Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quinta-feira, agosto 31

Sim, claro, uma morte anunciada...(II)

Ontem escrevi, sobre a morte de O Independente: "No dia em que projectos jornalisticos politicamente dirigidos forem liderados por jornalistas de corpo inteiro, com os dois pés na profissão e sem necessidade de fazerem do jornal uma arma de combate partidário e de promoção política pessoal - aí sim, talvez um jornal de cor política assumida sobreviva."

João Vilalobos, do Corta-Fitas, interpelou-me pedindo se podia explicar melhor. Então vou explicar: admito, em tese, a existência de jornais politicamente (ou ideologicamente, se preferirem) dirigidos (embora, na verdade, tenha dúvidas sobre a viabilidade económica de um projecto desses em Portugal). Falo portanto de jornais que assumam claramente ser de esquerda ou de direita ou neoconversadores ou o que queiram - como, por exemplo, a Atântico é, no seu formato mensal e de revista. Só que acho que esses jornais estão condenados ao fracasso se forem dirigidos por políticos transvestidos de jornalistas, como Paulo Portas foi, e não por jornalistas que só queiram ser jornalistas. Será ingénuo da minha parte? Admito perfeitamente.
|| JPH, 20:04 || link || (0) comments |

Notícias da Ibéria!

Soldados portugueses sob comando espanhol no Líbano?
Espanha fecha a torneira a Portugal no Guadiana?

Espera-se a qualquer momento um novo movimento pela Restauração... ou o aparecimento de um rejuvenescido movimento iberista... chefiado pelo ministro Mário Lino!
|| Nuno Simas, 17:16 || link || (1) comments |

quarta-feira, agosto 30

Líbano: vão os engenheiros

|| JPH, 20:14 || link || (0) comments |

Sim, claro, uma morte anunciada...

...a de O Independente, evidentemente. Difícil é não evitar o lugar-comum - é para isso que se fizeram, os lugares-comuns. Lamento a morte do semanário fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Lamento sobretudo pelo que implica em sofrimento para os últimos moicanos que lá restaram, como o Leonardo Ralha, por exemplo, que é um jornalista de mão cheia.
Isto são as coisas simpáticas que tenho para dizer. Mas também tenho coisas não tão simpáticas assim.
Na verdade O Independente morreu no dia em que Paulo Portas assumiu a sua verdadeira farda de sempre, a de político, deixando o semanário, onde foi também foi político, mas fardado de jornalista. A morte de O Independente ocorreu no dia em que, com a saída de Portas, o jornal renegou o seu direccionamento ideológico tentando tornar-se um jornal "sério" (até foi broadsheet e tudo, lembram-se?). Morreu quando quis matar o pai - como aliás está a acontecer com o Expresso (os sinais estão lá todos, é só ver com atenção).
A morte de O Independente é a morte do último projecto jornalístico politicamente dirigido criado no pós 25 de Abril. No dia em que projectos jornalisticos politicamente dirigidos forem dirigidos por jornalistas de corpo inteiro, com os dois pés na profissão e sem necessidade de fazerem do jornal uma arma de combate partidário e de promoção política pessoal - aí sim, talvez um jornal de cor política assumida sobreviva. Até lá, aguardemos.
|| JPH, 18:38 || link || (0) comments |

terça-feira, agosto 29

Dois pesos

Estranho as críticas à actuação do PCP face ao "seu" presidente da Câmara de Setúbal, Carlos Sousa. Tivesse o PS feito o mesmo em relação a Fátima Felgueiras, em 2001, e certamente teria poupado uma imensa vergonha a si mesmo, ao sistema democrático e até, como acabou por acontecer, ao Estado de Direito.
|| JPH, 20:20 || link || (0) comments |

segunda-feira, agosto 28

Só uma pergunta

E se um soldado português for raptado no Líbano, o que fazemos? Desencaixotamos os F-16?
|| JPH, 19:50 || link || (0) comments |

Solução informática de carreira profissional

Sair e voltar a entrar.
|| JPH, 13:26 || link || (0) comments |

sexta-feira, agosto 11

brincadeiras de mau gosto há muitas

a diana ralha manda e manda muito bem:


'Pelos vistos, F., não é só em Portugal... O triste recorte, escondido
num cantinho de uma página par e ilustrado com uma fotografia do tamanho
tipo passe, encontrei-o no CM:

"Khursheeda Sultonova tinha nove anos quando sete adolescentes a
assassinaram barbaramente com onze facadas, a 30 de Maio de 2004, na cidade
russa de São Petersburgo. Não havi aoutra motivação que não étnica, já
que a menina era tajique. Mas os juízes rejeitaram esta tese e
condenaram os culpados a penas entre os 18 meses e os cinco anos de prisão
(resta saber se também falaram em "brincadeira de mau gosto"). O ministério
público recorreu ao Supremo, que manteve as sentenças."

Bom fim-de-semana
Diana Ralha (desta vez, não me esqueço de assinar)'
|| f., 20:11 || link || (0) comments |

11/8

sempre que sucede isto, roga-se pela tranquilização. não, não é aqui, não, não é connosco. não, não somos um alvo. é com os ingleses. os americanos. os espanhóis. os tanzanianos, os egipcios, os indonésios. eles. é com eles. nós não temos guerra nenhuma com ninguém.

só corremos riscos se estivermos lá, em espanha ou nos eua ou no reino unido ou num avião ou num comboio ou no metro ou no autocarro.

só corremos riscos se tomarmos posição. só corremos riscos se não formos pela paz, a paz a todo o custo.

não queremos correr riscos. não queremos entrar em guerra nenhuma. por que é havemos de entrar em guerras? a guerra é uma estupidez, toda a gente sabe. na guerra, ainda por cima, morre-se. e não há nada mais estúpido que morrer por uma estupidez.
|| f., 15:11 || link || (3) comments |

quinta-feira, agosto 10

socialismo o muerte

estive em cuba em 1991, em trabalho para a grande reportagem. só me mandaram por 4 dias e não saí de havana e arredores. estava a decorrer o não sei quantos congresso do pc cubano e fui como turista porque não me davam visto como jornalista.

achei havana lindíssima, de uma beleza melancólica e apodrecida. entristeceu-me a miséria do povo, reduzido a pedinte sistemático ante os estrangeiros, as gineteras adolescentes alinhadas, à escolha, à porta das discotecas, e lá dentro aos cachos à volta dos turistas barrigudos, as filas de mulheres e homens de olhos sombrios em fila ao sol, à porta da mercearia, na mira de uma distribuição de frango, os pacotes racionados de feijão preto, o grande armazém empoeirado com vestidos de noiva onde só se entrava com senhas especiais, o homem que me pôs a mão no ombro e disse, devagar, 'é uma bela ilha, mas não se pode viver aqui. não vê que não temos nada?'.

comoveu-me a senhora de oitenta anos a quem ofereci os três sabonetes lux que tinha levado na mala por me terem dito que o sabão estava racionado e que se agarrou a mim a chorar, sob um retrato de che guevara colado nas paredes descascadas da sala, a desejar-me 'tudo de bom para ti, hija mia', como se lhe tivesse dado a lua.

comoveram-me os intelectuais 'do contra' que falaram comigo numa tarde de domingo, com uma gravidade cansada, da 'situação'. um mês depois um deles, uma poetisa, seria presa, arrastada pelos cabelos escada abaixo.

enfureceu-me a brigada de polícias que prendeu um cubano que jantara comigo na bodeguita del medio, o restaurante 'de hemingway', por ter jantado comigo. era, explicaram-me, um 'subversivo' porque um cubano não podia dar-se com turistas.

espantou-me a cenografia imobilista, romântico-irónica do país, os cartazes enormes de louvor a fidel e à revolução espalhados nas ruas, as belas notas encarnadas com a efígie de che guevara, os automóveis e as motos anos 50 remendados com arames, os slogans decapados pelo humor negro dos cubanos -- socialismo ou muerte? muerte, porque socialismo no lo hay.

escrevi sobre tudo isso um texto, hasta la victoria nunca, publicado em outubro de 1991. choveram cartas e críticas de pessoas que me garantiam que não podia ter visto o que tinha visto. umas nunca tinham ido a cuba. outras tinham lá ido e visto exactamente o contrário. o fenómeno não é de hoje nem específico de cuba.

a propósito, ler o joão do portugal dos pequeninos (http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2006/08/melhor-sorte.html) e o tiago do kontratempos (www.kontratempos.blogspot.com) sobre cuba. desculpem lá, o maczinho não linka.
|| f., 00:56 || link || (0) comments |

quarta-feira, agosto 9

claro, claríssimo -- ou não?

miguel, sempre na mouche.
|| f., 19:55 || link || (0) comments |

terça-feira, agosto 8

Ouro português no altletismo

Ah grande Francisco Homem de Melo!
|| Nuno Simas, 19:02 || link || (0) comments |

super rabo, mamas bock

Ricardo Araújo Pereira diz que a publicidade portuguesa descobriu agora as mamas. Tem razão. As mamas hoje em dia servem para tudo, de tal modo que dos anúncios só nos lembramos delas -- quanto ao produto a impingir, népias.

Quem é que vai pensar, por exemplo, que um par extraordinariamente bem fornecido, acomodado num bikini, a jogar ao vaivém numa praia, está a tentar vender-nos... o quê? Pois é. Ainda se a ideia fosse suscitar interesse em implantes mamários ou soutiens miraculosos ou mesmo bares topless, ainda vá. Mas quem é que vai adivinhar que um mupi com uma mama dourada a escorrer é um anúncio de cerveja? Uma pessoa vem na rua e vê uma mama a escorrer na paragem de autocarro e pensa 'olha, passaram-se. Deve ser do calor'. No dia seguinte é um rabo, também de mulher, também dourado e a escorrer. Olha-se melhor e descobre-se que é um anúncio à Super Bock e que aquilo são copos. Muito engenhoso (é uma perspectiva: a outra é 'que raio de tarados é que vêem mamas e rabos em copos?'). Mas, na verdade, que é que bocados do corpo de uma mulher têm a ver com cerveja? A cerveja vem do rabo? Vem das mamas? Sabe a rabo? A mamas? As mamas e o rabo bebem-se? Não. Já se sabe: as mamas são boas, o rabo também, logo, a cerveja é boa.

Nem deve valer a pena gastar o meu latim com o que isto indicia de boçalidade e objectificação da mulher (conversa feminista, duh). Queria só chamar a atenção da Super Bock para o facto de muitas mulheres (e homens homossexuais, já agora) beberem cerveja. Para quando a Super pilinha? Usem um fino.


(texto secundário da página contra os canhões do dn de 4 de Agosto. a propósito, ler isto e isto e isto)
|| f., 17:44 || link || (0) comments |

um almocinho de verão

O Verão convida a irrelevâncias. Talvez tenha sido com esse espírito que o dr. Ribeiro e Castro marcou um dos seus almoços da semana. Mais almoço, menos almoço, que diferença faz? Uma pessoa tem sempre de almoçar e, quantas vezes, apesar de tudo e sem grande vontade própria, acaba por almoçar acompanhada?

Presidente de um cada vez mais irrelevante, nos tempos que correm, CDS, Ribeiro e Castro decidiu aceitar o convite para almoço com o dr. Manuel Monteiro. O dr. Monteiro, além de ex-líder de um CDS à época não tão irrelevante assim, é presidente de uma irrelevantíssima coisa chamada Nova Democracia. Qual é o mal? Estamos em Agosto, à beira de ir de férias, um almocinho é uma deliciosa irrelevância.

Pode até ter sido assim, uma coisa displicente. Talvez o dr. Ribeiro e Castro partilhe a política democrata e cristã de não recusar almoços com ninguém, como quem não recusa apertos de mão e dá a outra face. E pode a coisa estar, assim, isenta de significado político.

Para azar do dr. Ribeiro e Castro, a re feição nunca poderia ter uma leitura tão benévola quanto esta. O dr. Ribeiro e Castro tinha a noção? Se tinha, avançou porquê?

O dr. Ribeiro e Castro já devia ter percebido que há muito tempo (praticamente desde que tomou posse) tem a cabeça a prémio. O almoço com Manuel Monteiro (que é uma espécie de besta negra da famosa "banda" de Paulo Portas) é uma daquelas tentações suicidárias em que, não se percebendo bem porquê, Ribeiro e Castro embarcou.

É provável que o dr. Ribeiro e Castro tenha entrado numa corrente vertiginosa qualquer - uma coisa que acontece frequentemente a qualquer cidadão acossado e que, num dirigente político, ganha maior visibilidade. Essa corrente vertiginosa não lhe permitiu ter a noção de que debater convergências com Manuel Monteiro é hostilizar uma parte importante do partido - a parte que não lhe perdoa a derrota no Congresso nem a crescente invisibilidade do CDS.

Só uma pessoa tinha a ganhar com o almocinho de Verão : Manuel Monteiro, o arqui-inimigo de Paulo Portas. Se Ribeiro e Castro não viu isto, não vê nada. Mas se viu e mesmo assim avançou? Para quem tem a cabeça a prémio, manifesta um evidente desejo de que lha arranquem.


ANA SÁ LOPES

(texto do contra os canhões do dn de 4 de agosto, que também não está disponível no site do dn. irra)
|| f., 17:13 || link || (0) comments |

juntos pelo gang

Se me é permitido um estado de alma, estou farta do caso Gisberta. Estou farta deste enredo judicial cujo final obsceno era mais que previsível desde a descoberta do crime e dos criminosos, em Fevereiro, quando se começou a desenhar a parábola da desculpabilização dos meninos selvagens, que batem e violam e matam mas não sabem o que fazem - e que saem da leitura da sentença com gestos obscenos para as câmaras em óbvio sinal de recolhimento.

Estou farta de ouvire ler gente a perorar sobre a "campanha que os homossexuais [para algumas pessoas tudo o que sai da 'norma' é homossexual] fizeram à custa deste caso". Estou farta de ouvir e ler gente - do zé da esquina ao colectivo de juízes do Tribunal de Menores do Porto, que ao fim de 16 audiências não conseguiu encontrar "uma razão" para o ataque dos menores (porque há "razões" que a vontade de desculpabilizar desconhece?) - a questionar a motivação transfóbica do crime, intuível desde a divulgação dos primeiros dados e admitida pelos menores, que disseram ter ido à procura do "homem com mamas que parecia uma mulher", confessando que queriam ver o sexo de Gisberta (cujo cadáver, recorde-se, foi encontrado com as calças nos joelhos).

Estou farta de ouvir e ler referências à vítima no masculino - "o transexual" , "o brasileiro", "o sem-abrigo" -, tanto mais incorrectas quanto quem as faz utiliza também o nome "Gisberta", numa espécie de esquizofrenia informativa que julga "não tomar posição". Estou farta do fundo silêncio dos comentadores/comendadores, de Marcelo Rebelo de Sousa a Pacheco Pereira, sobre o assunto, como se de um "tema menor" se tratasse.

E estou, mais que farta, agoniada com o silêncio que toda a esquerda alinhada - a que milita em partidos e tem estratégias de grupo, do BE ao PS (excepção para Ana Gomes)- guardou a este respeito. Do PS institucional, cujo pavor às matérias ditas "fracturantes" é o que se conhece, pouco havia a esperar. Mas nem o BE, que em sede da revisão penal defendeu o agravamento dos crimes em função da homofobia, nem a JS, cuja postura em relação às questões LGBT é proclamadamente "progressista", quebraram, nestes cinco meses, o tabu. Entalada entre denúncia da violência transfóbica e o risco de abrir uma discussão sobre a idade da imputabilidade e a responsabilização dos sacrossantos "jovenzinhos", a esquerda portuguesa preferiu passar de mansinho - sobre o cadáver de Gisberta. Juntem-se ao gang.


(texto do contra os canhões, do dn, de 4 de agosto. para variar, não está disponível no site do dn, agora passa a estar, aqui)
|| f., 17:08 || link || (0) comments |

o livro de (falta de) estilo

parece que finalmente um comentador/comendador se dignou comentar o caso gisberta. honra seja feita a marcelo rebelo de sousa -- não vi o original, na rtp, mas li hoje no dn. desonra, porém, a maria flor pedroso, que se saiu com isto

temos pois, maria flor pedroso, UM transexual. ALEGADAMENTE espancado -- tem graça, julgava que pelo menos isso a sentença do tribunal de menores, a tal que não viu homicídio nenhum na brincadeira de mau gosto de passar dias a espancar e torturar uam pessoa para no fim a lançar a um poço (sei que esta lenga lenga já chateia, mas que querem , não me sai da cabeça) tinha dado como provado.

começo a achar que as tvs têm um livro de estilo (no caso, de falta dele) para lidar com este caso. alegadamente, claro.
|| f., 16:44 || link || (0) comments |

Uma tarde muito "silly" (ii)

A notícia do dia hoje (ainda que muito breve, com três linhas apenas, mas as notícias não se medem aos palmos nem às linhas...) é do Correio da Manhã:

PS/Perestrello e a agenda
O secretário nacional do PS Marcus Perestrello disse ontem que o partido só tem iniciativas em Setembro.

E prontxe!
|| Nuno Simas, 16:00 || link || (0) comments |

Uma tarde muito "silly"

Hoje é um dia típico de "silly season".
Isto de trabalhar as férias dos outros tem dias muito aborrecidos.
Hoje está calor, mas menos que ontem.
Pus a cabeça à porta da rua e fui almoçar na lanchonete da Lusa (homenagem ao Brasil).
O ar condicionado é tão intenso que o dono está a pensar distribuir xailes (para as senhoras) e casacos de malha (para os senhores).
Hoje - como ontem, como na véspera e nos dias anteriores - ligo para os telemóveis e bastas vezes oiço o som de crianças e marulhar das ondas.
Só falta o "Olha a bolinha" ou "Olá fresquinho"!
Uffaaa!
|| Nuno Simas, 15:26 || link || (0) comments |

segunda-feira, agosto 7

sms

Aqui alguns estão de férias e outros no messenger
|| asl, 21:25 || link || (2) comments |

quinta-feira, agosto 3

poema roubado ao mal

O Anjo Perplexo

Não houve nunca deus, nem virgens, nem santos,
nem ícone que proteja, nem oração que console;
nunca houve milagre ou prodígios,
nem salvação da alma ou vida eterna;
nem mágicas palavras, nem bálsamo eficaz
contra a dor que nunca se atenua;
nem luz do outro lado das sombras,
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta travessia
um anjo da guarda perplexo que suporta
uma vida de cão igual à nossa.


Amalia Bautista,
Tres deseos, pg 129
|| f., 22:24 || link || (0) comments |

ainda gisberta

caro francisco, o que é isso de justiça de género?
|| f., 22:15 || link || (0) comments |

Carioca

Ainda não tenho bilhetes, Filipe. O Francis foi bacana. O Carioca não é um disco de chorar, mas a minha favorita é
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
|| asl, 14:13 || link || (0) comments |

A não perder

"Ei-los que partem". A fantástica saga dos emigrantes portugueses, por Jacinto Godinho, na Dois. Continua hoje, à meia noite e meia (num horário para noctívagos, mas paciência). A série já passou pelos pioneiros na América, pela corrida ao ouro da Califórnia, pelos brasis da borracha, do pequeno comércio e da burguesia ascendente e está agora no salto para França. Fabuloso.
|| asl, 14:06 || link || (0) comments |

quarta-feira, agosto 2

'pensaram em desfazer-se do corpo, mas desistiram porque tinham de ir às aulas'


|| f., 16:18 || link || (0) comments |

'o crime não passou de uma brincadeira de mau gosto'

|| f., 16:10 || link || (1) comments |

as crianças de quana, 2

a diana ralha enviou este comentário para o mail do gloria fácil.

'Penso que, da mesma forma que todos os canais de televisão deviam
mostrar, em prime time, para todos verem, em família, no sofá comprado no
Ikea (mesmo que, depois, se fechassem, os olhos em recusa, ou se virasse
a cara, à hora do telejornal, ou que o jantar ficasse todo no prato, ou
que fosse directo do estômago para a pia), a cara de Gisberta (não a
Gisberta de antigamente, a das fotos cedidas pelos familiares que
costumamos ver na imprensa, mas sim, a Gisberta torturada, já sem vida, no
fundo do poço, ou onde raio é que a encontraram), dentro da mesma lógica,
também se devem mostrar todos os inocentes ceifados no conflito do
médio Oriente (sejam elas crianças que morrem no seu sono mais profundo,
quer os velhos sábios, ou mesmo os novos - o que são eles a menos que as
crianças? E, repare, Fernanda, eu já sou mãe, e é fatal como o destino:
a partir do momento em que deixamos de ser um, para nos
desmultiplicarmos por dois ou três, tantos quantos o nosso salário miserável consegue
sustentar com dignidade e sem o patrão nos despedir por estarmos a
garantir a sustentabilidade da segurança social, tudo o que tenha a ver com
maus tratos dos seres pequeninos nos dói a triplicar. Sabe que eu ainda
me vêm as lágrimas aos olhos sempre que oiço o nome "Vanessa"?). Sim,
polaroids, Fernanda, para que todos saibamos, sem bolinha encarnada ao
canto superior direito do ecrã, o que é a natureza do mal; para que
tenhamos a certeza, sem ilusões, que o mundo é um lugar mau. Que sempre foi
e sempre será.
'

só uma nota, diana: nem todas as pessoas precisam de ter filhos para se comoverem até às lágrimas com a tortura e a morte das crianças (devo dizer que essa ideia da legitimidade acrescida -- ou lá o que é -- dos pais para se sentirem com o que acontece às crianças me deixa sempre perplexa). tal como não é preciso ser transexual para me comover até às lágrimas com o que aconteceu a gisberta -- antes e depois da sua morte. como não preciso de lhe ver o corpo para isso, também não preciso de ver o das crianças mortas, sejam a vanessa ou as libanesas de quana.
|| f., 15:53 || link || (1) comments |

terça-feira, agosto 1

as crianças de quana

não, tiago. não creio que ter avisado as pessoas para sair da zona sirva de desculpa para o que aconteceu. acredito, por outro lado, que o hezbollah use aqueles edifícios, como muitos outros, para lançar rockets, para guardar armas, sei lá mais para quê.

mas (lá vem mais um, filipe) gostava que o exército de israel não continuasse a rebentar com o líbano como se tivesse um mandato divino para isso.

gostava de não ver na tv essas crianças mortas no sono. gostava que os que as retiram dos escombros não as exibissem como troféus e que as câmaras não as filmassem com deleite. (a mim basta-me saber que crianças morreram. não preciso de as ver. não preciso que, como disse em directo rodrigues dos santos, eles façam 'uma coisa... tiram os corpos e envolvem-nos em mantas e depois abrem as mantas para as câmaras filmarem').

mas gostava ainda mais que não tivessem morrido. e, como morreram, talvez olhar para elas nos centre no essencial. a nós, que não somos do hezbollah.
|| f., 23:07 || link || (0) comments |

apagar a gis, 2

uma semana depois da descoberta do corpo de gis (ou gi, parece que os amigos lhe chamavam gi e os miúdos que a mataram também -- 'vamos dar lenha ao gi', disse-se que eles teriam dito naqueles dias em que se entretiveram naquela 'brincadeira que correu mal'), estranhei que o seu rosto nunca aparecesse nas notícias. nem nos jornais nem nas tvs.

cinco meses depois, houve jornais que publicaram fotos da gi. fotos de fotos tiradas durante a vigília que decorreu no porto, pouco tempo após a morte dela. e snap shots fornecidos pela família. gostava de as colocar aqui, agora. hei-de fazê-lo, amanhã.

mas lembrem-se, puxem pela cabeça: quando é que viram uma foto de gi na tv? quando é que, durante as peças feitas durante o julgamento, ou nas que, hoje, dia da leitura do acórdão, fizeram 'a história' do caso, viram a cara da morta? lembram-se de algum caso em que haja uma morte e um julgamento e fotos da pessoa que morreu e essas fotos não apareçam na tv? é que eu não me lembro.

como não tenho a mania das conspirações, até posso crer que tudo isto se passe, se não por acaso, por inépcia e preguiça. também posso crer que, passado este tempo todo, as tvs insistam em falar de gisberta no masculino -- 'o transexual', 'o sem abrigo', 'o toxicodependente', 'o brasileiro' -- porque não sabem nem fazem qualquer questão de saber do que estão a falar. porque isto de transexualidade é um assunto escuso, de gente esquisita que não conhecemos de lado nenhum (a não ser quando somos aquelas pessoas que passam mais devagar no conde redondo e páram para negociar preços, mas essas pessoas é que certamente fazem questão de não só não conhecer transexuais como de não saber o que é isso de transexualidade) e que não interessa a ninguém. e também acredito que seria muito chato ter uma foto da gi, da bela cara de mulher da gi, enquanto se ouve 'o transexual sem abrigo'.

acredito que quem nas tvs faz estas peças e que habitualmente não tem qualquer pejo em ler, linha por linha, o que os jornais publicaram, se tenha visto assaltado por um súbito ataque de brio e criatividade e resolvido não assumir os delírios 'politicamente correctos' dos outros jornalistas, como os do dn e do público, que acham que uma pessoa nascida com um conjunto de órgãos sexuais de um sexo pode sentir que tem um género não coincidente com essa aparelhagem e deve como tal ser reconhecida e respeitada, como aliás o é pelas legislações de alguns países, entre os quais a espanha e o reino unido -- tal como recomendado pelo tribunal europeu dos direitos do homem.

acredito nisso tudo. e acredito que há gente muito incompetente e estulta, e gente que padece de uma terrível e provavelmente incurável falta de imaginação e de capacidade de empatia. e gente que, perante um caso como este, consegue ainda elucubrar sobre 'jornalismo de causas', 'discursos dominantes do politicamente correcto', e 'o poder do lobby gay' e 'o aproveitamento' que o dito lobby teria querido fazer da morte de gi.

isto enquanto o discurso efectivamente dominante não se limitou a branquear um homicídio: elidiu a existência da sua vítima. é assim que começam -- e acabam -- os genocídios.

(a propósito, ler miguel vale de almeida, no tempos que correm, e o comunicado que está no site das panteras rosa / frente de luta contra a homofobia)
|| f., 22:26 || link || (0) comments |

apagar a gis

(...) a não ser que depois do martírio, depois da inominável agonia, depois deste horror que estremece todas as noções, todos os adquiridos (que sabemos falsos mas mesmo assim guardamos) se queira agora enterrar a gis nas suas múltiplas exclusões em nome da reabilitação dos seus agressores, fazer de conta que o que se passou não foi assim tão mau e que, sobretudo, não foi, não pode ter sido consciente, quanto mais premeditado.

como se pudéssemos -- e quiséssemos -- apagar a gis e o seu terrível destino, para não termos de encarar o que aconteceu e porquê. (...)

(dos arquivos do glória fácil, gis, 25 de fevereiro de 2006)


hoje é segunda-feira. há uma semana a gis talvez ainda existisse na cave daquela construção embargada no porto. talvez o grupo de jovens que a matou tenha saído à rua como nos dias anteriores, com mais umas maldades engenhosas em mente, a caminho do seu espantoso passatempo (e há quem fale em 'crime inconsciente'? agora também há torturas 'inconscientes' de pessoas que duram dias? a sério?).

não sabemos quase nada ainda daquilo a que chamamos factos e é possível que nunca saibamos nada daquilo a que chamamos causas (para além do óbvio, e o óbvio é o que é, por mais que se queira negá-lo ou ludibriá-lo).
mas não é cedo para a indignação.

nem para a fúria: não me venham dizer com que é que me posso enfurecer e com que é que não me posso enfurecer.
e não me venham dizer que é normal que ainda não tenha sido mostrada, na tv ou nos jornais (que eu tenha visto, ressalvo) a cara desta mulher que morreu. não é preciso explicar que a exibição de um rosto é uma estratégia básica de humanização e identificação -- e que a sua recusa é uma estratégia básica de abolição.

queremos assim tanto que isto não tenha acontecido que negamos um rosto à vítima? queremos assim tanto esquecer aquilo que supostamente ainda não sabemos?

(dos arquivos do glória fácil, traços de gis, 27 de fevereiro de 2006)
|| f., 22:21 || link || (0) comments |