Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quarta-feira, janeiro 18

aos que velam pelo nosso sono

quando era pequena não gostava de polícias. havia bastas razões para isso.

uma era o facto de eu ter a mania de cantar alto, a toda a hora e instante (parece que tinha uma vozita linda que o tempo se encarregou de escavacar -- hoje, nem no chuveiro afina) e o meu repertório constar apenas de canções proibidas que aprendia nos discos que o meu pai trazia para casa, pelo que me disseram que era proibido cantar com polícias à vista. tal pareceu-me, obviamente, uma monstruosidade, uma injustiça, um horror -- e eles uns monstros meus inimigos.

depois, um dia, já andava eu na escola, tive de ficar em casa porque havia manifs contra a guerra colonial e uma enorme confusão nas ruas. fiquei com a minha mãe à janela a ver o que se passava. passava-se gnrs a cavalo por todo o lado e gritos de fim da guerra (eu achava que gritavam 'inglaterra' porque tinha a mania da inglaterra e queria gritar com eles, mas a minha irmã, que tem mais sete anos e já andava metida como os do reviralho -- era assim que se dizia na altura --, apanhou-me na varanda aos pulos com o slogan e deixou-me em lágrimas: 'queres que o pai seja preso, ou quê?').

de repente, mesmo debaixo da janela onde eu estava com a minha mãe, apareceu um rapaz de óculos a correr muito, com dois cavalos da gnr atrás. um dos guardas puxou da espada e, num gesto de pólo equestre, deu com ela nas costas do fugitivo.

a espada cortou em dois o casaco de tweed do estudante. guardei essa imagem como numa foto antiga: o casaco suspenso da espada, o cavalo a deslizar no empedrado, o terror do perseguido no rosto virado para trás

e o grito da minha mãe.

não lhe conhecia essa voz, a voz da fúria e da revolta, uma voz de coragem que ainda hoje me estremece.

selvagens, disse ela.

o selvagem parou e deixou fugir o rapaz e ficou a olhar para ela durante uma eternidade.

e ela para ele

(e eu muito quieta, a pensar que eles iam subir as escadas e levar a minha mãe, a odiá-los com todo o ódio de que era capaz, a arquitectar vinganças e guerras e resistências)

depois o selvagem disse, muito devagar, para o outro ou para nós (estava ainda a olhar para a minha mãe): nunca mais acabamos isto hoje.

e foi-se embora.

levei muito tempo a desfocar esta imagem da polícia da polícia de hoje -- ainda estou nesse processo. a própria polícia está nesse processo -- é da natureza da polícia viver no plano inclinado entre a opressão e a protecção, a autoridade e o autoritarismo.

fiz reportagens sobre violência policial, contei os mortos causados pela polícia portuguesa (muitos, demasiados), investiguei histórias horrendas de homicídios policiais sem perdão nem castigo e polícias assassinos.

de caminho, fui conhecendo polícias. conheci por exemplo o josé carreira -- e o josé carreira reconciliou-me, ou conciliou-me, senão com os polícias todos, pelo menos com a ideia de polícia.

percebi que havia nobreza nisso -- na vontade de, como se lê nas portas dos carros da polícia americana, vigiar e proteger, e que não era só na esquadra de hill street ou nas câmaras (co)movidas do nypd blues.

percebi que lhes devo o meu sono e que ser contra a violência policial não é a mesma coisa que ser contra a polícia. e que lá porque os dirigentes sindicais da polícia de hoje não chegam aos calcanhares do josé carreira e fazem uma espécie de concurso entre facções a ver quem diz mais disparates e exige mais poderes abstrusos, não é por isso que devo achar todos os polícias ridículos.

(é capaz de ser só o processo normal de amadurecimento, que costuma transformar trotskistas e maoístas em social-democratas e anarquistas anti autoridade em boas mães de família, mas prontoS: deixem-me crer que descobri isto sozinha)
|| f., 21:23

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