perca o medo, que viva a vida. Será que temos, então, Woody Allen contra Woody Allen, contra aquilo que Woody Allen sempre foi? Creio que não. Allen-velho e Allen-Biggs são a mesma pessoa: trata-se de um diálogo interior de uma mesma pessoa em pontos distintos do caminho. E quando, no final, Allen-Biggs se liberta simultaneamente do lastro (da namorada, do psicanalista, etc.) e do Allen-velho, o filme acaba, porque o Allen que começa aí é outro Allen, um Allen-síntese. Dá vontade de dizer que à medida que a vida de Woody Allen caminha para o fim, o seu trabalho de análise também caminha para o fim, e o que começa a ser-nos proposto é a porta de saída.

Este filme não é um dos meus favoritos de Woody Allen: o mecanismo de pôr Biggs a falar para a câmara parece-me cansativo, a personagem de Christina Ricci é muito menos interessante que mulheres anteriores em filmes seus e pareceu-me haver, em alguns momentos, um excesso de «piadas». No entanto, o filme coloca, como quase sempre, questões muito interessantes - e novas. O ponto-chave, a meu ver, é que a obra de Allen nunca será compreendida filme-a-filme: nenhum filme dele é, estritamente falando, uma obra-prima, porque nenhum é obra de síntese. O que Allen vai fazendo, ano-a-ano, filme-a-filme, é o seu trabalhinho de análise, o amadurecimento da sua reflexão interior que ao mesmo tempo só existe enquanto prática, isto é, enquanto coisa real, trabalho realizado, filme. As obsessões são recorrentes, mas o ponto em que estamos na reflexão sobre elas nunca é o mesmo.
|| asl, 16:47 || link || (0) comments |

Serviço público (II)

Quer entregar o seu IRS via internet? É muito simples: liga-se no Glória Fácil e ali à esquerda clica em "Impostos on line". Bons reembolsos!
|| JPH, 16:40 || link || (0) comments |

Serviço público

Na coluna do lado esquerdo acrescentamos mais um "link" de relevante interesse público: as informações telefónicas da PT. Sirvam-se.
|| JPH, 16:31 || link || (1) comments |

Oscares

Por mim anseio pelo Shrek II, dobrado em português. Assim posso dizer que também vou ao cinema.
|| JPH, 16:29 || link || (0) comments |

Receitas - uma espécie de "best of"

Isto das receitas fez o seu caminho. A Ana lançou o rancho pobre, eu depois acrescentei a caldeirada e desde aí que a coisa não pára. Impõe-se uma resenha.

1. No Mar Salgado, FNV teorizou, em linguagem quiteriana, sobre o problema do arroz de bacalhau. Anunciou ter resolvido um problema que o "afiligia há muito". Apreciei. Devo dizer que de um lados da minha família (o coimbrão) a bacalhauzada natalícia implicava, além das batatas e das couve, o arrozinho do dito. Rego-o com azeite, no prato. Não se dispensa a companhia de um ovo cozido.

2. A minha caldeirada a despachar, comprada no supermercado e tudo, mereceu comentários do Filipe Moura e do Ernesto. O Filipe considerou "burguês" o uso de gambas cozidas. Expliquei que o que interessa é usar na produção da caldeirada o caldo da sua cozedura. O Ernesto endoideceu propondo poejos. Poejos para mim dá licor e é tudo.

3. O António Colaço também aderiu à conversação, apresentando uma complicadissima receita de robalo no capote. Fiel aos seus eternos clichets de esquerda, defendeu que o grão de bico deve ser cozido em casa e comprado nos mercados. Comentário oficial: Pois. O Colaço também deve ser saudado por, uns posts abaixo, ter feito uma referência a uma tal de Teresa Dias Mendes, excelente morena das minhas relações que trabalha na TSF.

4. Gabriel Silva, dessa nova holding blogosférica que d? pelo nome de Blasfémias, propôs-me um "bom, tradicional e genuíno Cozido à Portuguesa". Três notas: a) Que o Blasfémias faça juz ao nome, que isto anda muito doce; b) A receita do Cozido é muito conservadora. Isso constituiu uma violação flagrante do (modesto) objectivo do Blasfémias: ser uma "referência do liberalismo nacional". c) Por mim, aposto no "fast food" à portuguesa.

5. Precisamente no âmbito desta nova "fast food" à portuguesa, L. Bonifácio publica uma receita de sopa dourada que me parece de lamber os beiços e chorar por mais.

6. É tudo. Bom proveito!
|| JPH, 14:10 || link || (0) comments |

O velho II

Ora não temos 12 anos, nem sequer 10, mas a emancipação da filmografia infantil, penso, já é justificada.
Primeira cena, num banco do Central Park, Woody Allen e Jason Biggs.
- O Woody Allen é o velho?
- Sim, é o velho.
Obviamente que o Woody Allen é o velho e eu também já fui mais gira.
A princípio ainda nos rimos muito, tive que traduzir algumas palavras mais "esquisitas". Lá para o meio começámos, os dois, a rir menos.

(Aliás, a extinção generalizada dos intervalos interfere com as boas "absorções" dos filmes. E fazia falta um cigarro)

Os últimos 50 minutos nunca mais acabam. A personagem feminina torna-se insuportável, Allen um chato do pior e o Jason Biggs enfada comó caraças. A "sitcom" vive de quatro ou cinco quadros que se vão exaurindo
à medida que a fita roda. Deixámo-nos, entretanto, os dois de rir.
Não conseguimos "basar" mal o filme acabou, porque os nossos companheiros da esquerda e da direita insistiram na tradição de ver esgotar a ficha técnica.
- Gostaste?
- Mais ou menos.
- Eu também mais ou menos.
- O Woody Allen é mesmo muito velho, não é?
- Muito, não. É velho.
- Tem praí uns oitenta e tal anos.
- Isso também não. Uns sessenta e quatro, no máximo. Ele não parece assim tão velho.
- A mim, parece-me
Se calhar.
|| asl, 13:52 || link || (0) comments |

O velho I

Aos poucos, andamos a emanciparmo-nos dos filmes infantis. Levei o rapaz a ver o Woody Allen.
- Vamos ver o Woody Allen.
- Que filme?
- É o Woody Allen. O último filme do Woody Allen, é um realizador americano.
- Mas como se chama o filme?
- A vida e tudo o mais.
- Mas porque é que dizes "o Woody Allen" em vez do nome do filme?
- Porque quando a mãe era nova adorava sempre o Woody Allen. Todos queríamos ver todos os filmes que ele fazia. Não importava o nome.
- Mas isso é um bocado ridículo, é como eu dizer que quero ver o não sei quantos, em vez de dizer que quero ver o "Matrix".
- Se calhar.
|| asl, 13:47 || link || (0) comments |