Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quarta-feira, janeiro 4

António Gancho

António Gancho morreu. O poeta maldito, louco. Literalmente. Viveu em “casas de saúde” – estava internado no Telhal, arredores de Sintra, desde 1967 – e escrevia uns poemas a descair para o surrealista. Lia Rimbaud e Rilke e não gostava que lhe pusessem o carimbo de surrealista. Nos seus momentos de loucura normal, dizia que era Pessoa, Luís de Camões, os poetas que lia e gostava.

Nasceu em Évora, em 1940. A solidão fez-lhe mal. A perda da mãe ainda pior e desde então não mais deixou os cuidados psiquiátricos nas tais “casas de saúde”. Em Lisboa, sentou-se à mesa dos surrealistas no Café Gelo, ninho do grupo de intelectuais e vadios que Luiz Pacheco apodou de “surreal lisboeto”.

Herberto Hélder, o poeta, guardou-lhe os poemas nos anos sessenta – antes e durante os internamentos no Telhal -, que foram editados mais tarde com o título O Ar da Manhã (Assírio & Alvim). É, mais uma vez, Herberto que escolhe 11 dos seus poemas para a antologia Edoi Lelia Doura - Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim).
(Não há muitas fotos de António Gancho. Reproduzo esta de Miguel Carvalhais).

António Gancho morreu aos 66 anos. Um ataque cardíaco durante a madrugada, dizem os jornais.


Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismarmos
traz o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome

In
Poemas Digitais
|| Nuno Simas, 23:27

0 Comments:

Add a comment