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terça-feira, agosto 30

Luiz Pacheco, agora a despropósito e com a ajuda de Espuma dos Dias

Peço emprestado um pedaço de post em Espuma dos Dias.

É um excerto de um dos melhores textos do Pacheco, o outro. É de "A Comunidade", na sua versão da Contraponto (1964).

"Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), (...) aperto a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo: «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida.
Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)"
|| Nuno Simas, 02:20

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