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quarta-feira, outubro 18

ainda a polícia, ainda o deixa-los ou nao fugir, ainda o joao gonçalves e a caixa de comentarios do portugal dos pequeninos

caro joão (http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2006/10/deix-los-fugir.html), ora ainda bem que sabe do que fala. o joão trabalhou na igai, eu limitei-me a investigar, jornalisticamente falando, uns tantos casos de, como diz, 'alegadas - umas confirmadas, outras não - situações em que o princípio da proporcionalidade no exercício da função policial foi ultrapassado, designadamente com consequências fatais'.

fiquei com várias ideias sobre a forma de funcionamento das nossas polícias, e a maioria não é favorável. não estou, no entanto, na fase adolescente do ódio à autoridade, pelo que não confundo essas conclusões com os polícias individualmente considerados. comove-me aliás a ideia de haver alguém que se dedica a proteger o meu sono e que é mal pago e mal amado por isso.
essa gratidão não me cega, porém. sei que a formação das polícias não é, ainda hoje, conducente a um entendimento democrático da função. que as corporações continuam a funcionar numa lógica de nós/inimigo, que falam dos 'civis' como se estivessem em guerra e que tendem a justificar e, se possível, ocultar, todos os abusos.

conheço casos -- como o do homem que foi assassinado com um tiro na cabeça na esquadra de matosinhos, salvo erro em 1995, graças a uma 'gatilhada' (o joão sabe o que é decerto, mas para quem não sabe, trata-se de uma 'técnica' de tortura/interrogatório que consiste em encostar uma arma supostamente descarregada à cabeça do preso/detido/suspeito e carregar no gatilho, simulando uma execução -- no caso de matosinhos, como no do 'decapitado' de sacavém, que ocorreu no mesmo ano de criação da igai, 1996, afinal havia balas na arma, e zás) -- em que se 'cozinharam' versões 'convenientes'. o homem de matosinhos, por exemplo, tinha lançado mão da arma de um polícia e tinha-se suicidado. noutros casos, o morto tinha atacado, desarmado e sem qualquer motivo, um grupo de polícias e determinado que estes o enchessem de balas (estou a lembrar-me de um regente agrícola que foi baleado sete vezes à porta de casa, na rua castilho, e que tudo leva a crer foi atingido dentro do carro), ou tinha sido 'linchado' por um grupo de cidadãos em fúria que o tinha surpreendido no meio de um assalto a uma loja de electrodomésticos (este aconteceu no carregado e meteu na 'conspiração', além de uma série de agentes da psp e gnr, também os bombeiros e vários moradores da zona).

mas não era disto, joão, que falava no seu post: era das declarações do actual inspector geral da administração interna, clemente lima. o joão critica-o por dizer, na sequência dos dois casos em que a gnr disparou contra carros em fuga, no porto, que há casos em que mais vale deixar fugir que disparar sobre as pessoas. e relaciona isso com o facto de um gnr ter sido baleado. desculpe, joão, mas qual a relação? é que me escapa. escapa a qualquer pessoa que tente analisar os casos com um mínimo de frieza, lógica e, já agora, de respeito pela lei.

nos dois casos em que a gnr disparou contra os automóveis -- e portanto contra as pessoas que iam dentro dos automóveis, uma das quais morreu -- ninguém disparou contra a gnr. no primeiro caso, até ver, nem sequer se alega qualquer tentativa de agressão aos agentes da gnr. de acordo com a versão que tem sido divulgada, os ocupantes do carro resolveram não obedecer à ordem de paragem e a gnr resolveu persegui-los por esse motivo. ao fim de, diz-se, 30 ou mais minutos de correria maluca, um gnr resolveu fazer pontaria aos pneus e acertou nos dois ocupantes do banco de trás do carro. o jo\ão acha isto bem? eu não. a lei, parece, também não. e o inspector clemente lima, parece, tende a basear-se na lei.

no segundo caso, a gnr alega uma tentativa de atropelamento. não sei se existiu nem sei se, a existir, foi durante a dita que o gnr abriu fogo. mas duas pessoas ficaram feridas.

o que é que isto tem a ver com um gnr que foi baleado? o que é que isto tem a ver com todos os agentes da psp, gnr e pj que foram já baleados? e o que é que os agentes de polícia baleados têm a ver com 'deixar fugir' um carro que se limitou a não obedecer a uma ordem de paragem? toda a gente que foge é suspeita de matar polícias? toda a gente que desobedece é criminosa?

o que clemente lima disse, ou pelo menos o que saiu publicado no público, foi que em casos em que está em causa uma contravenção ou um crime de menor importância, se a perseguição se está revelar demasiado perigosa o melhor é deixá-los fugir.

eu acho que clemente lima tem toda a razão. deixam-se fugir e apanham-se no dia seguinte -- há uma coisa chamada matrícula e não faz grande sentido matar ou ferir gravemente alguém só porque a polícia sente que o seu princípio de autoridade foi beliscado.

raios, joão. não simplifique.
|| f., 00:49

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