Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

terça-feira, agosto 8

juntos pelo gang

Se me é permitido um estado de alma, estou farta do caso Gisberta. Estou farta deste enredo judicial cujo final obsceno era mais que previsível desde a descoberta do crime e dos criminosos, em Fevereiro, quando se começou a desenhar a parábola da desculpabilização dos meninos selvagens, que batem e violam e matam mas não sabem o que fazem - e que saem da leitura da sentença com gestos obscenos para as câmaras em óbvio sinal de recolhimento.

Estou farta de ouvire ler gente a perorar sobre a "campanha que os homossexuais [para algumas pessoas tudo o que sai da 'norma' é homossexual] fizeram à custa deste caso". Estou farta de ouvir e ler gente - do zé da esquina ao colectivo de juízes do Tribunal de Menores do Porto, que ao fim de 16 audiências não conseguiu encontrar "uma razão" para o ataque dos menores (porque há "razões" que a vontade de desculpabilizar desconhece?) - a questionar a motivação transfóbica do crime, intuível desde a divulgação dos primeiros dados e admitida pelos menores, que disseram ter ido à procura do "homem com mamas que parecia uma mulher", confessando que queriam ver o sexo de Gisberta (cujo cadáver, recorde-se, foi encontrado com as calças nos joelhos).

Estou farta de ouvir e ler referências à vítima no masculino - "o transexual" , "o brasileiro", "o sem-abrigo" -, tanto mais incorrectas quanto quem as faz utiliza também o nome "Gisberta", numa espécie de esquizofrenia informativa que julga "não tomar posição". Estou farta do fundo silêncio dos comentadores/comendadores, de Marcelo Rebelo de Sousa a Pacheco Pereira, sobre o assunto, como se de um "tema menor" se tratasse.

E estou, mais que farta, agoniada com o silêncio que toda a esquerda alinhada - a que milita em partidos e tem estratégias de grupo, do BE ao PS (excepção para Ana Gomes)- guardou a este respeito. Do PS institucional, cujo pavor às matérias ditas "fracturantes" é o que se conhece, pouco havia a esperar. Mas nem o BE, que em sede da revisão penal defendeu o agravamento dos crimes em função da homofobia, nem a JS, cuja postura em relação às questões LGBT é proclamadamente "progressista", quebraram, nestes cinco meses, o tabu. Entalada entre denúncia da violência transfóbica e o risco de abrir uma discussão sobre a idade da imputabilidade e a responsabilização dos sacrossantos "jovenzinhos", a esquerda portuguesa preferiu passar de mansinho - sobre o cadáver de Gisberta. Juntem-se ao gang.


(texto do contra os canhões, do dn, de 4 de agosto. para variar, não está disponível no site do dn, agora passa a estar, aqui)
|| f., 17:08

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