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segunda-feira, janeiro 15

e ao cardeal dizem nada

na sexta, no contra os canhões do dn, publiquei o texto que a seguir se transcreve. três dias depois, a minha caixa de correio do dn e a blogosfera -- habitualmente tão reactivas quando o tema é o aborto e as posições da hierarquia católica -- mantêm um quase sepulcral silêncio sobre a matéria. nem na guarda avançada anti-câncio, uns certos blogues que parecem não ter outro assunto (que pasmada vida tereis, senhorias, digo eu, para tanto se ocuparem desta humilde criatura) se deu conta da minha análise à posição do policarpo, posição à qual hoje joana amaral dias também faz referência.

o motivo é óbvio: josé policarpo causou grande consternação nas hostes do não. a sua mensagem (a primeira de cinco anunciadas, a segunda das quais se esperava para ontem e não apareceu no site do patriarcado -- e porquê?) mostra a profunda divisão da própria hierarquia da igreja católica. as dúvidas de policarpo, a sua preocupação com o aborto clandestino e portanto com os valores da vida real -- e não apenas da vida com v grande, abstracta e ideológica, que é a única coisa que parece ralar uma parte, a mais virulenta, dos apologistas do não -- honra-o e mostra que é acima de tudo um humanista. policarpo não podia, sendo quem é e representando o que representa, dizer mais do que disse. o dilema moral que tão bem expõe no seu texto, pleno de contradições e com algumas passagens duvidosas (que indicação é aquela à polícia judiciária de que fala? quem a deu? e, a existir, como é que cardeal sabe dela?) é mais do que suficiente para revelar o que ele realmente pensa. voltarei a este assunto.



O cardeal do dia seguinte

José Policarpo é um homem surpreendente. Há mês e meio, dizia que a Igreja Católica (IC) não se devia envolver "activamente"na campanha do referendo e que quem tivesse dúvidas devia abster-se. Agora, decidiu escrever um texto por semana sobre o assunto. O primeiro, datado de 7 de Janeiro, faz revelações extraordinárias, entre as quais se conta o facto de o cardeal-patriarca considerar que a alteração proposta no referendo não se justifica porque "o cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez" diminuiu "a realidade do aborto de vão de escada"e trouxe "a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência".

Valerá a pena dissecar tais afirmações. É sabido que o catecismo católico rejeita a generalidade dos métodos anticonceptivos, incluindo o preservativo, considera a pílula do dia seguinte um horror e é contra todas as formas de aborto, químicas ou cirúrgicas - o anterior papa comparou-as ao Holocausto, o actual ao terrorismo. O que Policarpo está a enumerar são portanto - só podem ser - para si barbaridades, a pior das quais decerto "a solução química para a interrupção da gravidez".

Seja tal solução química traduzida como a pílula do dia seguinte (sempre mencionada pela IC como "abortiva") ou o misoprostol, remédio para o estômago cuja utilização caseira tem tido consequências crescentemente visíveis nas urgências dos hospitais e nos tribunais (dois dos casos mais mediatizados de acusações de aborto foram relativos ao seu uso por adolescentes "apanhadas" por via de hemorragias que as teriam matado se não fossem socorridas), não se percebe como pode o cardeal usá-la como justificação sem incorrer em insanável contradição, muito menos invocá-la para alegar que "diminuiu o aborto de vão de escada".

Por fim, que "decisão de abortar" pode ser trazida "para o campo da liberdade pessoal", quando a lei que existe a criminaliza? Será a liberdade de cometer um crime no quarto dos fundos, de abortar e sofrer as consequências? Estranha noção de liberdade, estranha forma de caridade. De tal forma estranhas que se diria estar José Policarpo a alinhar argumentos 'a contrario', como quem expõe as suas dúvidas. Ou antecipa o dia seguinte.
|| f., 16:40

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