Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quarta-feira, novembro 15

maaaaaaiiiiis uma entrevista históóóórica, maaaaaiiiis uma corrida

quando não tenho tempo ou cabeça para pensar em coisas para debitar aqui (ainda por cima agora também divido a minha pobre verve com outro blogue, o que não melhora as coisas, não) vou ao baú. e aqui vai uma entrevista feita em 1998, nas vésperas do referendo, a uma senhora que fazia (e faz, creio, ainda) abortos em casa. no interim, mudaram os preços: a última vez que ouvi falar deles, iam nos 500 euros.
a entrevista saiu na notícias magazine, juntamente com um inquérito a todos os movimentos que participaram na campanha e uma série de outros artigos.

NADA DO OUTRO MUNDO
Chamam-lhes parteiras, abortadeiras, desmanchadeiras. Ou fazedoras de anjos, bruxas de vão de escada. Na eterna discussão dos direitos e das liberdades, dos deveres e dos castigos, das vítimas e dos pecados, estiveram sempre do lado de lá, onde nenhuma redenção é possível. Se os partidários do NÃO as acusam de massacre dos inocentes e lhes reservam os fogos de todos os infernos, os do SIM culpam-nas da morte e da humilhação das mulheres e prometem fechar-lhes o negócio. Nesta história de o aborto ser crime ou não, o lucro é a única coisa que parece não ter perdão. Mesmo quando se sabe que também aqui, como de costume, a oferta não fez mais que responder à procura. Se quiser juntar às ideias qualquer coisa da realidade, LEIA como, porquê, por quanto, e por quem.

Pode ser Ana. Ou Maria, ou Teresa, ou Joana. Um nome bem português, um rosto suave nos cinquenta anos, uma casa a condizer, clara, aprumada, confortável, cara. Bem na vida, não é assim que se diz? Trinta anos de enfermagem, muitos hospitais, muitas doenças e muitas curas, muitos nascimentos, muitos sofrimentos, muitas mortes. Os olhos claros viram isso tudo, a luz crua nos corpos, por dentro e por fora. Como é que se vive nisso, disso e depois disso? Diz-se que a partir de um certo limite já não se sente, que a dureza passa de necessidade a condição, mas quem é que sabe? Como é que se mede? Ela tenta explicar, mas seria preciso estar do lado de lá para perceber. Como para tudo, parece. E isto de fazer abortos não será excepção, antes pelo contrário. É até como se nos dividíssemos assim, de um lado as que fizeram e do outro as (e os) que nunca lá passaram. E mais longe, à distância, quem os opera, quem os provoca, quem os manipula. Uma classe à parte, necessária, providencial, redentora, nunca redimida. É como se o dinheiro que passa aqui de mãos transportasse um anátema, transferisse de uma vez a culpa, a vergonha e o segredo. Para quem os sente, claro. Porque é possível, por mais que doa aos apologistas da vitimização, que se aborte sem olhar para trás. Acontece. Acontece não haver culpa. Acontece decidir e esquecer.
E acontece haver muitos sítios diferentes onde se ir, muitos lugares diferentes para abortar, muitas formas, muito níveis, muitos preços. Este, esta mulher, é apenas um deles. Em Lisboa. Caro, para quem pode dar-se ao luxo de ter direitos. Para quem pode escolher, seja a lei o que for, diga o referendo o que disser.

NM-Como é que começou a fazer abortos?

Sra X - Foi mais ou menos na altura em que se começou a falar de sida. Havia necessidade de haver alguém em quem houvesse confiança do ponto de vista da esterilidade do material e de certificar que quem fosse fazer uma interrupção da gravidez não saísse de lá com uma doença devido à falta de assépsia.

NM - Essa necessidade de que fala foi de quem?

Sra X - De certos médicos, que queriam ter alguém de confiança a quem enviar as pessoas.

NM -E porque é que esses médicos não fazem eles próprios os abortos?

Sra X - É uma pergunta que nunca lhes fiz a eles... Penso que seja por uma questão de ética.

NM - De ética não será, já que eles lhe pediram que o fizesse...

Sra X - Pois, será talvez de conveniência...

NM - Quanto leva de fazer um aborto?

Sra X - Depende. Sessenta, setenta [contos = 300/350 euros]... Acho que é o preço justo. Mas às vezes não levo nada. Porque são colegas, porque são médicas... Ou quando é uma pessoa que eu vejo que não tem possibilidades. Mas a maior parte das pessoas que vem cá pode pagar. Aliás, as pessoas que vão a estes médicos são de posses. Há um deles que só trabalha com a classe alta.

NM - Uma das coisas que se diz é que a legalização, a existir, virá dar cabo do negócio das pessoas que fazem abortos. Não pensa nisso?

Sra X - Não, não sinto esse problema. Eu não vivo disto. Aliás, eu tenho um consultório que não tem nada a ver com isto. Como já lhe disse, nunca me passou pela cabeça fazer isto e se o faço foi porque os médicos me começaram a pedir e eu entendi que eles tinham razão. Veja lá que até para comprar o material de aspiração, tive de usar o nome de um ginecologista, doutra forma não mo venderiam...

NM - E o resto do material, como é que é?

Sra X - Olhe, o material de esterilização, não há problemas, uso o do hospital. As sondas, que são de usar e deitar fora, vêm através de um laboratório, mas em nome dos médicos.

NM - Que métodos usa?

Sra X- Uso só o método de aspiração. Nunca usei raspagem. Porque eu faço abortos só até às oito semanas...

NM - Porquê?

Sra X - Primeiro, para não correr riscos. E depois porque acho que até às oito semanas uma pessoa tem tempo suficiente para se decidir. E depois penso que me faria um bocado de impressão moral fazer uma coisa já maior. Porque assim é uma bolsa embrionária, são células embrionárias, aquilo sai tudo fragmentado, é como se fosse gelatina. Faz de conta que é um pudim de gelatina, que a gente aspira e pronto.... não faz impressão nenhuma. A sonda de aspiração tem meio centímetro, portanto já vê, para ser aspirado por uma sonda de meio centímetro tem de ser tudo muito frágil, para conseguir sair. Eu no bloco operatório vejo coisas muito mais graves... E portanto decidi que era só até às oito semanas e os médicos que me mandam as pessoas já sabem que mais que isso não.

NM - Posso saber com quantos médicos trabalha?

Sra X - Olhe, alguns nem os conheço, porque eles falam uns para os outros. Mas uns quatro ou cinco. Repare, eu não faço muitas coisas destas por mês. Não. Posso ter meses de fazer uns quatro, cinco, seis, depende... Mas nunca mais de oito ou dez. Nunca mais que isso. Porque eu quero fazer com segurança e não quero abrir a minha casa a qualquer pessoa.

NM - Que tipo de pessoas, que estrato sócio-económico, é que lhe aparecem?

Sra X - São pessoas da classe média alta, e bastante alta. Muitas jovens, miúdas com catorze, quinze , dezasseis...

NM - E qual foi a idade mais baixa que já lhe apareceu?

Sra X - Catorze.

NM - Elas vêm cá com as mães, com os namorados?

Sra X - Com as mães e com os pais. Com os namorados é raro, só as raparigas mais velhas. Essas miúdas muito jovens nunca vêm com os namorados.

NM - Tem mais pessoas de que idade? Qual é a média?

Sra X - Trintas e tais.

NM - E as circunstâncias, chega a perceber?

Sra X - Sim, sim. Porque eu converso bastante com as pessoas, para ver se as pessoas sabem o que querem. Porque isto é uma coisa que deve ser feita de livre vontade. Eu explico muito bem muito bem o que se vai passar, até porque a pessoa entendendo colabora muito melhor. Quanto às circunstâncias, penso que muitas vezes são inconsequências. As pessoas nunca pensam que aquilo lhes vai acontecer. E acontecem às vezes com brincadeiras. Olhe que eu já encontrei uma miúda grávida que estava virgem.

NM - Como?

Sra X - Deve ter havido uma brincadeira com o namorado e sem penetração, aconteceu. A miúda tinha dezoito anos, era maior, uma miúda inteligente, muito consciente... Mas a mãe tinha uma atitude muito agressiva em relação a ela. A miúda dizia que era impossível estar grávida, que nunca tinha tido uma relação normal... Mas foi ao médico, fez uma ecografia e estava de facto grávida de seis ou sete semanas. A mãe não queria acreditar que ela nunca tivesse tido uma relação, mas de facto depois quando fui observá-la disse-lhe — porque eu não sabia dessa história toda — então, tu nunca tiveste uma relação, pois não? E ela: não, nunca tive. Está a ver o meu drama? Tive de fazer tudo com o maior dos cuidados para não desvirginar a moça. E ficou intacta, felizmente. Coitada da miúda.

"Isto é uma técnica simples"

NM - O processo em si, como é que é? Há cuidados a ter antes e depois?

Sra X - Peço-lhes que não venham com o estômago cheio, porque podem querer vomitar, ainda que seja raro isso acontecer. E a seguir mando-as fazer um antibiótico ou um anti-inflamatório, embora às vezes seja o próprio médico a fazer o receituário. De resto mais nada... No dia seguinte, pode fazer a vida dela normal. Isto é uma técnica simples, não tem nada do outro mundo. Há é pessoas que empolam a situação.

NM - Quanto tempo é que leva, mais ou menos?

Sra X - Vinte minutos, meia hora. Depende muito. E eu faço tal e qual como se deve fazer, dilatação do colo, e depois a aspiração é uma coisa rápida.

NM - E é doloroso?

Sra X- Não... Porque o útero não dói. Mas claro, se for uma pessoa que tem uma inflamação, quando o útero se contrai evidentemente que pode ter uma dorzinha...

NM - Não usa anestesia?

Sra X - Não. Uso um anti-espasmódico uma hora antes, para que fique tudo mais relaxado. E depois faço uma sedação. É só.

NM - E tem uma conversa com as pessoas, a seguir?

Sra X - Não, a conversa é sempre antes. Explico-lhes tudo, mostro-lhes os bonequinhos que eu tenho aí num livrinho, mostro-lhe um desenho, como é como não é, os prós e os contras. Tudo muito bem explicado. E as pessoas depois disso ficam mais calmas.

NM - E quais são, os prós e os contras?

Sra X - Os prós, só elas sabem, a razão que as leva lá. Os contras, em princípio o único contra é faltar a electricidade enquanto se está a fazer... E aí ou se acaba manualmente ou se espera. Mas é muito chato. Não que doa, mas é menos fácil.

NM - As pessoas aparecem aqui um bocado nervosas, não?

Sra X - Nervosas, ansiosas, sim. E há quem já tenha tido experiências anteriores muito traumatizantes... E eu sei o que isso é, porque eu também já tive as minhas interrupções. Está a ver, eu separei-me do meu marido muito nova. E nessa altura não havia nada... Há trinta anos não havia pílula, não havia dispositivo intra-uterino... E as pessoas que faziam as interrupções eram muito agressivas, não tinham uma conversa, era tudo toca a marchar.

NM - Se calhar ainda há gente assim...

Sra X - Existem, tenho conhecimento disso. As pessoas aparecem-me aqui e contam, dizem-me que isto não tem nada a ver... Primeiro, nunca junto ninguém. As pessoas têm direito à sua privacidade. Para isso é que pagam. E têm direito a ser assistidas como deve ser. As pessoas que vêm cá têm direitos! Evidentemente que se eu não quiser fazer não faço, ninguém me obriga. Mas as pessoas pedem-me, pagam, podem exigir. Exigem sigilo, que nem é preciso, porque isso é uma coisa mútua...

NM - Nunca teve medo de ter problemas com a polícia, ou coisa do género?

Sra X - Não, porque normalmente as pessoas quando vêm, vêm sempre da parte de alguém.

NM- A verdade é que as únicas pessoas presas por isto são as que tiveram problemas porque causaram a morte de alguém...

Sra X - Pois. E isso acontece porquê? Porque as pessoas não são vistas por um médico antes e podem ter um problema cardíaco, uma leucemia, um problema de plaquetas e começar a sangrar e nunca mais parar...

NM - E pode ser uma gravidez mais avançada do que se confessa...

Sra X - Ah, mas eu examino primeiro e quando tenho dúvidas mando fazer uma ecografia. E já tenho tido surpresas.

NM - Mesmo sendo as pessoas enviadas pelo médico?

Sra X - Sim. Ou porque a doente foi lá e diz que tem uma falta de período de dias... Só que há pessoas que estão grávidas e continuam a ter o período. São períodos falsos... E o médico não vê assim um grande volume e dá-lhe o meu endereço. Mas eu vejo sempre antes, faço um toque...

NM - Já lhe aconteceu recusar fazer um aborto?

Sra X - Já, já. Normalmente mando para uma clínica onde sei que há condições capazes. O médico de lá nem me conhece, mas é uma pessoa que me merece confiança, inclusivamente tem sangue se for necessário... Tem tudo o que é preciso.

NM - Qual foi o tempo mais adiantado que já lhe apareceu?

Sra X - Doze, treze semanas. Mas há clínicas que fazem até às dezasseis semanas. Há uma no Porto, por exemplo, da qual tenho as melhores referências.

NM - Já fez algum aborto a uma seropositiva?

Sra X - Já. Uma colega sua, uma jornalista, por acaso. Ela é que me disse que era seropositiva. Era uma pessoa muito reservada, foi logo no início de se ouvir falar de sida. E esteve cá uma segunda vez...

NM - Era portanto uma seropositiva que não tomava grandes precauções. E é muito diferente, fazer um aborto nessas circunstâncias?

Sra X - O material habitualmente é quase todo de usar e deitar fora. E neste caso, usa-se mesmo tudo de usar e deitar fora, cânula, tubo de aspiração, espéculos... E vai tudo para o lixo do hospital.

NM - E aos restos do aborto, o que é que se faz?

Sra X - Aquilo sai tudo em líquido.

NM - Que tamanho tem um embrião de oito semanas?

Sra X - Para aí vinte milímetros, dois centímetros e meio... É mínimo. Aliás é muito poucochinho o que sai.

NM - Acontece-lhe perguntar às pessoas se querem ver?

Sra X - Se há pessoas que estão naquela ideia de que aquilo tem forma, eu digo-lhes que se quiserem vêem, que aquilo é tal e qual como se fosse uma menstruação. Evidentemente que eu sei que não é a mesma coisa que uma mestruação, que são células embrionárias. Mas de aparência, para uma pessoa leiga, é tal e qual.

NM- E isso é para quê? Para que as pessoas não saiam daqui a pensar que mataram uma criança?

Sra X - Exactamente. Só por isso. Porque de facto não se justifica.

"Ter um filho é um assunto sério"

NM - As suas clientes vêm todas da zona de Lisboa?

Sra X - Não... Há quem venha de longe. Porto, Vila do Conde... Quando têm problemas vêm cá.

NM - E há muitas mulheres que fazem várias interrupções?

Sra X - Muitas.

NM - Como é que encara isso?

Sra X - Eu acho que é descuido. Ou então são pessoas que não têm uma vida sexual estável... E depois acontece... Por outro lado também há alterações hormonais e há uma ovulação extra... As pessoas fazem as continhas todas muito bem mas falham. Ainda há muita gente que usa esses métodos das contas.

NM - Mas estas pessoas pelos vistos não usam preservativo nem nada... Não terão medo de apanhar doenças?

Sra X - Às vezes usam o preservativo mas não sabem usá-lo... Só o metem na altura, não o metem logo de princípio... E eu explico-lhes que têm de ter muito cuidado, que basta uma pequena gota que fica logo. Já houve pessoas que vêm aqui num mês e no mês seguinte ficam grávidas.

Nm - Não lhes recomenda nenhum método?

Sra X - Muitas vezes digo-lhes para irem ao doutor pôr um dispositivo... Mesmo para as miúdas mais jovens agora já há dispositivos pequeninos...

NM - Sente que as pessoas são ignorantes quanto aos meios eficazes de evitar a gravidez ou que são sobretudo descuidadas?

Sra X - Eu tenho ideia de que as pessoas precisavam de ser mais esclarecidas. Como por exemplo em relação à altura em que se deve colocar o preservativo...

NM - Mas estamos a falar de pessoas com um certo nível social e cultural...

Sra X- Sim, sim.

NM - Nunca lhe apareceu aqui gente mais humilde?

Sra X - Raramente. Às vezes aparece aqui uma filha de uma empregada, ou uma empregada trazida pela patroa. Especialmente quando são miúdas negras... Não sei porquê.

NM - São as patroas que pagam?

Sra X - Sempre.

NM - Há casos de pessoas pressionadas a abortar?

Sra X - Há. Porque quando estão com os pais ou com o marido — há maridos que não querem filhos ou não os querem numa dada altura — ou seja com quem for, é uma coisa, mas quando estão sózinhas comigo lá dentro é outra. Abrem-se mais... Dizem que não sabem se hão-de fazer, que têm medo. Eu digo-lhes que têm de pensar bem, que só elas podem decidir.

NM - Isso acontece sobretudo com as miúdas?

Sra X - Não. As miúdas geralmente querem é resolver o assunto. Há é quem esteja a estudar, o namorado está a estudar também, querem ter filhos mas mais tarde, ou pessoas que têm problemas no emprego, que estão no primeiro emprego e têm medo de ser despedidas, que não têm segurança no trabalho — porque hoje já ninguém tem — e então dizem-me que não podem, que não é altura. Há muitas que depois, mais tarde, até me vêm mostrar os bebés. É que as pessoas têm de programar a sua vida. Ter um filho é um assunto sério. Os encargos são muito grandes e as pessoas querem ter condições. Às vezes não é só a situação económica, é a disponibilidade emocional, é a disponibilidade de tempo... Porque para ter uma criança e metê-la num infantário — como acontece com tantas colegas minhas — às sete da manhã e tirá-la de lá às tantas da noite para só estar com ela à noite e aos fins-de-semana... Isso causa traumas nas crianças, um bebé quer a ternura dos pais, que os pais falem com ele, de modo que assim os miúdos passam o tempo todo num infantário onde se há pessoas que lhes dão amor outras não dão.

NM - Quantos filhos tem?

Sra X - Só uma, com trinta anos.

NM - Disse-me que também fez algumas interrupções. Como foram?

Sra X - Então não fiz... A primeira vez foi horrível. Era uma pessoa que ainda gritou comigo... Eu não gritei nada, custou-me muito em termos físicos, só chorei porque me doía muito...

NM - Estava de quanto tempo?

Sra X - Seis semanas ou sete. Nessas coisas sou muito cuidadosa.

NM - Como é que foi lá parar?

Sra X - Foi muito difícil, naquela altura havia uma enorme dificuldade em encontrar alguém. Mesmo como enfermeira não consegui... Então foi uma velha na Gomes Freire, que diziam que tinha sido enfermeira... Mas naquela altura as enfermeiras antigas não tinham preparação nenhuma. Quanto muito sabiam dar uma injecção. Era numas águas furtadas, e eu já sabia que aquilo era tudo à La Gardere, com ferros sem esterilização, cheguei lá e era um corredor cheio de gente, tudo ali à espera... Cada uma contava a sua história... Um ambiente terrível. E então fisicamente custou-me horrores e ela ainda por cima foi ordinária...

NM - Quanto tempo demorou?

Sra X - Tempo de mais. Quando cheguei a casa chorei, chorei, chorei...

NM - Porquê?

Sra X- Porque sentia uma grande mágoa. Não tinha vontade de fazer aquilo, naquela altura não tinha tido um filho ainda mas também não queria ter um filho que não tivesse um pai. Podia gostar do homem, mas não servia para pai de filhos. E além disso não era casada. Há trinta e tal anos isso fazia muita diferença.

"Deus quer é que as pessoas não sofram"

NM - Quantos abortos fez?

Sra X- Nem sei... Três ou quatro. Depois apareceu a pílula, que veio solucionar muita coisa. Antes disso era terrível. Antigamente as mulheres eram educadas para ter filhos, para a família, era o primeiro filho, eram aquelas coisas todas que a gente traz do colégio, das freiras... E isso só faz as pessoas sentirem-se mal e culpadas e não poderem encarar a vida como deve ser. Felizmente abri os olhos a tempo. Eu apreendo muito rapidamente as coisas... Comecei a ver tanta miséria que me rodeava e percebi que não podia ser... Lembro-me de um professor de moral, um padre, que dizia: "uma mulher não é nenhuma coelha, para ter tantos filhos quantos a natureza lhe permitir". E isto foi quando eu tirei o meu curso... Evidentemente que ele não dizia para interrompermos a gravidez, dizia para usarmos os métodos das contagens, das temperaturas, mas isso era a única coisa que ele podia dizer. Falava-nos da miséria em que as pessoas viviam, da promiscuidade... Porque Deus não quer que as pessoas tenham filhos para isso, para sofrer. Deus quer é que as pessoas não sofram.

NM - Acha que a visão do sofrimento, que nos hospitais onde tem trabalhado é tão evidente, lhe criou uma maior facilidade em lidar com esta questão?

Sra X - Acho que não. Acho que não tem uma coisa a ver com a outra. Da maneira como eu penso as coisas... Claro que me custa muito ver as pessoas sofrer. Dizem que as enfermeiras são duras... Não. Nós não podemos é trazer as coisas para nossa casa. Temos de ter compartimentos estanques, até porque isso é saudável, Deus me livre. Mas sentimos uma grande frustração por não poder aliviar mais. Porque há coisas que nós não podemos fazer.

NM - Sentiu alguma vez que fazia uma espécie de serviço público nesta sua actividade?

Sra X- Não... Nunca imaginei a coisa dessa forma. Eu faço porque as pessoas precisam. Como eu também já precisei.

NM - Tem ideia de quantas pessoas e clínicas facultam o mesmo serviço?

Sra X - Acho que sim. Conheço muitos médicos, uma ou duas clínicas, e pessoas que têm as portas abertas para toda a gente. E repare, há muita gente que não quer ir aos sítios públicos. E há quem vá a Londres, a Espanha...

NM - E faz os abortos onde? Aqui em sua casa ou no consultório?

Sra X - Onde me dá mais jeito. Tenho uma marquesa desdobrável...

NM - E a sua filha, como lida com isto?

Sra X - Ela é toda liberal. E acha, como eu, que as pessoas é que têm o direito de decidir da sua vida. Nós respeitamo-nos muito uma à outra, ela não se mete naquilo que eu faço. Mas evidentemente, quando eu comecei a vir para casa falei com ela . E ela disse: a mãe é que sabe.

Nm - Ela alguma vez fez uma interrupção de gravidez?

Sra x - Fez, aos 28 anos. E fui eu. Não foi fácil, quero dizer-lhe. Mas ela preferiu que fosse eu que outra pessoa.

NM - Como é que a senhora reagiu?

Sra X - Ela disse, mãe, preciso de falar consigo... E como ela não é nada desses rodeios, percebi logo que se passava alguma coisa. E disse-me que estava de cinco semanas... A minha filha abre-se muito comigo mas eu acho que cada um tem direito à sua privacidade e não lhe perguntei nada. O primeiro approach é sempre mais difícil, mas a seguir agarrei-me à técnica e pronto.

"Tenho muita fé no SIM"

NM - Vai votar no referendo?

Sra X - Vou votar, vou!

NM - E acha que vai passar o sim?

Sra X - Acho que sim, tenho muita fé nisso.

NM - Partindo do príncipio de que isto passa, que vai fazer? Já pensou alguma coisa?

Sra X - Olhe, ainda não pensei nada, sinceramente. Ainda não falei com ninguém. Sabe, eu não vivo disto, vivo do meu trabalho no hospital e de um consultório que tenho com um médico. Os lucros que vêm, vêm mais dessa sociedade que disto aqui. Mas se um dos médicos com quem eu trabalho quiser montar alguma coisa, uma clínica ou assim...

NM - Acha que esses médicos são pessoas para isso?

Sra X - Acho que há necessidade.

NM - Mas a prática abortiva é muito mal vista no meio médico...

Sra X - Olhe, mas é assim: muitas vezes eles não querem dar a cara. Então têm outra pessoa que não tenha problemas em dar a cara. E eu não tenho. Posso perfeitamente montar um consultório... Aliás, consultório já tenho, ecógrafo também tenho... Em vez de ter dois gabinetes passo a ter três. Eu só espero é que isto seja legalizado, porque é muito mais fácil trabalhar legalmente. Não quer dizer que isso vá facilitar muito mais as coisas em meio hospitalar. Mas podem aparecer clínicas...

NM - E acha que o preço dos abortos vai baixar ou não?

Sra X - Penso que se vai manter... Eu acho que o preço que levo é equilibrado. Eu sei que há pessoas aí que levam exorbitâncias...

NM - Isso em clínicas, não?

Sra X - Não, não. Pessoas... Já me disseram que chegam a levar cem, cento e tal.

NM - Do que sabe, como é que funcionam as coisas nos hospitais?

Sra X - Sei pouco. Esteve aqui uma miúda, há dias, que tinha uma epilepsia, que tinha estado em S. Francisco Xavier a tentar abortar, tinha a carta do ginecologista, tinha a carta do neurologista, tinha a lei toda do lado dela, mas chegou lá e disseram-lhe que não havia vagas, para ir lá daí a quinze dias, a rapariga começou a pensar e quis resolver o assunto de outra maneira porque teve receio de que depois fosse tarde. Estava de cinco semanas, não quis esperar mais. E uma secretária do hospital em que trabalho, há uns três anos, estava grávida e foi infectada com rubéola. Já estava de dois meses e nunca mais lhe resolviam o problema, era empata aqui, venha cá depois, faz mais esta análise, faz mais aquela... Chegou aos quatro meses e nada. Até que teve de ir a uma clínica, por sua conta e risco.

NM - Com quatro meses, fizeram-lhe um aborto?

Sra X - Não sei onde é que ela foi, só sei que conseguiu. E sei de outro caso, com um diagnóstico de hidrocefalia no feto, a senhora tinha decidido abortar — quem é quer um filho hidrocéfalo? Só uma masoquista, por amor de Deus — e tinha opinião de dois médicos, tinha tudo... Mas quando lhe resolveram a situação já estava de seis meses. Provocaram-lhe um parto, foi uma coisa atroz, de tal modo traumática que ela nunca mais quis ter nenhum filho.

NM - Como é que encara essas situações? A objecção de consciência, por exemplo?

Sra X - Em consciência, penso que esses médicos não podem admitir uma coisas dessas. Quem é que quer ter um filho anormal? Espero que Deus não me castigue... Bom, ele não castiga, coitado, tem mais que fazer...

"Têm de ser as pessoas a decidir"

NM - Acredita em Deus?

Sra X - Às vezes.

NM - Como sabe, estamos em plena campanha para o referendo, com os adeptos do Não a defender que a vida começa na fecundação e que matar um embrião é matar uma pessoa, que é uma vida humana, inviolável, sagrada... Como é que sente isso?

Sra X - Eu sinceramente não entendo. Então se isso é um atentado à vida, então os indivíduos que são condenados à morte? Aí a igreja não faz nada...

NM - Em Portugal não há pena de morte. Mas reconhece alguma validade nestes argumentos?

Sra X - Eu não.

NM - Para si, a partir de que altura é que matar o que está dentro de uma mulher é matar uma pessoa?

Sra X - Faz-me muita impressão a altura em que começa a ter forma. Às doze semanas já me faz muita impressão. Choca-me...

NM - Mas por exemplo no caso da violação o prazo é de dezasseis semanas, já vai para além desse limite...

Sra X - Acho que sim. Uma violação é uma coisa tão terrível...

NM - E no caso das malformações, vai até às 24 semanas. Não lhe faz impressão, isso? Afinal, os fetos malformados também são humanos.

Sra X - Evidentemente. Mas sabe, morrem tantas crianças lá no meu hospital. Crianças, mesmo. E essas sim, essas sentem, de certeza.

NM - Mas onde é que passa a fronteira, para si? Há um ano ou dois houve um caso, em Inglaterra, em que uma mulher estava grávida de gémeos e resolveu matar um dos embriões. A lei inglesa permite isso, até porque se se pode abortar um embrião que está sózinho, também se pode matar um de dois... Faz pensar, não é?

Sra X - Lembro-me desse caso, chocou-me muito. É muito difícil dizer... É a mesma coisa, de facto, mas faz muita impressão. Como é que se escolhe? Não sei, não sei. Há coisas a que é impossível responder. Têm de ser as pessoas a decidir. A vida é delas. Para mim, pessoalmente, seria muito difícil. Perante a lei está correcto, mas...

NM - Nunca sentiu culpa?

Sra X- Não... Absolutamente nenhuma. O pior é as crianças virem cá para fora e depois serem umas infelizes. Eu, por exemplo, dei tudo o que podia à minha filha, muitas vezes via-me e desejava-me para lhe poder dar tudo... Penso, às vezes, o que é que uma criança de catorze anos pode fazer com um bebé nos braços? Quando ela ainda está em idade para brincar... É uma responsabilidade muito grande.

NM - Concorda com a tese de que as pessoas são sobretudo irresponsáveis, que não tomam as precauções necessárias para não engravidar?

Sra X - Acho que as pessoas mesmo tomando anticoncepcionais e usando métodos correm o risco de ficar grávidas. Um dia porque se esquecem de tomar a pílula, o que é normal, porque ninguém é infalível, não é? Porque eu esqueço-me de tanta coisa, posso perfeitamente esquecer-me de tomar a pílula... Por outro lado, mesmo com os dispositivos intra-uterinos pode haver falhas: o papel do dispositivo é manter a mucosa do útero irritada, para o ovo não se conseguir fixar. Pode bastar tomar um antibiótico para que a mucosa deixe de estar irritada... e a pessoa pode ficar grávida mesmo com um dispositivo intra-uterino. Não há nenhum método cem por cento seguro. E quanto às contagens e ao método das temperaturas, então... Há pessoas que têm ciclos irregulares, que são menstruadas de quarenta em quarenta dias... E depois varia. Eu própria cheguei a estar oito meses sem ter período. O sistema hormonal não é certo em toda a gente. De modo que isso de as pessoas dizerem que nunca fizeram um aborto... É uma questão de sorte. E há pessoas que andam para aí a falar a falar, dessas que são contra, e já fizeram interrupções de gravidez. E se não são elas, são eles.

NM - Como é que sabe?

Sra X - Ora! Essas coisas sabem-se todas. Acho incrível as pessoas andarem a pregar uma coisa e fazerem o contrário.

NM - E quanto às pessoas que dizem que fizeram abortos e votam não, porque estão muito arrependidas, como é que as vê?

Sra X - Essas são pessoas que não sabem aquilo que querem. Estão arrependidas porquê? Na altura não pensaram bem? Então deviam ter pensado. Mas agora querem pensar pelos outros.
|| f., 17:21

2 Comments:

Realmente a Sra. X está certa "Deus não quer que as pessoas sofram"
Por isso, minha senhora, que Ele não quer o aborto. Não me entendam mal, não pensem que eu quero criticá-la, quero apenas deixar aqui minha opinião.
A senhora mesmo já abortou, e disse que sofreu muito, isso é porque seu filho foi morto, não foi uma dor física apenas, mas uma dor espiritual.
Para que nós náscessemos foi necessário um "sim" de nossas mães, o aborto é um assassinato, é um estímulo para que as mães passem a dar um "Não" para a vida.
Graças a Deus que existem pessoas que praticaram o aborto e são contra agora!
Convido a senhora a refletir um pouco sobre isso, reze à Deus para que te ilumine para que a senhora veja se isso é bom ou ruim. Ore com fé, Deus te mostrará o caminho.
Por favor não me ignore.
Estou disposta a escutar tua resposta.
Mas por favor faça o que eu te peço, escutarei tua resposta.
Abraços.
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