Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

sábado, fevereiro 25

Gis

a forma como os media estão a tratar o homicídio do porto evidencia uma interessante mescla de engulhos, preconceitos e inépcias. que, de resto, se afirmam quase sempre perante um crime perpetrado por menores. sucede que, neste caso, a esse facto acresce, a crer no que tem sido divulgado, a natureza brutal de uma acção continuada, assim como a natureza da vítima.

e é aí, na natureza da vítima, que as narrativas mais claudicam. começaram por descrevê-la como 'um sem abrigo toxicodependente'. depois surgiu o qualificativo 'prostituto'. depois 'travesti' e 'brasileiro'. e, nos últimos dias, a revelação da sua seropositividade para o hiv e da sua transsexualidade. uma multiplicação de factores de exclusão que se diria quase excessiva e para muitos confusa: quantos jornalistas, para não falar do público, sabem qual a diferença entre um travesti, ou seja, alguém que através da roupa e da maquilhagem assume características de outro género (feminino ou masculino) que não o seu, e um transsexual, ou seja, alguém que assume uma identidade de género que não coincide com o seu sexo biológico? (para não falar na confusão destas duas denominações com a ideia de homossexualidade, claro).

a dificuldade começa logo no modo de nomear. nos seus documentos, a pessoa morta era um gisberto. na sua vida, era uma gis. agora que morreu, assumimos a sua identidade oficial, aquela que negou em vida, ou aquela que escolheu para si? quem é que tem a legitimidade de decidir do género de cada um -- os estados e suas papeladas (ou uma ordem qualquer da natureza) ou o próprio?

não é fácil decidir isso -- e alguns textos assumem uma certa esquizofrenia, ao tratar a vítima por 'a gis' quando é o jornalista que 'fala', enquanto citações, por exemplo da embaixada do brasil, mantêm o género masculino na denominação.

podemos perguntar-nos como será em tribunal, por exemplo. ou no relatório da autópsia.

em todo o caso, os problemas de denominação não se reduzem ao género. são, apetece dizer, de outros géneros.

ao assistir aos jornais da uma das 3 tvs, em que se dava conta da prisão preventiva do mais velho dos jovens envolvidos, constatei que algumas informações relevantes publicadas hoje pelo jornal de notícias -- o facto de a vítima apresentar sinais de tortura, de alguns jovens terem supostamente confessado agressões sexuais (perpretadas, parece, com um pau que, presume-se -- embora a notícia não seja muito clara nesse aspecto -- terá sido introduzido no ânus) e de se configurar a hipótese de a morte ter ocorrido após e em virtude do lançamento num fosso, por afogamento -- não era sequer afloradas pelas peças, em que o carácter 'sem abrigo' e 'toxicodependente' da vítima avultavam e, em alguns casos, elidiam, a sua identidade como transsexual.

conhecendo o apetite das tvs por pormenores macabros e escabrosos, esta reserva não pode deixar de espantar. não é informação relevante que, após dias de massacre e de agonia, a pessoa em causa tenha sido lançada a um fosso ainda viva? não é importante, do ponto de vista da motivação do crime, saber que houve torturas de carácter sexual?

se a vítima fosse uma criança ou um jovem e o crime caracterizado, segundo as convenções do sensacionalismo e da ausência de rigor que se instituiram nesses casos, como 'um crime de pedofilia', alguém acredita que estes juicy bits tivessem sido poupados?

outro pormenor fascinante é o dos discursos desculpabilizadores. que, frisando sempre, evidentemente, não estar a desculpabilizar nada, começaram já a insinuar motivos para a acção dos rapazes. o presidente das instituições de solidariedade social, padre maia, já veio a público dizer que o que se passou estaria relacionado com 'um assédio de um pedófilo a um jovem da instituição' e que 'no clima que existe em relação à pedofilia' os jovens 'tomaram o assunto nas suas mãos'.

note-se que o reverendíssimo padre não está a dizer que o assediador era a vítima. note-se que ele frisa que não está a desculpabilizar as sessões de tortura que se prolongaram por dias (como era? os miúdos saiam de casa para ir torturar uma pessoa como quem vai ao cinema? convidavam amigos?). note-se que ele não está a fazer a apologia do vigilantismo. note-se que ele está, sem se dar conta, a delimitar este crime hediondo a uma motivação de preconceito e ódio -- talvez porque para ele esse ódio e esse preconceito são tão compreensíveis e banais (dir-se-á mesmo 'normais' ) que funcionam, na sua cabeça, como desculpabilização e não como agravante. note-se, finalmente, que vêm da área da igreja católica e dos seus apaniguados as mais insistentes confusões entre homossexualidade e pedofilia e a mais insistente caracterização dos homossexuais como aberrações e predadores sexuais.

não sei qual a orientação pedagógica das oficinas de são josé, instituição católica em que estavam internados alguns dos jovens (a maioria?) em relação à questão da homossexualidade. não sei e não me vou pôr a adivinhar, até porque, felizmente, sendo a orientação da hierarquia da igreja o que é em relação à homossexualidade, há muitos padres que não a subscrevem (de mais de uma forma).

e também não sei qual a orientação -- humana, antes de mais -- do colégio ou instituição onde um professor foi informado por um dos jovens do que se estava a passar e, a crer em algumas notícias que li, levou pelo menos um dia (senão dois) a a avisar a polícia (a não ser que tenha sido a polícia a levar um dia ou dois a agir). se for verdade isso, e se for verdade que a gis na terça-feira, quando foi lançada ao poço, ainda estava viva, esse compasso de espera pode ter feito a diferença entre a vida e a morte. o que pode tê-lo ocasionado e porquê é algo que não devia deixar ninguém indiferente.

a não ser que depois do martírio, depois da inominável agonia, depois deste horror que estremece todas as noções, todos os adquiridos (que sabemos falsos mas mesmo assim guardamos) se queira agora enterrar a gis nas suas múltiplas exclusões em nome da reabilitação dos seus agressores, fazer de conta que o que se passou não foi assim tão mau e que, sobretudo, não foi, não pode ter sido consciente, quanto mais premeditado.

como se pudéssemos -- e quiséssemos -- apagar a gis e o seu terrível destino, para não termos de encarar o que aconteceu e porquê.

que a morte de gis surja no momento em que se discute, no âmbito da revisão do código penal, a adição, ao elenco das circunstâncias que agravam os crimes, o ódio homofóbico (os transsexuais pedem que acrescente também a transfobia), com uma já ampla e, diga-se, penosamente ignara (será que quem escreve aqueles textos de opinião se deu sequer ao trabalho de folhear o código penal para ter uma ideia, mesmo limitada, daquilo de que fala? terá reparado que entre essas circunstâncias se contam já três tipos específicos de ódio -- o racial, o religioso e o político -- e que este último foi junto ao rol em 1995?), reacção de alguns sectores contra a ideia, é uma partida do acaso tão bem pregada que quem acredite em divinos desígnios devia reflectir sobre ela.
|| f., 15:02

4 Comments:

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