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quinta-feira, novembro 16

coisas que fazem de nós o que somos

no outro dia, a falar com um colega do dn sobre goya, percebi que uma pequena reprodução que o meu pai me mostrou do quadro dos fuzilamentos e que eu olhei dias a fio -- os braços erguidos do homem que enfrenta o pelotão, os olhos e a boca desorbitados no meio dos companheiros já abatidos, a antecipação da morte e a coragem do desespero -- me havia esculpido a heróica ideia de resiliência e sacríficio, dos que sabem que a morte está ali e assim mesmo avançam, de olhos abertos.

muitas histórias e imagens guardo assim, com o travo puro das noções primeiras. como a narrativa do martírio de uma irmã de uma empregada da minha mãe, que foi parar ao hospital com um aborto espontâneo e foi raspada, a frio, porque o médico não acreditou nela e achou que tinha provocado o aborto e quis 'castigá-la'. a rapariga, que minha mãe recordava comovida como 'muito engraçada', morreu na sala de operações. ao médico, naturalmente -- isto passou-se nos anos sessenta -- nada aconteceu.

o horror da história da irmã da alexandrina (era assim que se chamava a empregada) ainda me estremece. na minha cabeça, cruza-se com as imagens dos instrumentos da inquisição que há uns anos, num convento de évora num dia de muito calor, me amoleceram as pernas e toldaram o olhar. acabei cá fora, sentada nos degraus, sem forças, as entranhas torcidas por tanto metal, por tanta raiva contra o corpo (o meu corpo), por tantos gritos e tanto sangue em cada uma daquelas monstruosas ideias de tortura. havia tornos especiais para esmagar seios, havia mecanismos para encher de água o ventre das mulheres até rebentarem, havia uma pirâmide metálica de ponta acerada que, explicava-se, servia para rasgar a vagina e o ânus das mulheres e dos suspeitos homossexuais, que eram suspensos de uma corda e deixados cair, uma e outra vez, sobre aquilo.

albino aroso contou, na conferência sobre direitos sexuais e reprodutivos organizada pelos eurodeputados socialistas, histórias e histórias como a da irmã da alexandrina. de como quando começou a sua actividade de médico descobriu um mundo de dor e pavor e crueldade inflingido pelos seus colegas sobre as mulheres em nome de uma ideia de justiça divina, uma sharia católica. herdeiros dos inquisidores, os médicos portugueses tomavam nas suas mãos o dever de lhes ensinar, se necessário pela morte, o seu lugar no mundo.

não tenho notícia de um único desses médicos alguma vez ter respondido, em tribunal ou noutro sítio, por esses crimes. não tenho notícia de alguma vez algum dito defensor da vida ter erguido a voz pelas vidas dessas mulheres.

claro, dir-me-ão, isso já não acontece. graças a pessoas como albino aroso, já não sucede. acredito que não. em portugal já não. mas eu, sabem, não consigo esquecer que aconteceu. não consigo perdoar que tenha acontecido. e não consigo perdoar aqueles que acreditam que há bens e ideias e autoridades que o justificam, as bençãos que o fizeram possível.
|| f., 12:05

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