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sexta-feira, maio 18

o direito do joão miranda à ignorância e ao disparate

o joão miranda é um portento de análise e reflexão. ele é tabaco, ele é ópera, ele é isto e aquilo e aqueloutro, e agora, também, segurança transfusional. vem esta preocupação nova do joão miranda a propósito do protesto de grupos anti-homofobia contra o facto de haver pessoas em portugal impedidas de dar sangue apenas por serem -- na verdade, por dizerem ser -- homossexuais.

o joão miranda começa por dizer o óbvio: não é um direito dar sangue. é um óptimo ponto de partida, até porque nunca ouvi ninguém dizer que dar sangue é um direito. o direito que está em causa no protesto, e eu explico, joão, já que lhe escapou a ideia, é o direito de não ser discriminado com base na orientação sexual.

mas o joão miranda acha que excluir homossexuais é "tão discriminatório como excluir toxicodependentes". portanto o joão acha que há discriminação, mas que se justifica. é um racíocinio de uma firmeza extraordinária, que o joão miranda se esquece de consubstanciar.

aliás, o joão miranda acha que "a comunidade homossexual" pode ser "um grupo de risco", porque "a história recente dá razão a quem defende a exclusão de homossexuais do grupo de dadores".

o joão miranda está obviamente a falar da descoberta da sida como doença, que ocorreu no início dos anos 80. a sida, cujo vírus foi identificado, salvo erro, em 1983 ou 84, foi diagnosticada pela primeira vez em homossexuais masculinos e em hemofílicos. começou por ser considerada uma doença ligada a estes dois 'grupos'. nasceu aí a noção de grupo de risco, que viria a incluir trabalhadores do sexo e utilizadores de drogas por via endovenosa (esta é a denominação correcta, e não toxicodependente, já que se pode ser dependente de heroína, por exemplo, e nunca ter tocado numa agulha, o que implica, em termos de perigo transfusional, zero).

a noção de grupo de risco foi abandonada há cerca de dez anos pela comunidade científica, sendo considerada, retrospectivamente, um dos factores que contribuiu para a maioria das pessoas não tomasse qualquer precaução para evitar o contágio com o hiv. esta ausência de preocupações das pessoas que se crêem 'normais' com o contágio levou a que em todo o mundo, e nomeadamente em portugal, a infecção por hiv 'por via heterossexual', decorrente de contactos sexuais não protegidos entre homens e mulheres, esteja a aumentar muitíssimo. esta tendência é notória desde meados dos anos noventa.

a noção de grupo de risco, além do seu óbvio problema comunicacional, tem um problema técnico de base: é o comportamento ou a circunstância de risco (circunstância, por exemplo, no caso dos transfusionados ou dos que estiveram recentemente em África, por exemplo) que importa e não as características da pessoa. um trabalhador sexual que use sempre preservativo e que garanta que nunca teve um acidente (um rompimento de preservativo) pode ser, objectivamente, um dador de sangue mais seguro que uma dona de casa que só teve um único parceiro sexual a vida toda, parceiro sexual esse com quem tem sexo não protegido e que, por sua vez, tem sexo não protegido com outras pessoas, homens ou mulheres, sem a informar disso.

tudo isto dito, a questão fundamental está ainda por dirimir. e a questão fundamental é saber por que motivo um homossexual masculino, ou melhor, um homem que faz sexo com homens (é essa a expressão que era usualmente empregue nos critérios de exclusão de dadores) poderia ser encarado, à partida, como um risco transfusional. já li até sobre este mesmo assunto alguém que fazia uma identificação entre homossexualidade masculina e comportamento de risco -- assim, sem mais nem menos.

pedindo desculpa por ter de entrar em certos pormenores, chamo a atenção para o facto de não haver nada que um homem faça com um homem na cama -- e estão em causa, sobretudo, pelo risco de lesão propiciador de transmissão vírica, as chamadas 'relações insertivas', e quanto mais propiciadoras de lesões, mais arriscadas -- que um homem não possa fazer com uma mulher. se o joão miranda se lembrar de alguma coisa, diga. eu confesso a minha ignorância.

os homossexuais masculinos têm relações anais? os homens e as mulheres também. portanto, se o problema da segurança transfusional é o sexo anal, então a pergunta no questionário a que o dador tem de responder talvez deva ser sobre o sexo anal.

mas a questão, é claro, não passa por aí. tem a ver com uma ideia: a ideia de que os homossexuais masculinos são promíscuos, que têm múltiplos parceiros e só pensam em sexo. é essa a ideia que subjaz à sua exclusão -- uma ideia que, pelos vistos, decreta que os heterossexuais nunca ouviram falar de promiscuidade, de múltiplos parceiros e, decerto, não pensam em sexo.

esta ideia sobre os homossexuais masculinos foi formatada a partir de muitos factores. as histórias das saunas e dos back rooms, desde logo, e o facto de a epidemia da sida ter sido identificada a partir de homossexuais masculinos. mas, sobretudo, o facto de só se falar de homossexuais masculinos (e femininas) a propósito da sua sexualidade. isto parece uma asserção evidente, mas está longe de o ser.

os homossexuais só são objecto de notícia a propósito da sua sexualidade. mesmo quando o homossexual em causa é, por exemplo, presidente da câmara, é o facto de ele ser homossexual que é o centro da notícia.

se o homossexual é alguém cujo elemento definidor fundamental é a sua sexualidade, ele deve ser um ser eminentemente sexual. um ser que vive para o sexo.

imagine o joão miranda que um homem chega ao banco de sangue e quando lhe perguntam se tem sexo com homens responde que sim. agora imagine que lhe perguntam, a seguir, com quantos homens teve sexo nos últimos dez anos. e ele diz: um. e acrescenta que usa sempre preservativo.

por que carga de água representa este homem um risco transfusional elevado, ou proporcionalmente mais elevado que a maria, de 35 anos, que é casada há cinco e de vez em quando dorme com uns namorados e nem sempre usa preservativo?

razão nenhuma, claro. é aliás por isso que o instituto português de sangue retirou, em finais de 2005, a exclusão dos homens que fazem sexo com homens da sua lista de directivas. e é por isso que já há, em portugal, bancos de sangue onde os critérios técnicos levaram a melhor sobre os preconceitos, e se aceita sangue de homens que fazem sexo com homens. é por isso que a food and drug administration dos eua já anunciou estar a rever essa exclusão, e é por isso que as directivas europeias de segurança transfusional, que portugal em parte já adoptou, não focam características dos dadores mas comportamentos e, como já expliquei, circunstâncias comportamentais (transfusão, viagem a países onde há elevado risco de paludismo). é por isso que a exclusão da dádiva dos homens que fazem sexo com homens será, dentro de algum tempo, vista por quase toda a gente como aquilo que é: uma discriminação infundamentada, com um único elemento constitutivo. a homofobia, claro. que é outro nome que se pode dar à ignorância e à má fé.

adenda. ler, a propósito:

o adolfo mesquita nunes na arte da fuga; a caixa de comentários do metablog; o vasco m. barreto.
|| f., 01:04

2 Comments:

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