Glória Fácil...

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segunda-feira, novembro 27

um amor de bond

devia ter ido ver o prairie home companion, o último do altman. em vez disso, o casino royale. uma coisa estuporada, pensei. já me tinham avisado que era um bond diferente dos outros, não só pelo craig mas porque, incrível dos incríveis, o mortal agente secreto se apaixonava. ri-me e respondi 'sim, ainda havemos de o ver com uma ranchada de filhos e em casa a tomar conta deles'.

claro que 70 a 80% do filme é o costume. porrada, corridas, carros pelo ar, um terrorista negro todo queimado que parece o homem aranha a saltar de guindaste em guindaste, gajas boas com sotaques exóticos a cair das árvores, armas com silenciadores daqui até à china, paisagens 'paradisíacas' e 'cosmopolitas' e 'sofisticadas', das bahamas a veneza, iates e hoteis de trezentas estrelas, gadgets qb (menos do que é costume), um mau que chora sangue (têm sempre umas peculiaridades físicas disparatadas) e um jogo de poker que nunca mais acaba e que para quem como eu não percebe da poda é uma seca e peras.

mas, hélas, tem mesmo uma história de amor. e sendo suposto ser o 'primeiro' episódio da saga (tipo star wars, só conhecemos o início ao fim de vinte anos de sequelas), oferta-nos a 'explicação' para o coração de pedra com que o sr james desliza de lençois de cetim em lençois de cetim e de busto farto em busto farto, sempre de copo de martini na mão e sem um arranhão sentimental. é que ele, coitadinho, apaixonou-se por uma mulher que o enganou (mais ou menos) e morreu. ele não ama ninguém porque ama aquela, pronto. é, como se costuma dizer, 'fiel à sua maneira'.

gosto,claro, desta ideia romântica de que as pessoas que não conseguem amar afinal têm é um grande amor infeliz e secreto para expiar. e que em cada corpo novo, cada paixão instantânea, querem desesperadamente lavar -- ou renovar? -- a lembrança do que não esquecem.

mas eu, por acaso, tenho outra teoria. há pessoas que não sabem amar. nem sabem o que é.

o amor é um pouco como a fé. ou se tem ou não se tem. não o amor e a fé, mas a capacidade ou a possibilidade de lhes aceder, de ser por eles 'transfigurados'.

tirando isso, gosto daquela cara de filho da puta do daniel craig e de alguns diálogos. de quando ele diz: 'everybody has a give away sign. except you. that's why i love you'. ama-a porque não consegue lê-la -- e daí em diante, depois de a perder, não se cansará de gente óbvia.

gira, esta ideia de tentar injectar alma no bond. não estou certa de que mereça a pena, mas o resultado é desconcertante.
|| f., 01:03

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