Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quarta-feira, janeiro 31

e aos costumes diz-se, como de costume, tudo

eduardo prado coelho escreveu sobre cosméticos. nada a assinalar a não ser que como de costume escreveu bem e com graça. um leitor do público acha que isso de escrever sobre cosméticos é coisa de gajas ou de gajos efeminados e escreve uma carta a explanar o seu, digamos, raciocínio. e o público publica. a shyznogud comenta, e bem -- como de costume, também. tem brinde: parece que há quem ache que nas gajas ou mamas ou cérebro. não vou comentar.
|| f., 22:17 || link || (0) comments |

mãe de seis vota sim

as famílias numerosas também votam sim (a gente do sim já sabe, mas há quem ainda não tenha descoberto, porque não costumamos ir para as 'caminhadas' e manifs e debates de carrinho de bebé -- é uma questão de respeito pelas crianças).
|| f., 22:07 || link || (0) comments |

terça-feira, janeiro 30

Contratem já a Elisa!

Pergunta de Elisa, “parceira” de Marcelo Rebelo de Sousa, nos famosos vídeos do site do Professor “Assim Não”, no terceiro ou quarto vídeo do Professor, “desconstruído” ao longo dos dias por “opinion makers” e movimentos dos “sim” e depois também nos Gato Fedorento de domingo:

“As nossas conversas têm tido um impacto muito grande… de todos os lados. Por um lado, o “sim” diz que nunca assim e o não também parece dizer que assim não”.
(é um video que vale pelos primeiros 20 segundos)

Ricardo, Diogo, Tiago e Miguel:
Contratem já a Elisa e o professor.
Este é concorrência desleal...
|| Nuno Simas, 22:33 || link || (0) comments |

Sim

Estou há quase um mês a escrever um post sobre o aborto. Está a ficar cada vez mais pequeno. Há-de acabar aí com umas três letrinhas.
|| JPH, 20:45 || link || (0) comments |

segunda-feira, janeiro 29

Eu já desconfiava...

... mas Miguel Mattos Chaves confirmou-me: estou vivo!

"De: Miguel Mattos Chaves
Enviada: segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007 17:16
Para: Undisclosed-Recipient:;
Assunto: Parabéns!

Caros Amigos e Amigas
PARABÉNS!
Se está a ler este e-mail é porque um dia, a sua mãe decidiu NÃO abortar!
Acha que a sua vida até hoje foi inútil?
Acha que o Mundo seria um lugar melhor, se você não tivesse nascido?
(...)"
(recebido por e-mail)

Agora sim... isto sim são argumentos!
|| Nuno Simas, 17:20 || link || (0) comments |

domingo, janeiro 28

uma vez sem exemplo

isto das campanhas obriga a criar excepções. como a de responder a quem nem em defesa da honra mereceria habitualmente resposta.

é o caso deste dito cujo aqui, para lhe dizer que se quiser ter a sorte de saber a 'estória' tal qual a contei, telefone para a direcção do departamento de ginecologia e obstetrícia do hospital de santa maria e pergunte. foi, imagine, o que eu fiz, depois de ler uma menção à 'estória' no público.

já agora, se eu quisesse mesmo inventar esta 'estória' à medida medidinha, teria 'feito' morrer a ana devido a uma interrupção de gravidez às dez semanas. ou oito. ou sete. isso sim, seria 'fantástico'. mas a puta da realidade é a puta da realidade, e eu, sabe-se lá porquê -- tanto mais que é isso mesmo, uma rameira -- tenho a mania de lhe ser fiel. imagino que isso não seja fácil de compreender e aceitar para pessoas que têm uma relação, como dizer, mais 'solta' com os factos e que tendem a interpretar os outros e o que fazem à luz da sua própria experiência efabuladora (ai os eufemismos). lamento desiludir quem me reputa um tal talento de ficcionista, mas não: it's all true, bonna fide.
|| f., 02:25 || link || (0) comments |

just then, and only then

what will you feel, all alone?, pergunta ele, richard burton.

i will know when i feel it, responde ela, deborah kerr.

(em a noite do iguana, 1964, de john huston, baseado em tenessee williams)
|| f., 00:23 || link || (0) comments |

quarta-feira, janeiro 24

ai, fui apanhada

o paulo tem toda a razão. tal qual. tungas, apanhou-me em flagrante delito de maniqueização. já não era sem tempo: já lá vão uns cinco ou seis textos meus sobre o caso, e o paulo aí a gastar a vista e a lupa e nada. parabéns.

'se ele quisesse' quer obviamente dizer que não quis fazer, que se esteve nas tintas, que é um filho da mãe, etc, etc, etc. e falar de 1500 euros? que escândalo. devia ter regateado um preço melhor com o instituto de medicina legal, em vez de pôr no texto o valor que os testes custam e deixar as pessoas fazer as contas que o paulo fez -- as de saber se o carpinteiro da sertã, ainda mais desempregado, teria ou não o valor em causa (e, já agora, de pensar também como estará a pagar aos advogados, já tinha pensado nisso e em quanto lhe tem custado esta batalha judicial?)

o que o paulo, se fosse jornalista -- e seria um jornalista seriíssimo e insentíssimo e objectivíssimo tudo e tudo -- escreveria sobre o assunto vertente seria decerto algo assim: 'podem fazer-se testes de adn por iniciativa dos interessados no instituto de medicina legal de coimbra, mediante o pagamento de 1500 euros. baltazar nunes poderia tê-los feito, mas não se sabe se sabia dessa possibilidade, se se informou sobre ela, se perguntou a alguém se era possível, se sabendo dela estava interessado nela, se tinha dinheiro para pagar os testes e se tendo esse dinheiro ou tendo condições para o reunir estava para o gastar nisso.'

não sei se estão aqui todas as hipóteses, mas estou um bocado cansada -- não de si, paulo, pelo contrário, acho-o do mais estimulante que há --, mas de ler acórdãos e sentenças e comunicados e escrever sobre eles(estive hoje a compor mais um artigo maniqueísta sobre o caso, desculpe lá, não consigo evitar, e isto de escrever maniqueisticamente é muito mais estafante que escrever com rigor e objectividade e isenção e tudo e tudo, porque tenho de estar sempre a espremer a cachimónia para ver como é que consigo prejudicar mais um bocado o baltazar).
|| f., 23:30 || link || (0) comments |

Sou sionista e não sei como dizê-lo



Os Klezmatics tocam hoje à noite na Culturgest.
|| JPH, 12:29 || link || (0) comments |

obrigada, muito obrigada

já vi, nuno. foram uns queridos por terem escolhido a minha foto preferida (eu autografo, se pedirem muito).
|| f., 12:12 || link || (0) comments |

terça-feira, janeiro 23

Defender sabe-se lá o quê (II)

Recapitulando. Aqui, Sofia Loureiro dos Santos escreveu isto:

(...) "Ao contrário do que a Fernanda Câncio afirma, todas as notícias que foram veiculadas pela comunicação social, escrita e falada, foram absolutamente tendenciosas na forma como falaram da situação, apresentando o pai biológico como um estupor sem coração, a mãe biológica como uma desgraçada que tenta salvar a filha, os pais adoptantes como anjos caídos do céu e o colectivo de juízes como algozes, que administram o mal absoluto."

Questionei-lhe então a taxativa sentença, pedindo, acho que de forma gentil, se me "podia indicar, SFF, pelo menos meia dúzia de notícias (já não peço em "todas", para lhe facilitar a tarefa) "absolutamente tendenciosas" sobre o assunto. E, já agora, justificar porque as considerou assim."

Na volta do correio, Sofia reconhece:

(...) "Começo por lhe dar razão: não deveria ter escrito “todas as notícias” porque, em boa verdade e pelo rigor dos factos, eu não as posso ter lido “todas”, para o poder assegurar. E talvez “absolutamente tendenciosas” não tenha sido a melhor das expressões."

E pronto, agora tenho de contar até dez mil para me manter num nível de gentileza que não ofenda a Sofia. Porque eu pedi-lhe apenas meia dúzia de exemplos de "notícias" "absolutamente tendenciosas" sobre este "caso Esmeralda" e, na resposta, nem seis, nem cinco, nem quatro, nem três, nem duas, nem uma: nada, nicles, zero. É realmente de um tipo se passar dos carretos perceber como os zeladores blogosféricos da correcção jornalistica são tão bons a exigir dos outros e tão maus a exigir deles próprios.

Depois, a Sofia interpela-me sobre o resto do seu primeiro post e quer eu fale sobre "isenção" e "qualidade informativa" e "manipulação da informação" - "ou seja, o cerne da questão". Só não o fiz porque primeiro queria tentar perceber onde se baseava para afirmar, taxativa, que "todas as notícias" sobre o "caso Esmeralda" eram "absolutamente tendenciosas". Percebendo agora que essa sua impressão afinal não passa disso mesmo, uma impressão, com o que isso implica de ligeireza, respondo-lhe ao desafio.

Este post já vai longo, tentarei por isso ser sintético. Há vários género no jornalismo: notícias, análises, opiniões, entrevistas, reportagens, crónicas, etc. Considero, face ao "caso Esmeralda" - e é só desse que falo porque foi dele que nasceu esta conversa - que a cobertura noticiosa tem sido, no essencial, correcta, fornecendo o quadro global da controvérsia, não omitindo pormenores revelantes. Isto têm sido as notícias.

Depois o que há são opiniões. E essas têm surgido baseadas em tudo e mais alguma coisa: ou na leitura cuidada das notícias e na atenção aos pormenores ou então numa leitura descuidada, que pouco passa (se é que passa) do títulos, enfim, baseadas em pouco mais do que impressões. Presumirá, como eu, que os jornalistas responsáveis pelas notícias não são responsáveis pela qualidade da opinião que delas resultam. E que não compete às direcções editoriais censurar opiniões, às vezes até de pessoas tecnicamente credenciadas para o efeito, construídas numa lógica leve e fresca (digamos assim). Além do mais, terá de reconhecer que o caso tem todos os condimentos para suscitar leituras emocionais - e o que o estranho (direi mesmo: o grave) seria que isso não acontecesse.

Estaríamos, no fundo, todos mortos - e claramente não estamos.
|| JPH, 20:02 || link || (0) comments |

cuidado f.!

Há uma frase da f. num blog muito famoso que defende o "não". Até tem foto e tudo.
|| Nuno Simas, 17:51 || link || (0) comments |

Defender sabe-se lá o quê

Cara Sofia,

Devo dizer que neste "caso Esmeralda" não tenho uma ideia minimamente formada sobre de que lado está a razão (e até admito, em tese, que pode estar dos dois lados). Provavelmente estou a confessar um crime grave - na blogosfera é raro o que se atreve a dizer que sobre o assunto A ou B não pensa coisa nenhuma ou (pior ainda) que nem sabe bem o que pensar. Sei que para si de nada servirá dizer que no meu jornal não escrevi uma linha que fosse sobre o assunto e nem é provável que o venha a fazer.

Feito a introdução, vamos ao que me interessa no seu post. A certa altura escreveu: "Ao contrário do que a Fernanda Câncio afirma, todas as notícias [bold meu] que foram veiculadas pela comunicação social, escrita e falada, foram absolutamente tendenciosas na forma como falaram da situação, apresentando o pai biológico como um estupor sem coração, a mãe biológica como uma desgraçada que tenta salvar a filha, os pais adoptantes como anjos caídos do céu e o colectivo de juízes como algozes, que administram o mal absoluto."

Para já os meus parabéns: leu "todas as notícias" que já se escreveram sobre o assunto. É obra. E nem uma se safou da sua taxativa sentença: todas "absolutamente tendenciosas". Dito isto, peço-lhe um favor: podia-me indicar, SFF, pelo menos meia dúzia de notícias (já não peço em "todas", para lhe facilitar a tarefa) "absolutamente tendenciosas" sobre o assunto. E, já agora, justificar porque as considerou assim.

Sei que, segundo a mais douta blogosfera, fica mal aos jornalistas defenderem o seu trabalho quando acham que estão a ser injustamente criticados. Não é suposto, dizem, acusando-nos de "arrogância", "corporativismo", "autismo", etc. Se puder evitar esses epítetos, que me fazem sempre lembrar as reacções salivantes dos cãezinhos do Pavlov quando lhes tocavam uma campaínha, agradecia. Não me leve a mal.

Seu,

João Pedro Henriques
|| JPH, 12:10 || link || (0) comments |

segunda-feira, janeiro 22

é possível que o paulo esteja a dizer uma série de disparates, e como

paulo, começo a ficar preocupada. é que ao ler os seus posts sucessivos sobre este assunto não só fui forçada a concluir que não segue os media com a atenção que necessária e coerentemente se atribui a alguém que tão abnegadamente se erigiu em ombudsman blogosférico da imprensa, tv, rádio, disco e cassete pirata, como também deixa algo a desejar na leitura de acórdãos e posts.

recapitulemos.

o paulo escreveu um primeiro post justiceiro sobre o caso esmeralda, apontando uma série de descobertas suas no texto do acórdão que não só, no seu entender, lançavam luz sobre o caso como tinham sido 'escondidas' (ou ignoradas) pelos media.

eu disse-lhe que isso era falso. palavra por palavra, falso. não só porque todos os factos que refere foram noticiados por mim, nas peças que escrevi no dn, como os encontrei nas peças de outros jornalistas, por exemplo nas do joaquim franco, na sic, e nas do correio da manhã.

o paulorespondeu-me como se eu não o tivesse corrigido. das duas uma: ou não acredita no que eu lhe digo, e nesse caso pode fazer o favor de o dizer -- e eu farei o favor de lhe provar que está errado -- ou acredita e percebe que disse uma falsidade e prefere assobiar para o ar.

o paulo escreveu também que, de acordo com o que leu no acórdão, o pai biológico assumiu a criança ainda ela não tinha um ano -- refere-se a julho de 2002, aquando da inquirição no âmbito doa acção de averiguação da paternidade. isso é também falso. o paulo acha que assumir uma criança é dizer a um delegado do ministério público, numa inquirição no âmbito de uma acção de averiguação da paternidade, que se se provar que a criança é minha eu a perfilho. lamento informá-lo que as acções de averiguação da paternidade, automáticas quando um bebé é registado como filho de pai incógnito, existem mesmo para obrigar pais a assumir crianças que não quiseram assumir. e que o que se diz nas inquirições, como é óbvio, nada prova e nada significa até ao momento em que o pai perfilhe efectivamente o filho.

o paulo diz também, no seu terceiro post sobre o assunto, o seguinte: ' O início do processo formal de perfilhação em Fevereiro de 2003 -- tinha a bebé um ano exacto -- não poderia ter sido mais cedo porque só em Janeiro de 2003 é que foram conhecidos os resultados dos testes. Mas o essencial ocorreu em Julho de 2002, altura em que o pai biológico assumiu que quereria exercer a paternidade da bebé, na altura com seis meses, se a mesma se confirmasse'.

não podia ter acontecido mais cedo porquê, paulo? o pai não podia ter perfilhado a filha sem testes? não podia, se queria tanto saber se era dele o espermatozóide, pagar uns testes do seu bolso (repito-lhe, custam 1500 euros no IPATIMUP) e ter o resultado em duas semanas?

o essencial é ele dizer que se se provar que a criança é dele então a criança é dele, prontoS? o essencial de que ponto de vista, paulo?

sabe o paulo que o pai em causa teve de ser conduzido pela gnr -- é ele mesmo que o confirma -- para o instituto de medicina legal de coimbra para fazer os testes? sabe que as pessoas só são conduzidas pela polícia numa situação destas se faltaram antes ou se houve dificuldade na notificação?

o paulo acha mesmo o que diz, pensa mesmo o que escreve ou está só a tentar arranjar argumentos para não ter de assumir que está errado em quase tudo o que escreveu sobre esta matéria?
|| f., 12:11 || link || (1) comments |

Costa da Caparica

Se à Costa da Caparica não valeram, nestes anos todos, nem o Tribunal de Contas, nem a IGAT, nem o Ministério Público, nem as comissões de coordenação regional todas, nem as juntas metropolitanas, nem os carlos pimentas e macários correias e josés sócrates todos deste mundo e nem sequer - e até muito menos - os eleitores da terra para evitarem a irremediável destruição de uma das mais belas linhas de costa de Portugal

então que venha o mar e arrase aquilo tudo. Uma esplanada é pouco. Vá lá, mar, faz o que tens a fazer.

(foto: Paulo Carriço/Lusa)
|| JPH, 10:54 || link || (11) comments |

domingo, janeiro 21

a posiçao do professor marcelo

(desculpem, esta posta vem com maiúsculas, a culpa é do word, estúpido do programa)

O professou Marcelo tem, diz ele (acabou de dizer na RTP), uma posição heterodoxa. Um NÃO heterodoxo, muito especial, verdadeiramente extraordinário. E porquê, explica ele? Porque ele é ‘contra a penalização da mulher. Às dez semanas, aos cinco meses, aos oito meses.’
Se a pergunta fosse, portanto, ‘está de acordo que a mulher que aborta – no limite, até aos 9 meses – deixe de ser criminalizada?’, o professor Marcelo responderia SIM, concordo.
Mas, explica o professor, o que a pergunta do referendo pergunta é ‘muito mais que isso’. Porque ‘a mulher pode abortar sem causa nenhuma –- não há período reflexão nenhum nem aconselhamento nenhum --, para uma lei de liberalização nestes termos sou NÃO’.

E portanto, diz o professor Marcelo, que ninguém sabe onde foi buscar esta ideia de ‘não haver período de reflexão nenhum nem aconselhamento nenhum’ – vai-se a ver o professor Marcelo queria um boletim de voto com umas cinco páginas e uns trinta artigos a especificar as exactas condições em que se poderia interromper a gravidez, o número de dias de reflexão, a composição dos gabinetes de aconselhamento, etc -- ‘é muito claro: eu até sou SIM à despenalização mas sou contra uma lei que vai mais longe que a despenalização, que é permitir uma livre escolha sem justificação nenhuma. Um estado de alma permite à mulher abortar. Porque lhe apeteceu, põe em causa uma vida humana’.
E acrescenta que ‘os progressistas espanhóis, que legalizaram o casamento dos homossexuais, não fizeram isto, têm uma lei como a nossa actual e não quiseram mudá-la’.

Ainda bem que o professor Marcelo é tão claro. Eu, por exemplo, que nem sou professora nem formada em leis e tenho as minhas muitas e muito óbvias limitações, fiquei a perceber que o professor Marcelo acha que interromper uma gravidez até às 10 semanas deve continuar a ser crime porque a pergunta permite que a mulher escolha. Já interromper uma gravidez até aos 8 meses, desde que não fosse a mulher a escolher, não seria crime.

Ou seja: interromper até às 10 semanas por decisão (‘estado de alma, apetecimento’, como diz o professor) da mulher não pode ser porque põe em causa uma vida humana. Perseguição penal e pena de prisão com ela (e não venham com a conversa de que elas não vão presas. Não vão presas porque a pena foi nos últimos anos suspensa, mas a sentença ninguém lhes tira). Já aos 8 meses de gravidez, desde que interromper seja por decisão de outrem (o professor Marcelo não explicou de quem, mas isso agora não interessa nada), não põe em causa uma vida humana. Ou melhor, põe, mas não faz mal. Deve ter sido por uma boa causa, sem estados de alma, porque não foi uma mulher a escolher.

Claro que o professor Marcelo não se deu ao trabalho de explicar o que é que ele acha que são razões e motivos atendíveis, que não estejam já na lei em vigor, para se interromper uma gravidez, como ele diz, aos 8 meses (altura em que, como toda ou quase toda a gente sabe e presume-se que o professor Marcelo também deve saber, já se fala de bebé e não de feto e há quase generalizada viabilidade). E claro que também não interessa nada em que condições se faz uma interrupção de gravidez: nunca houve mulheres a morrer disso, como se sabe (invenções da malta fracturante) nem a ficar estéreis ou a passar uma temporada nos hospitais por complicações abortivas. Nada disso. Além de que, se morreram ou ficaram com problemas de saúde, é bem feita, não fossem abortar por ‘estados de alma’ ou porque, de repente, lhes ‘apeteceu’ dar cabo de uma vida humana.

O professor Marcelo tem de facto um NÃO extremamente (como diria o maradona) especial. Extremamente. Um NÃO em que a vida humana – a tal vida humana às 10 semanas -- só é um valor a preservar se estiver em causa a decisão da pessoa que é suposta tê-la dentro de si durante nove meses, amá-la e cuidá-la. É de facto um NÃO extremamente claro, e estou muito agradecida ao professor Marcelo por esta clarificação, que é tão tão claramente clara naquilo que recusa.

Simplificando, o professor Marcelo criou um slogan que é o inverso, o espelho do tão odiado ‘na minha barriga mando eu’: ‘na barriga da mulher só não pode mandar ela’.

O professor Marcelo não confia nas mulheres portuguesas. Vidas humanas nas mãos -- nas decisões -- delas, nem pensar. É por isso que o professor Marcelo vota NÃO. É um 'NÃO, não confio nas mulheres'.

Ainda bem que o professor Marcelo explica as coisas tão bem explicadas. É que há gente que vota NÃO que se calhar ainda não tinha percebido porquê -- agora ficou a saber.

Ah, é verdade -- mas isso agora também não interessa nada -- os tais ‘progressistas espanhóis’ querem mesmo mudar a lei e propuseram-no no programa eleitoral. Mudar a lei para algo parecido com o que o referendo propõe, e precisamente porque consideram que a decisão deve pertencer à mulher. Mas para quê informar-se alguém antes de perorar na TV perante uns milhões de portugueses quando pode inventar o que lhe vier à cabeça enquanto fala?
|| f., 23:18 || link || (0) comments |

indeed, indeed, indeed

tem graça, paulo. é que, precisamente, eu estava a falar do acórdão. e da sua leitura do acórdão. e das imprecisões da sua leitura do acórdão, mais das imprecisões da sua leitura dos media. ou as imprecisões só contam quando são protagonizadas por jornalistas?

leia o acórdão, leia, paulo. e os jornais. talvez possa até, se não for pedir muito, criar uma nova secção: 'a bloguitica errou'. ou 'a bloguitíca, no seu afã de apontar os erros dos outros, INTROPEÇOU na sua própria leitura apressada, pouco cuidadosa e até desinformada dos factos e espalhou-se ao comprido'.

quanto ao post seguinte, que também teve a amabilidade de me dedicar, vá-se saber porquê -- porque sou jornalista? porque a notícia em causa é do jornal de cuja redacção faço parte? porque sou colega de curso de comunicação social da paula sá e colega de estágio no expresso (destas não sabia, mas declarações de interesses é assim)? --, tem o mesmo problema de quase todos os posts que escreve sobre jornalismo: o paulo acha que o jornalismo não é (ou não deve ser) uma actividade interpretativa, mas uma espécie de débito de 'puros factos'. uma 'leitura' ou 'hipótese perfilhada' por uma jornalista é uma coisa que o deixa de cabelos em pé.

desculpe dar-lhe assim esta novidade de chofre, paulo (espero que esteja sentado a ler isto), mas o jornalismo é e só pode ser uma actividade interpretativa. nunca foi e nunca será outra coisa -- e é quando parece não ser que mais perigoso se torna, na sua aparente pureza. qualquer pessoa normal lê o que cita do texto da paula e percebe que se trata de uma interpretação. interpretação que talvez -- não faço ideia -- lhe venha de conversas que teve com o sujeito da notícia ou com o seu círculo próximo. qual o problema, paulo? é que sinceramente não percebo.
|| f., 18:32 || link || (1) comments |

como é possível, indeed

este blogue começa a parecer ter uma obsessão com o paulo gorjão e as suas constantes indignações com as alegadas aleivosias jornalísticas? começa.

mas de facto, por mais que se queira encarar com bonomia a ombudsmania do paulo, de vez em quando temos de também prover aos leitores da blogosfera e fazer a crítica do criticador. diz o paulo que andou a ler o acórdão do tribunal de torres novas e descobriu coisas que os media não disseram. nomeadamente, que o pai biológico da esmeralda assumiu a paternidade da criança quando ela tinha menos de um ano de idade. o paulo indica até os parágrafos onde esta informação virá referida.

pois bem, paulo. em primeiro lugar, a informação quanto ao momento da assunção da paternidade veio nos jornais -- no dn, pelo menos, veio certamente, porque eu a escrevi. se precisar, arranjo fotocópias. o que não veio de certeza foi o que o paulo escreveu, já que é falso. aliás, há-de explicar-me onde leu isso na sentença, já que o que lá vem é que baltazar nunes perfilhou a criança em fevereiro de 2003 -- ou seja, quando ela fez um ano. não sei se quando se refere ao assumir está a falar do facto de em julho de 2002, quando inquirido pelo ministério público no âmbito da acção de averiguação de paternidade, baltazar ter afirmado que perfilharia a bebé caso se provasse ser sua filha. é que se é disso que fala, tem uma noção de assunção um pouco diferente da minha.

depois, o paulo, que eu tinha (até julgava que não fazia mais nada) como um atento leitor de jornais, também descobriu agora, na sentença, que a acção de regulação da paternidade foi decidida em julho de 2004 a favor do pai biológico. ainda mais extraordinário. não leu isso em lado nenhum, paulo? não ouviu isso na tv? tem andado a ler jornais e a ver tv do burundi, decerto.

a história está muito mal contada na comunicação social, repete (e repete, repete, repete) o paulo. e dá um exemplo: a entrevista da mãe biológica a uma tv. é interessante. o paulo acha que a versão da mãe biológica não bate certo com o que foi dado como provado no tribunal, ou seja, com o que aqueles juízes consideraram ser a verdade, logo, a mãe biológica contou mal a história e os media deixaram-na contá-la mal. curioso. muito curioso mesmo, tendo em conta que, ao ler o acórdão, duas coisas ficam claras:que a mãe biológica não foi tida nem havida no processo crime e que muito do que é dado como provado assenta exclusivamente na versão do pai biológico e da respectiva mulher.

talvez paulo gorjão, sempre tão cioso dos mecanismos de produção de sentido dos media, devesse debruçar-se sobre os mesmos mecanismos nos tribunais. tem aí pano para mangas, meu caro.

pano para mangas também, mas de outro teor, está nesta singela afirmação do paulo: 'a criança deveria ter sido entregue quando ainda nem dois anos e meio tinha'. nem dois anos e meio, paulo? e onde esteve ela durante esses dois anos e meio? que teria sido dela durante esses dois anos e meio se dependesse dos sentimentos do pai biológico?

para o paulo, parece, as extraordinárias passagens do acórdão em que se dá como normal e aceitável e talvez mesmo justo e certo que um homem, tendo tido sexo com uma mulher sem cuidar de tomar precauções para não a engravidar, recuse ter seja o que for a ver com uma gravidez e uma criança que aquela garante ser de sua (dele) responsabilidade até que essa responsabilidade lhe seja provada com testes de adn são do mais objectivo que se arranja.
é normal e aceitável e talvez mesmo justo e certo que não tenha querido saber, até que os testes de adn, efectuados por iniciativa judicial e não dele (por 1500 euros, paulo, como pode ler no dn -- leu? --, essa informação teria estado disponível em duas semanas), lhe dizerem que foi dele o espermatozóide que fecundou aquele óvulo, se a criança vivia ou morria?

e que de súbito, vendo num papel a certificação do adn comum com a criança, passe a viver 'um sonho' que, como se lê na sentença, se 'desmorona' porque não lhe entregam a criança?

leia-se a sentença:

'50- O Demandante quis e quer, desde que o soube ser, assumir-se realmente como o pai da menor Esmeralda, ainda hoje espera adormece?-la, acorda?-la, leva?-la a? escola, alimenta?-la, trata?-la na doenc?a, passea?-la, brincar com ela, apresenta?-la aos tios, primos e avo?s, dar-lhe a conhecer a sua realidade, inseri-la no seu agregado familiar composto por si, a sua companheira ja? de ha? alguns anos e o filho menor desta, a quem trata por o meu pequenito.
51- Gosta muito de crianc?as
52-Tem construi?do a sua vida familiar perspectivando englobar nela a sua filha Esmeralda, mudou de casa para recebe?-la, mobilou e decorou um quarto so? para ela.
53- A sua frustrac?a?o e sentimentos de impote?ncia, foram-se acentuando ao longo dos meses, transmudando-se em tristeza, angustia e desespero, ao ver-se sucessivamente impedido de ter acesso a? respectiva, filha tudo mais agravado com as sucessivas reviravoltas na actuac?a?o do arguido e esposa.
54- Sentimentos, mais agravados e acentuados apo?s a regulac?a?o do poder paternal, quando constatou que o mandado de entrega da menor remetido a? P.S.P., do Entroncamento, na?o era cumprido, apesar de ter deslocado va?rias vezes ao posto daquelas Forc?as de Seguranc?a, na esperanc?a de obter noticias animadoras, embora sempre em va?o.
55-Sente-se impotente, desesperado, desacreditado, humilhado, rebaixado e atentado nos seus direitos, de protecc?a?o da vida familiar, face a? inefica?cia e inviabilizac?a?o na concretizac?a?o de uma decisa?o que estipula que a sua filha deveria estar junto dele e na?o esta?, causada pelo modo de agir do arguido e esposa, ao afastarem e ocultarem a menor, como bem entendem e para onde querem, recusando e impedindo a sua entrega, bem sabendo estar obrigados a entrega?-la.
56- Em conseque?ncia o Demandante passou a ser uma pessoa reservada e fechada sobre si mesmo, evita falar na sua filha e em toda a situac?a?o a? sua volta, porque sofre ao ver-se privado, como era seu direito, de acompanhar o processo de crescimento e desenvolvimento da sua filha.
57-Sonha com a menor, imagina a sua voz, os seus gestos, frequentemente chora e pede a? companheira para o ajudar por na?o aguentar mais a espera em ter consigo a menor.'

que diria o paulo se este romance lhe fosse contado por um jornal ou uma tv? perguntaria qual a fonte, não era, paulo? perguntaria como se chegou a estas conclusões, não era, paulo? pois era. perguntaria, por exemplo, quem é 'a pessoa reservada e fechada sobre si mesma que evita falar da filha e em toda a situação à sua volta' que desde 2004 anda a dar entrevistas a tudo quanto é jornal e tv sobre, precisamente, 'a filha e toda a situação à sua volta'.perguntaria, por exemplo, que seria da criança se não houvesse testes de adn.

não quero dizer com isto, paulo, que não tem razão quando diz que 'há muito mais para saber'. claro que há. claro que há uma tendência maniqueísta no discurso mediático. e claro que é preciso ter cuidado com abaixos-assinados e com comboios de opinião. mas é preciso também, paulo, ter cuidado com essa ânsia de apontar o dedo e de 'contrariar' aquilo que acha ser o sentido dominante do discurso. é que às vezes faz figuras um pouco ridículas. que são escusadas, acho eu.
|| f., 14:48 || link || (0) comments |

O "debate"

A campanha do referendo é cada vez mais aquilo que toda a gente minimamente avisada esperava que fosse. Um (César das Neves) diz que se o "sim" ganhar, o aborto passará a ser "tão normal como um telemóvel"; outro (José António Pinto Ribeiro, apoiante do "sim") responde "um ovo não tem os mesmos direitos que um frango". A campanha do "sim" preocupa-se com os gastos da campanha do "não"; a campanha do "não" preocupa-se com um mail supostamente enviado por uma funcionária pública. Enfim: já são poucos os que se fazem ouvir tentando argumentar sobre o que efectivamente em causa e que é, e passo a citar, o seguinte:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Não moralizo. Acho até bem. Cada macaquinho no seu galho: os activistas com o circo; os eleitores com o que interessa.
|| JPH, 13:42 || link || (1) comments |

Honestidade

Repararam numa pequena notícia no Público de ontem dando conta de uma intervenção do bispo de Beja, D. António Vitalino Dantas, sobre o referendo do aborto? Ele disse isto: às dez semanas o embrião "não é pessoa humana, porque não tem consciência dos seus actos. Não tem alma". Eu repito: "Não é pessoa humana, porque não tem consciência dos seus actos. Não tem alma."
|| JPH, 12:55 || link || (0) comments |

sábado, janeiro 20

o juizo dos juizes, 2

lê-se e não se quer crer, vê-se e não ser acredita. a associação sindical dos juízes resolveu fazer um comunicado sobre o caso do sargento luís gomes, condenado a seis anos de prisão pelo sequestro de uma criança que criou desde os três meses, quando lhe foi entregue a ele e à mulher pela mãe biológica.

em defesa da decisão do colectivo de juízes de torres novas que condenou o sargento, a associação sindical decidiu 'esclarecer' as gentes, elencando uma série de 'factos'. curiosamente, os 'factos' dizem respeito não ao processo crime em causa mas ao processo de regulação do poder paternal, julgado e decidido por outro juiz que não os que deliberaram o acórdão criminal. dizem os juízes que é preciso trazer ao conhecimento das gentes, que eles vêem indignadas com a condenação e o seu peso, os 'factos'.

não todos, claro -- só os que os juízes consideram, na sua infinita e imparcial justeza, susceptíveis de criar dúvida e suspeição nas mentes das gentes face ao carácter do sargento.

alegando combater a superficialidade e a manipulação -- a 'visão distorcida' que a comunicaçãop social permitiu dos 'fundamentos da decisão do tribunal' --, a associação sindical vem a dar a sua versão, naturalmente autêntica e nada torcida, dos acontecimentos.

esta versão, mais uma vez naturalmente, baseia-se naquilo que os seus colegas deram como provado. aos juízes assim associados não ocorre, naturalmente, que nem sempre o que é dado como provado por juízes é verdade. acontece até haver julgamentos de juízes anulados por outros juízes por estes últimos considerarem que os primeiros deram como provadas coisas que nunca foram provadas ou que não podiam ser dadas como provadas. confuso, não é?

pois é. mas a associação sindical dos juízes não quer cá confusões dessas. e enquanto vai falando de recursos e de transparência e da legitimidade da crítica e do escrutínio às decisões judiciais, manda o seu presidente para a sic discutir o processo como se fosse tu cá tu lá com o sargento, a mulher, a mãe biológica e o pai biológico, assumindo a clara defesa da condenação e 'demonstrando' por a + b que o sargento e a mulher, ao acolher a criança e tratá-la como filha quando nem a mãe nem o pai a queriam, cometeram uma catrefada de crimes e de ilegalidades pelas quais merecem -- só podem merecer, a lei é para se cumprir, etc -- passar uns anitos à sombra. ainda bem que a associação sindical dos juízes confia que 'a solução final dos processos terá em conta, sobretudo, o superior interesse da menor'. E que espera que 'os tribunais, com transparência mas também com tranquilidade, saberão fazer uma avaliação correcta e ponderada deste importante caso judicial e humano'.

porque para quem lê o texto do comunicado e ouve o presidente da associação, só parece haver um caso humano em causa: o dos juízes.
|| f., 13:12 || link || (0) comments |

sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim

há mais um blogue pelo sim. a partir de hoje, vou pregar também. mais a helena matos, a joana amaral dias, o vasco m. barreto, o luís m. jorge, maradona, o miguel vale de almeida, o rui tavares, o ivan nunes, o pedro adão e silva, o ricardo araújo pereira, o daniel oliveira, o joão pinto e castro, o miguel abrantes, o carlos abreu amorim e o vasco rato.

a ver se esta coisa se resolve de uma vez e deixo de ter vergonha do meu país.
|| f., 12:46 || link || (4) comments |

no, no se puede

na passagem de ano, recebi uma sms de um blogger. dizia no se puede vivir sin amar. entre outras coisas. estava zangada com ele e deixei de estar.

não consigo continuar zangada com alguém que me cita under the volcano.
|| f., 03:28 || link || (0) comments |

sexta-feira, janeiro 19

Um estadista

Se bem percebi das suas próprias palavras, Nuno Melo decidiu demitir-se da liderança do grupo parlamentar do CDS/PP já há algumas semanas. Mas só ontem anunciou. Pelo meio abichou uma viagenzita grátis de uma semana à India, à pala do erário público, integrando a comitiva do senhor Presidente da República. Parabéns. Temos aqui um estadista.
|| JPH, 10:41 || link || (0) comments |

quinta-feira, janeiro 18

o juizo dos juizes

parece que o conselho superior de magistratura foi à assembleia da república assumir as críricas que a associação sindical dos juízes efectuou à proposta de revisão do código penal. entre as irritações do parecer, agora subscritas pelo csm, está o facto de o novo crime de violência doméstica (novo na lei, evidentemente, que é velho como matusalém) incluir na sua tipificação a violência entre casais do mesmo sexo. de acordo com o parecer e os seus autores, para tipificar o crime de violência doméstica a lei deve ater-se a definições do género 'superioridade física' entre agressor e vítima, que do ponto de vista dos juízes só existe quando quando o agressor é masculino e a vítima feminina.

para os juízes, incluir os casais do mesmo sexo nesta definição de crime é 'fazer entrar pela janela o que não entrou pela porta', ou seja, equiparar os casais homossexuais aos casais hetero, coisa que eles parecem ter a certeza de que a lei (e sobretudo os bons costumes deles, juízes) não permite. os juízes referem-se, como é óbvio, ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, que o código civil não admite (embora haja quem defenda que essa inadmissibilidade é inconstitucional). sucede que a lei das uniões de facto, existente desde 2001 (ainda não deve ter chegado aos juízes, o que aliás explica muita coisa) não discrimina entre casais de sexo diferente e casais do mesmo sexo. portanto das duas uma: ou a violência doméstica, no entender dos senhores juízes, só pode existir no seio do casamento e portanto é porrada à vontade nas uniões de facto, ou as uniões de facto entram na tipificação e portanto a lei devia trazer assim umas medidas e uns pesos para especificar o que deve ser entendido como 'superioridade física' -- e apenas física, já que, como toda a gente sabe, o ascendente que permite a violência nunca passa por outros atributos, nomeadamente afectivos, sociais, económicos, etc. do género: se a diferença de altura e peso entre a vítima e o agressor for de x massa corporal, há violência doméstica; se for menor, a vítima podia e devia ter-se virado ao agressor e se não o fez não venha agora chorar-se, o/a mariquinhas.

estou a pensar, por exemplo, em alguns juízes bem pequenitos e franzinos que tenho visto. e a quem, se me apetecesse dar uma bordoada ou mesmo mandar pela janela e não pela porta caso tivesse a ideia de alguma vez me amancebar com um que me viesse com uma conversa destas, talvez conviesse haver uma lei que não lhes frisasse que sendo homens tinham mais era que se virar a mim, acrescentando aos ossos partidos a censura e a mofa social plasmada na lei.

devem ter sido este tipo de 'raciocínios' que atér 1998 fizeram inexistir, no código penal, o crime de violação de homens. violadas eram só as mulheres, na lei portuguesa: era lá imaginável que alguém pudesse violar um macho.
|| f., 13:55 || link || (0) comments |

a goa da paula

a paula sousa nunes enviou para o glória a sua memória de goa. anos 80, antes das top tours. adenda ao congelado dos anos noventa. aqui vai,

'Estive em Goa no princípio dos anos 80. A mesma saga aérea, Frankfurt, horas de aeroporto e longo voo felizmente menos atafulhado que hoje.

O desembarque em Bombaim, ao alvorecer, o calor pegajoso, o táxi até ao porto para apanhar o barco até Goa. Essas duas horas em que atravessei Bombaim mudaram a minha vida. É certo que fazia uma viagem existencial ao oriente, em vésperas de uma grande cirurgia, de resultado incerto. Considerava a hipótese até de nem regressar. Nessas duas horas, colada ao vidro do táxi, assisti ao acordar,  que percebi milhares de vezes repetido, de uma civilização, de uma outra dimensão, antiquíssima e real, muito mais real do que a que abandonara em Frankfurt. Nas soleiras das portas, nos degraus dos templos, pedintes erguiam-se, sacudiam os andrajos e olhavam-nos com aquele olhar negro que nos trespassava de humanidade e doía cá fundo, tão fundo que nem sabia que existia uma tão grande profundidade em mim. Outros vultos permaneciam prostrados, envoltos em panos de cor indefinida. Já não veriam o novo dia. Em redor, uma multidão colorida de gentes e veículos devolvia à cidade mais uma jornada barulhenta e quente. Quando cheguei ao cais, abalada por uma realidade que apenas pressentira nos livros e nos filmes, não tinha a certeza de querer continuar.

No barco, a caminho de Goa, entre indianos, forasteiros e freaks, uma tempestade ciclónica quase resolveu definitivamente as minhas dúvidas. Viajava com a amiga de uma amiga, da qual me separaria, semanas mais tarde, em Katmandu, para reencontrar, semanas depois, nos Himalaias, por um absoluto acaso. Mas nessa altura éramos duas portuguesas a caminho de Goa. E isso era todo um programa. A nossa referência local era o Lobé Távora, que a Fernanda já não conheceu, provavelmente. Ficámos em Baga numa casa na praia alugada a uma Maria. Tantas vezes em Mapusa e Calengute fomos interpeladas na rua por gente que só nos queria ouvir falar português. Nas vésperas da partida enviámos para Portugal panos, pulseiras e outras quinquilharias. Fizémos um pacote de pano, que cosemos com agulha e linha emprestada pelo Lobé e  que deixámos na velha estação dos CTT, à responsabilidade do chefe.  Chegou intacto, os mesmos pontarelos inviolados.

Nessa altura, os goeses da diáspora  ainda não tinham a top tours com os preços de massas, a fricalhada ainda não tinha invadido Goa, apenas alguns  franceses e alemães ilustrados alugavam casas à época ou ficavam no único hotel de Baga, ingleses e italianos emVagator ou Anjuna, e os indianos observavam-nos curiosos, mas sem frequentar nem as praias nem as chai shops. Os hippies que resistiam, alternavam entre Goa no inverno e, vinda a monção, o Rajastã ou Cachemira. Ainda não havia resorts e o Hotel Pangim, em Pangim, tinha aquele ar decadente e colonial que só fascinava no primeiro dia. 

Regressei com Goa no coração, a Goa dos anos oitenta, entre a nostalgia e a rejeição, mas com a portugalidade desastrada e comovida inscrita  na estranheza do vestuário (as saias católicas) e da língua que, sentia-se, desapareceriam um dia, com os últimos sobreviventes goeses.'

 


 
|| f., 13:17 || link || (0) comments |

quarta-feira, janeiro 17

congelado indiano para desenjoar da dieta abortiva

em 1994, em reportagem pela grande reportagem, fui a goa. do encontro trouxe este texto e o travo de uma paixão paradoxal.a propósito da viagem presidencial à índia, apeteceu-me postá-lo. aqui vai.

GOA

AUTO DO CORAÇÃO CATIVO


Foi no tempo dos reis e dos impérios o lugar das Indias. De Tiracol a Cotigao, 3702 quilómetros quadrados de conquistas, a espada e a cruz fundidas na pedra dos altares, nomes, uma língua em testemunho. Dos corpos das cores e dos gestos risca-se um mapa estranho. O logro da geografia faz delírios. Deve ser isto a lei do tempo igual ao espaço, a ideia certa do mundo. Mesmo se no fim o sangue a pulso faz impossível o olhar.

Nunca se sabe o que esperar deste desencontro. Duas horas até Frankfurt, oito até Bombaim, do universo pressurizado da Europa para este céu estranho. Um calor molhado na pele, turbantes, saris, rostos recortados num Atlas antigo, uma espécie de sonho. O relógio e o corpo entregam-se com reticência à lógica dos fusos, à improvável lei das viagens. Não há evidência nesta vertigem, razão nenhuma.
A India, portanto. Bombaim, de táxi para o centro. Nove milhões de habitantes, dote da lusa infanta Catarina de Bragança em núpcias com a coroa britânica. Três séculos depois, o primeiro assalto das ruas é uma torrente de som. Buzinas, gritos, automóveis ao desbarato, peões a todo o vapor num jogo indecifrável. Em cada semáforo, um cortejo de mendigos afronta o sol escaldante, mulheres de olhos prostrados e bébé no colo, a mão estendida numa língua rápida, maleitas que estremecem a civilização, visões nauseabundas, corpos obscenos. Sem pernas, um homem balança nas muletas antes do sinal verde, uma figura envolta em panos prescruta na mão sem dedos a janela entreaberta do táxi, crianças cobertas de poeira fazem enxame, batem nas portas, gritam. Estrangeiros, turistas, dinheiro. Choque de culturas: É assim que o jargão corrente classifica esta perda momentânea de coordenadas, este caleidoscopio de snapshots que leva de enxurrada a clareza. Mesmo se nas imagens desconexas se intui um significado supremo, um segredo primordial à espera da chave. Mesmo se se sabe que, de algum modo, o desvario dos sensos recentrará o pensamento. O sentido encontra sempre o seu caminho. Como na grandiosa Gateway of India, o arco triunfal de pedra amarelada erguido à beira do porto para pompa do rei George V e consorte na ocasião da sua visita à jóia, em 1911, com o Taj Mahal, hotel de noventa e um anos, a dois passos. De modo a que da suite real, lá do alto do sexto andar, o monarca pudesse a cada amanhecer certificar o domínio da coroa e a India a seus pés, o mar em moldura contínua. E regressar, sonâmbulo sobre as águas.

Da mesma maneira chegar a Goa: como Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque, no sulco dos descobridores, dos conquistadores e dos impérios, em paródia e nostalgia. Gravar a costa para sul, subir o rio Mandovi, atracar em Panjim. Num fim de tarde, como no cruzeiro lento que todos os dias às sete larga do mesmo cais em peregrinação folclorica, americanos, alemães, ingleses, indianos dos sete cantos da União, um ou outro japonês, boquiabertos na batida do Malhão goês e dos corridinhos de dois pares que em miscelânea de trajes — sari, madeirense, ceifeira, meia nazarena — exibem nos últimos raios de sol, com catedrais abraçadas em palmeiras, cruzes carregadas de grinaldas e fortes de além mar em fundo, a naturalidade da aculturação, mergulhando no olhar português um dardo envenenado. Como se fosse possível regressar, como se fosse verdade que deixámos saudades.

Goa, Gomanta, Gopakapura, Gove. Kouba para os gregos antigos, Sindãbur ou Sandãbur para os árabes. Séculos de dominações, invasões e conquistas. No século XI, a dinastia hindu Kadamba transfere a capital do território da zona de Chandor para Goapuri, hoje Goa Velha. Foram e vieram os sultões, em 1488 o reino dos Adil-Shãkis, de Bijapur. Chegado a Calecute em 1498, Vasco da Gama estabelece trato em Cochim. Ameaçado pelos árabes, incomodado pelo Samorin de Calecute, procurara um lugar mais aprazível como base. Em 1510, Afonso de Albuquerque e a sua armada lutam pela posse da cidade de Goa contra Ismael Adhil-Shãh, o sultão de Bijapur. Do alto do monte santo, o campo de batalha e a terra conquistada a perder de vista, Albuquerque encomenda a vitória a Nossa Senhora do Rosário. Em seu nome, é
eregida em 1544 a capela de torres como ameias que hoje domina a Goa indiana, pórtico gótico-manuelino, murais hindus e túmulo maometano. Mais precisamente o de Catarina Piró, plebeia amante do vice-rei Garcia de Sá cuja truculência não se perdeu em Camilo. Com a sua memória, o horizonte apaixona-se no estertor da conquista, a espada manchada do comandante à derradeira luz, a armadura pesada na prece. Possível crer nesta epopeia daqui.

Ao fim da alameda, uma escadaria ocre com duas vendedeiras de flores aos pés e uma vaca negra, meio búfalo, em pose. O sol da manhã fustiga as pétalas nos cestos, a água atrai as moscas, o ar pesa de doçura e luz. Ao cimo das escadas um portão e uma praça de terra batida rodeada de arcadas, no centro uma torre circular de imagens coloridas e um edificio mais baixo, as linhas de um templo. Cá fora, uma estante azul de madeira amontoa sapatos, junto à planta sagrada, "faz para eles as vezes da cruz", explicam-me. Um homem escuro de sarong, o peito dilacerado por cicatrizes múltiplas, sauda. "Do you speak english?" Sorridente e aplicado, inicia o tour. "O nome deste templo é Manguexi. Há 450 anos, Goa foi conquistada pelos portugueses, que destruiram muitos templos hindus, incluindo aquele em que originalmente estava esta imagem de nosso senhor Shiva, que foi salva e trazida para aqui." Indica o pequeno boi de prata, aquele que carrega Shiva, as imagens do deus que dança, a simbologia das mãos, as três portas esculpidas em prata maciça que definem os graus de intimidade com a oração. Aos não crentes são vedadas a segunda e a terceira, e só os sacerdotes podem franquear a última. Uma família aproxima-se, homem à frente, mulher um pouco atrás com a criança, atravessam o segundo arco, postam-se em
adoração. Ao fundo, junto à imagem do deus, uma pequena fogueira e um enorme cilindro de ponta arredondada, indiscutivelmente fálico: Shiva-linga, o que quer que queira dizer. O espaço não é muito maior que uma sala, a distância para o deus poucos metros, o tecto baixo. Respira-se um perfume de flores e tranquilidade, um recolhimento sem pompa. À despedida, o sacerdote de peito lacerado — ferros em brasa da iniciação, paga-se caro para ser padre, por aqui — inquire nacionalidades. Antecipa-se qualquer coisa, uma surpresa, uma reacção qualquer. "Portuguese?" Sorri em silêncio, sem ironia no adeus.

De Ponda para Margão, a estrada serpenteia susto a susto, camiões a toda a brida num apito furioso, vacas plantadas em cada curva de focinho alçado e postura real, peões de outro século, cesta na nuca e passo arrastado. Nos campos é tempo de colheitas, as plantas douradas e os saris intensos, vermelho e azul solto ao vento em cenário perfeito. Máquinas nenhumas, o grão debulha-se à mão sobre o alcatrão da estrada, liso e duro como as melhores eiras, com os automóveis em passagem lenta a dar uma ajuda.Acenam à partida, riso aberto: os turistas são tão parvos, fotografam cada coisa.
Em Margão, antes de um lauto almoço no restaurante Longuinhos, a fazer honra à conotação especieira da cidade, uma paragem na casa de Ivo da Costa Azevedo e esposa Maria do Carmo, industriais de conservas e fabricantes de vinho. Ele goês, ela portuguesa de Castelo Branco. Veio aos 26 anos, em 1960, nunca mais voltou. Os filhos estão cá, a vida é aqui, mesmo que passados trinta e três anos mantenha a determinação de não aprender sequer o concanim, o dialecto da região, quanto mais o inglês. "Os criados ao principio riam-se", explica o marido, "Mas como têm muita facilidade para as línguas lá vão aprendendo eles o português." Que remédio, sorri ela, adivinha-se uma vontade de ferro sob esta face tranquila que em 61 afrontou as ordens de Salazar para repatriar as "senhoras" nas vésperas da invasão. "Fui eu, a mulher do governador, que se recusou a abandoná-lo, e uma senhora já muito de idade que eles nem foram incomodar. Como nessa altura era rofessora, foram à escola buscar-me para me enfiar no barco à força, mas eu felizmente não estava lá, E quando vieram cá a casa mandei os criados dizer que não estava, que estava escondida em parte incerta. Ficaram furiosos mas lá engoliram. Ele — o Salazar — não queria que portuguesa nenhuma ficasse cá." Teve medo? "Não... Quer dizer, tive medo dos soldados, que tinham uns olhos muito penetrantes. Eram sikhs do Punjab, dizia-se que como tinham vindo para lutar e não tinha havido luta estavam com aquilo na ideia. Eu e o meu marido estávamos muito curiosos, até fomos muito caladinhos ali a cima onde eles estavam aquartelados vê-los de longe, como se fossemos ao jardim zoológico. Eles olhavam mas não diziam nada, com aqueles olhos terríveis." Não tem saudades de Portugal, estes anos todos longe? "Bem... Eu tenho muito medo de andar de avião, sabe? Meti na cabeça que me acontece alguma." E de falar português, tem saudades? Há muita gente com quem falar? "Já só os velhos é que falam português. Embora hoje em dia se fale muito do tempo dos portugueses." Ri, encolhe os ombros, troca um olhar cúmplice com o marido: "Agora só se diz bem dos portugueses, passou o mau, só ficou o bem." O que é Portugal para si? "Sinto-me portuguesa, ainda. Mas naturalizei-me indiana por causa da fábrica, é melhor." E em relação à India, sente-se parte dela? Ou só de Goa? "É difícil dizer. Se sou goesa, indiana ou portuguesa. Não penso muito nisso, sabe?"

Vá-se lá saber porquê, toda a gente acha que é uma cidade, Goa, em vez de um estado, pequeno para a India, do tamanho do Algarve mais ou menos. No mapa, os onze distritos declinam-se em tons pastel, duas vezes a cor-de-rosa, como a gozar o sonho. Devemos ter decorado estes nomes e outros, no tempo em que a trilogia indiana já não ornamentava a nuca despida de Salazar, hirto e um pouco enviezado no seu retrato oficial de escola primária, mas permanecia nossa no programa educativo. E se a toponimia actualizada, com os seus Chandranaths, Gadiawaddas e Gaodongrems
se afigura de longe demasiado truculenta para as sílabas das crianças, a colecção de denominações terminadas em lim ou im — Bicholim, Loutulim, Ambelim, Canaguinim, Candolim, por aí fora — parece vagamente familiar mais que não seja por tão pronunciável e encantatória. Para não falar de Nuvem, Vasco da Gama, Mercês, Piedade, Chorão. É estranho, mas de cada vez que aparece um nome assim, mesmo já conhecido do mapa, perpassa uma euforia breve, como se fosse preciso encontrar a tabuleta para crer que sim, que é verdade, que as letras são as mesmas neste território longínquo, que mesmo que não houvesse testemunhas havia esta lingua, esta ideia de continuidade. Resistência, como na capela que algures numa estrada faz sorrir: Our Lady of Boa Viagem, o inglês rendido por uma vez ao sortilégio de outro idioma.

Panjim é a capital do estado, uma cidade ruidosa como cópia em muito pequena escala do caos de Bombaim, corpos cruzados em slow motion, veículos a toda a velocidade, táxis-moto, este contraste entre a respiração etnica e o advento da tecnologia que faz o preço de um rolo de slides equivalente ao jantar de duas pessoas num bom restaurante, tudo o que é artesanal ao preço da chuva, o resto os olhos da cara. Nas esquinas espalham-se alpargatas de couro, colares, especiarias, flores, os vendedores acocorados naquela posição impossível dos asiáticos, pacientes, insistentes. Muitos
mendigos, chagas, aleijões, mulheres de testa colorida, peles rasgadas por manchas brancas, deve ser isto a pelagra, dizem os manuais que é falta de vitamina B. Às vezes avançam, agarram, apetece sacudi-los, o sangue europeu a falar alto, o apelo da decadência demasiado para os sentidos, mesmo se a dança das cores extasia, mesmo se no ar a podridão e o sândalo, caril e flores à mistura, atordoa a análise, mergulha noutro estado, vida e morte em corrente contínua, exaltada. Nunca como aqui esta hegemonia ancestral se revelou tão forte, a seiva dos Albuquerques é um gume de aço na correcção política. Ruyard Kipling, filho de Bombaim esculpido nas escolas inglesas, lá devia saber: "East is East and West is West and never the twain shall meet."

Baga Beach. As dunas suaves guardam barcos de pesca, o mar desfaz os últimos suspiros da monção, palmeiras numa dança suave. O enlevo tropical dura pouco. "Sister, sister." Uma rapariga cravejada de espelhos e enfeites de prata chocalha a mercadoria, cobertores no mesmo género, um sorriso promissor. Chegam mais duas, exigem uma promessa, mão na mão, olhos nos olhos: sexta feira, no mercado de Mapusa, devo procurá-las. "Promise? You promised." O porte de ciganas não desmente a raça, foi daqui que eles partiram, há centenas de anos, para fazer a volta da prisão. Talvez mesmo de Mapusa, do grande mercado que às oito da manhã de sexta já mexe no torpor do sol, mil bugigangas falsas e verdadeiras, panos, coletes de brocado, hortaliças exóticas, braçadas de coentros, flores, sacos de açafrão a colorir o ar, sementes desconhecidas, laranjas e maçãs em pilha, galinhas de patas presas num cacarejo infernal, rapazinhos cobertos de sândalo a impingir colares ao nariz, ouros, madeiras, mendigos, rostos atravessados de prata, uma multidão em corrupio, sister, sister, um labirinto, cestos de peixe seco numa nuvem de moscas, mil odores em concorrência, o estômago em náusea profunda, na nuca o calor e os gritos, nuvens de pó, pimenta e caril, regateios e pregões. Um inferno de delícias por algumas rupias.

"Hoje vamos a Velha Goa." O doutor Carmo Azevedo, goês de pura cepa, "indiano de formação portuguesa", oitenta e cinco anos, alto e seco como os sábios hindus dos filmes, ofereceu-se para fazer a visita guiada das catedrais. Não ocorre outro nome perante estas torres a pino que esmagam os campos em redor, ou antes não esmagam, numa simbiose bizarra entre a herança de colunas, florões e cal viva e as palmeiras, os saris, cabras e leitões negros a pastar no átrio, um cruxifixo imenso, o silêncio da selva. "As igrejas das Velhas Conquistas são todas assim, desproporcionadas." Dizem que são perto de 450 em todo o território mas Carmo Azevedo sorri, é um exagero. A diferença nas conquistas tem a ver obviamente com a época da ocupação portuguesa, mais antiga ou mais recente, e Velha Goa — não confundir com Goa Velha, pré-portuguesa, dos Kadambas — é o lugar da antiga cidade, a do esplendor e da glória, a Goa dourada das lendas, capital do Império Português do Oriente. A curtos quilómetros de Panjim, um deserto povoado de templos que se atravessa como uma miragem, o múrmurio verde do matagal em fundo, o céu quieto, e de súbito uma igreja magnífica, dilatar a fé e o império, um arrepio, um fervor maior que a vida a testemunhar uma civilização esquecida. Cairam as casas, os palácios e as pessoas, dizimadas por pragas sucessivas, ficou isto. A São Francisco Xavier, Goencho Saiba (o senhor de Goa), jesuíta de origem basca canonizado em 1622 e cujas relíquias — ou o que resta delas, após o ritual desmenbramento dos santos — repousam em Goa na igreja do Bom Jesus encerradas num caixão de cristal e prata trabalhada, expostas de dez em dez anos para gáudio dos muitos crentes e do Turismo regional, é atribuída a predição deste fim. "Ninguém a tomará mas por si acabará", terá dito o santo que, apesar de carregar a lenda de um milhão de conversões, achou por bem, perante "tanta idolatria", requisitar ao papa o envio do Santo Ofício para terras da India. O alto pontífice não se fez rogado e a Inquisição indiana, desfechada já após a morte de Xavier, disputa a palma de suprema selvajaria, última das grande pragas a arrasar Goa.

"Era inevitável." Aleixo Manuel da Costa, 85 anos, historiador, autor dos três volumes do Diccionário da Literatura Portuguesa
que a Fundação Oriente vai agora editar, não tem dúvidas que Portugal tinha de sair. E que a lingua portuguesa vai desaparecer em Goa. "O concanim é a lingua oficializada, nem sequer existe à venda um dicionário concanim-português. Só na Biblioteca, e é do fim do século passado." Conta histórias numa voz esforçada, o rigor da última monção deixou-lhe uma gripe renitente. As lendas cosem-se nos factos, anedotas de Afonso de Albuquerque, malaguetas e mangas que quase toda a gente já esqueceu e ninguém recolhe. O governo indiano tem mais em que pensar, Portugal acordou tarde. A cultura portuguesa em Goa é um fenómeno marginal, um especimen em vias de extinção, por mais que se apressem as obras do novel centro cultural, aqui no Bairro das Fontainhas, ao virar da esquina, um edifício branco e verde muito
bem restaurado. Para fazer o quê? Se nem no mapa se encontra o antigo Bairro Latino! Há-de haver uma explicação qualquer para que o tenham apagado, se o Altinho, por exemplo, o velho bairro da aristocracia, belas casas elevadas sobre Panjim onde hoje não vive uma única das velhas famílias, ainda lá figura. O caso é tanto mais difícil de entender quanto há uns quinze anos se decretou a impossibilidade de desfeitear as fachadas dasFontainhas, de construir de novo. Ninguém sabe explicar, encolhem-se ombros, um sorriso irónico. Para bom entendedor,ainda no ano passado, a propósito do consulado recém-aberto e do centro cultural o embaixador da India em Lisboa punha em perspectiva o entusiasmo goês por Portugal e vice-versa: que a India não é só Goa, que o que os goeses querem é passaportes para a Europa. Má vontade? Aleixo da Costa lembra que o boletim do instituto cultural Vasco da Gama, fundado em 1924 e renomeado Meneses de Bragança pós 61, passou a ser editado em inglês. "O governo indiano não dava dinheiro se fosse noutra lingua." Maria Julieta Gomes da Costa Andrade mora muito perto, ao fundo da rua. Em 1989, ajudou a fundar o instituto indo-português. Há cinco anos, lançaram cinco centros de ensino de lingua portuguesa. "São cursos muito básicos, de sete meses, para compreender o português. Tivemos 121 alunos em 90/91... Mas temos muita falta de apoios, livros, jornais... O Instituto de Educação de Macau
manda-nos livros, mas são adaptados para eles e não para nós. E nem um dicionário concanim/português temos. Até nos faltam os de inglês/português." Portugal não ajuda? "Todos prometem, vêm e vão, e não mandam nada." E o ensino oficial, como é que está? "Agora de há uns anos para cá há mais escolas com o português como segunda língua. Mas mesmo assim são poucas." As palavras têm um som repetido, de abandono. E manifestações vivas da cultura portuguesa? "A única missa em português de Panjim é aos sábados, às seis da tarde. Tudo o que seja português, eles..." O resto da frase cai no poço dos subentendidos e das inevitabilidades. Um sabor amargo como o que assalta à visão das obras de modernização da Sé Catedral, imensa mesmo em termos das igrejas de Goa, onde o bispo resolveu mandar instalar lâmpadas fluorescentes em cada coluna, cabos de electricidade amarelos por toda a parte. "Estava muito escuro cá dentro, explica um sacritão, em inglês claro está, sem perceber a pergunta. E estava-se à espera de quê? Candelabros? Milagres? Em Santa Inês, o cemitério dos grandes de Panjim, a floresta tropical sepultou anjos e cruzes antigas, espadas e linhagens de pedra. Ler inscrições é uma aventura, entre espinhos e a suspeita de rastejantes bem pouco fantasmagóricos. Os nomes e as despedidas têm um ar de família, surreal entre as palmeiras anãs, eterna saudade, descanse em paz, sua esposa e filhos. O rapaz que veio mostrar o sítio abana a cabeça, que deviam vir limpar isto, é uma vergonha. "De vez em quando limpam, quando vem alguém
importante." Nem toda a gente é, evidentemente, sensível aos símbolos, por mais óbvios. "Nehru veio duas vezes a Goa. Nunca teve tão grande recepção como Mário Soares." O que quer que isso signifique, o goês Aleixo da Costa não acredita que mude alguma coisa. "Tenho muita pena. Que os portugueses tenham saido, que tenha de ser assim. Mas nasci
português e vou morrer português na minha casa. Porque fora dela não me aceitam."

É uma porta pequena, uma sala curta, na penumbra. O vulto grandioso, recorte de gesta nas mãos e nas vestes que flutuam
como num vento furioso — o da História? — faz mais pequeno o lugar. "Camões o génio da pátria pelo mundo em pedaços
repartida". Isto com muitas maiúsculas, para sublinhar o sentimento. No pedestal, o nome do benfeitor, o Diário Popular,
dedicatória declamada, muito à moda da época: Oferta de Portugal da India, da India de Portugal. Data 1960, autor não está lá. Subindo a escada e virando as costas ao naufrago, entra-se no claustro dos vice-reis. Num banco, duas mulheres de sari
descascam melancolicamente tangerinas sob o olhar arguto de três figuras de Estado. Craveiro Lopes, Américo Thomaz e Salazar, muito dignos, espiam do fundo da sala a fileira de governantes, telas engrossadas pelos retoques num ou noutro rasgão, feições empasteladas por mão inábil. Um estudo dos rostos revela-se interessante, ainda que seja fácil perder-lhes a conta, aos senhores de espada e semblante mais ou menos carregado que ao longo de quase cinco séculos sujeitaram esta terra. Há um muito moreno, moreno mesmo de mais para vir de Lisboa. Espanto, ignorância: É Bernardo Peres da Silva, o único vice-rei indiano das cartilhas, ainda que, precisamente, lá não venha. Afinal este senhor, nomeado pela rainha D. Maria e pelo regente D. Pedro IV em 1835, governou apenas dezassete dias, parece que a clique portuguesa", na fina expressão de Carmo Azevedo, não estava para essas liberdades e fraternidades, houve perseguição, revolta, massacres. Tudo esquecido, já ninguém fala destas coisas, excepto gente a soldo da memória, como os membros da associação dos Freedom Fighters, um rés do chão escuro na praça principal de Panjim. V. N. Lawandee, famoso por estas bandas, não fica nada entusiasmado ao ver o seu escritório invadido por uma jornalista portuguesa. Pergunta três vezes a intenção como se fosse surdo, compraz-se em dificuldades. Não pode falar, está muito ocupado, talvez amanhã. Não quer explicar o seu part-pris contra o consulado português e o futuro centro cultural, a natureza da ameaça. Vai assinando papéis que um ajudante lhe enfia na secretária, expressão fechada. Se tem alguma coisa contra os portugueses? Não, até gosta. Portugal também, no seu sítio. Lisboa, uma linda cidade. Mas medo de quê, hoje? "Os seus antepassados mataram, torturaram, massacraram..." Está bem, mas e agora? Os ingleses também colonizaram a India e não é por isso que não falam inglês ou se opõem aos consulados, aos Brittish Councils. Um correlegionário de aspecto mais simpático vem ajudar: "Você não entende. Estava ali, ouvi-a falar, percebi que era portuguesa e senti qualquer coisa aqui (aponta o peito) e quis vir-lhe falar. Entende? Estamos contra o consulado, o regresso dos portugueses não por nós, mas por causa das pessoas que em Goa sonham com o retorno ao passado. Não espero que compreenda isto."
Na sala do museu, o retrato mais pequeno, mais escondido, é o de Vassalo da Silva. Colocado fora do alinhamento, só numa parede, uma foto a negro e branco a que o destino empresta uma aura qualquer. O exame sapiente revela o olhar froxo e a boca sem firmeza de quem em 18 de Dezembro de 61 largou o posto, não ensaiando a morte por Portugal que o presidente do Conselho encomendara. Nem um arremedo disso. Dos fracos não reza a História, diz esta parede triste onde o penduraram, a contrastar com o lugar de honra do odiado Salazar. Nem a India sem Portugal lhe perdoa, quanto mais o Portugal da India.

De vez em quando, as casas solarengas da nobreza de Goa enfeitam as páginas das grandes revistas de decoração ou de viagens, o chic colonial em versão indo-portuguesa, madeiras escuras em arabescos infinitos, retratos de senhores com espada e título, porcelanas chinesas, bambus, veludos surrados, espelhos velados, lustres, mosaicos gastos sem conserto. Aida Meneses de Bragança, da família do jornalista de oposição Luis Meneses de Bragança, acabou de regressar da sua segunda casa. Vai abrindo as portas, com muitas desculpas devido ao estado da casa: "É muito difícil arranjar pessoal doméstico, sou eu que faço tudo, e com o passar dos anos as forças vão-me faltando..." A memória do antepassdo
pró-anexação não lhe traz, aparentemente, quaisquer benesses além de um instituto com o seu nome. Há cinco anos, o governo indiano decidiu expropriar os dois braços da família, o seu e o do primo Bragança Pereira, senhor da outra metade do palácio. Foram-se os arrozais, ficaram os impostos. "Tenho que os pagar, senão põem-me em tribunal." Há coisas para as quais o único remédio é achar graça, na India como noutro sítio qualquer. Sobretudo com uma casa assim, enorme e deserta, com tantos cuidados. Ainda agora gastei uma fortuna no tecto da sala de baile, que estava todo podre. Não havia igual, tive de mandar fazer o mais parecido." Milhares de rupias para cobrir o salão de baixos relevos, os lustres ainda estão no chão para limpar. No quarto ao lado do seu, sobre a cama, a tela de um antepassado levou uns retoques. "Fui eu, estava toda a quebrar-se." Ao lado, um armário bizarro: serviu de transporte ao enxoval da bisavó, num navio de Portugal. Onde o chão de mosaicos partidos à maneira árabe com grinaldas e motivos geométricos se gastou foi preciso atamancar. "Já ninguém fazia este trabalho. Sabe, enquanto os outros acrescentam as casas eu mando a minha abaixo." Melba Gama Pinto, da linhagem dos Pintos que lideraram uma rebelião frustrada contra Portugal, diz o mesmo. À entrada da casa, um banco de pedra faz sorrir Carmo Azevedo, que vai visitar a prima. "Vinhamos aqui nos fins de tarde, conversávamos..." A mulher é desta casa, uma senhora de oitenta anos de porte e olhos verdes espantosos. Vivem em Panjim num pequeno apartamento, perdida a casa dos Azevedos. Melba teve mais sorte. Pequena, muito mexida, vive com o irmão e três cães samoeidos no grande casarão. Mostra as fotos das irmãs desaparecidas, dos pais, uma carta em que doa a casa ao governo após a morte dos donos, com a condição de ser mantida tal qual. Abre as portas do oratório, oblige nas casas antigas, mostra as preciosidades. Uma fivela de prata do cinto de um antepassado, uma caixa de jóias vazia. Pisca o olho: "Estão no banco, aqui não há segurança nenhuma." À saída, oferece uma canjinha.
Nos Colaços, em Ribandar, perto de Panjim, a dona da casa também tem a paixão dos cães. Passam o dia no jardim em frente ao rio, sob as arcadas da varanda que corre o edifício. De manhã, as palmeiras filtram o sol nas janelas, a vida é um
suspiro tranquilo. Mas basta sair a porta da rua para cair no buzinão de uma estrada de poeira vermelha, feita a rasar o solar.
A nossa senhora que no século xix salvou no mar a vida ao juiz antepassado e que hoje guarda a casa do seu altar não lhe valeu nesta aflição. Paciência, como remata Rosa Dias, de Loutulim, outra dona famosa muitas vezes citada graças à mansão de família. Depois da morte da mãe ficou só, ela e um ou outro criado. Como os outros, vive de rendimentos e das recepções que de vez em quando lhes alugam as salas. E da pensão do marido, devido à qual permanece portuguesa. "Tenho de pedir todos os anos permissão para ficar aqui. Mas sinto-me absolutamente goesa, sempre senti." E Portugal? "Tenho muitos amigos portugueses, muitos irmãos a viver lá. Agora fala-se muito de Goa... Fico feliz por terem saudades, claro. Mas vêm mais portugueses agora que quando isto era português. Dantes não ligavam nenhuma, era só para se encherem." Conta a história, já ouvida, de uma "governadora" que andava de casa em casa a pedir "lembranças" para levar para Lisboa, de furtos e manigâncias que também se atribuem aos governantes indianos, de inventários que não se fazem ou perdem misteriosamente. "Isto estava muito abandonado. Por ironia, quem começou a fazer alguma coisa foi o Vassalo e Silva. Se tivessem algum amor pela terra não perdiam isto."

Uma noite, nas Fontainhas, já tarde, o taxista resolve fazer companhia num passeio. Em Panjim a iluminação pública não é uma prioridade, a vida nocturna acaba cedo. Se alguma coisa se mexe, é quase de certeza uma vaca a rondar os caixotes do lixo ou alguém que dorme ao relento. Agnello, nome italiano de cordeiro para um goês católico cujo português ficou pelo caminho, tem vinte e três anos, o liceu e ambições na vida. Fala de um casal de amigos portugueses, arquitectos, que conheceu o ano passado e de como gostaria de os visitar em Portugal, talvez mesmo em permanência. "Os meus pais falam do tempo dos portugueses. Que era melhor, que não havia corrupção, nem roubos, as ruas limpas..." Os tempos mudaram em todo o lado, Agnello, e depois que querias tu que acontecesse? Que os portugueses voltassem? "Eu digo as coisas como as vejo: os hindus que vêm do sul e mudam tudo, sujam tudo. Não têm nada a ver com Goa, com o que Goa era. Vejo o que acontece nos sector público, como eles têm preferência sobre nós em tudo. Tenho amigos hindus, mas na altura de dar um emprego, eles preferem dá-lo a um hindu. Vai-se a uma repartição pública, é preciso untar as mãos a toda a gente, para fazerem aquilo que têm obrigação de fazer. Estão a tomar conta de tudo. You see, talvez a maioria da minha geração não pense assim, mas os velhos goeses sim, queriam os portugueses de volta. Os bons homens portugueses, como o meu pai lhes chama."
Portugueses, portugueses, não há muito mais que um punhado em Goa. De sangue, quer dizer, não em espírito. Mestiços, a que por vezes se dá o nome de descendentes — expressão que aqui quer dizer várias coisas, desde os que descendem dos primeiros casamentos mistos efectuados por Albuquerque ao produto de cruzamento de uma família nobre goesa com uma portuguesa — também há poucos, partiram quase todos em 61. Os nomes portugueses são produto de baptismos de antanho, não certificados de raça. De português resta o sentimento, a língua e a cultura, nem sempre ao mesmo tempo. Wilfred de Sousa, goês, católico, é o ministro de Estado de Goa, correspondente ao primeiro ministro do território. Militante do Partido do Congresso, ex membro do Goa Congress, cujo objectivo seria "defender a cultura goesa" mas que desapareceu por "falta de expressão", é o primeiro católico de lingua portuguesa a ocupar o cargo desde a libertação ou invasão, ou lá como lhe queiram chamar. Diz Walter da Costa, seu amigo pessoal e membro do Instituto Indo-Português, que "ele é todo pela cultura goesa", tendo mesmo sido o principal responsável pela abertura do consulado, contra as "forças reaccionárias para quem o que estava em causa era o regresso de Portugal."
Goesa, vinte e poucos anos, estuda em Lisboa. "Agradecia que não mencionasse o meu nome." Medo de quê? "Porque assim posso falar mais à vontade. Sabe? O que eu sinto é que estamos a ser invadidos. Estamos a perder a nossa identidade. Goa era a pérola do Oriente, agora já não é nad." Porquê? "Não vê? Estamos a perder as casas antigas. Podiamos desenvolver mas não demasiadamente. Estão a transformar isto, que era um lugar único, num pedaço qualquer da India, igual aos outros todos. De cada vez que saio durante uns tempos, volto para uma Goa diferente. Para pior." Suspira. "Tenho pena que os portugueses tenham saido de Goa. Podiamos ter sido independentes mas os portugueses não deviam ter cortado connosco. Claro que os indianos não trataram nada bem os portugueses. Em Goa aprendemos a entrada na India como uma libertação, para os portugueses é uma invasão." Não gosta da India? "Não é isso. Vê-se que a India não tem futuro, mas por outro lado gosto dos valores indianos, hoje em dia temos mais valores que a Europa. E aqui em Goa absorvemos a parte boa da India e de Portugal. O que nós não queremos, quando digo nós digo as pessoas da minha idade, é que os outros indianos venham para cá. Queremos manter a nossa cultura. Porque eu sinto-me goesa, não indiana. Tenho vergonha deles, não sabem comportar-se." Acha que Goa está perdida? "Está perdida ou vai perder-se."

Não sei o nome dele. Está ali, atrás daquela porta, no lugar onde durante séculos se arrecadaram vice-reis a caminho de um túmulo português. Ele não, não é vice-rei nem grande de nada, apenas um espaço de silêncio no regateio da História, um dos três soldados que cairam na escaramuça de 1961, para pagar a obstinação de Salazar, a fuga de Vassalo da Silva, a fome dos impérios. Dizem que a mãe não o quis de volta, que em plena cerimónia oficial se ergueu para lhe recusar voz de herói. "O meu filho é um mártir, deixem-no lá estar, está muito bem onde está." E aqui ficou,atrás do altar da igreja de S. Caetano, o corpo entregue por nós.

No último dia, outra vez Bombaim. O táxi para o aeroporto atravessa a cidade nocturna, uma da manhã nas ruas quase desertas. Nas bermas, nos passeios, junto aos muros dos prédios, tendas improvisadas, corpos ao relento, uns ao lado dos outros a perder de vista, mulheres, homens, crianças amortalhados nos trajes do dia. Quando se abre a janela, o vento sufoca sob estes milhares de corpos, a podridão dos rios, a lama dos bairros de lata. Danação e pestilência, luxúria e santidade, os contrários entrelaçados num sentido único, sem brechas.
A vida a abraçar a morte, tão longe do delírio ocidental das distâncias. É fácil perder os pontos cardeais, aqui. Anil Samarth, historiador indiano que nos últimos anos se tem dedicado ao estudo das relações entre a India e Portugal considera que as duas culturas só se reconheceram nos dois últimos séculos, quando as prioridades comerciais e a dilatação da fé se esvaziaram, dando lugar à ideia de permanência. Certifica aí a grande diferença entre os portugueses e os outros, nomeadamente os ingleses, cujo aproach foi sempre transitório. "Os únicos invasores que ficaram mais tempo que os portugueses foram os muçulmanos, que se fundiram na India, que hoje é o resultado da relação entre a cultura hindu e a muçulmana. E o objectivo último do meu estudo das relações indo-portuguesas é compreender como é que o meu país lidou com as realidades que lhe eram estranhas, o que absorveu e o que pôs de lado. Talvez através da identificação e análise dessas realidades, consiga chegar àquilo que na India é imutável. A sua essência." Sorri: "A existir, claro."
A existir, a essência das coisas pressupõe a demárche inversa. Por exemplo, da India de Portugal ao Portugal da India, Portugal sem India, Portugal só. Ser português. Perder tudo para encontrar o caminho, como na Bíblia se diz ao homem que tem o mundo mas não sabe da alma. Deve ser por isto que se viaja, para regular no coração a impossibilidade, decantar em nada o que se julgou saber. Tentar, porque no fim não faz diferença nenhuma. Como tão bem viu Duarte Barbosa nas suas crónicas de há três séculos, não é por conhecermos as fábulas que deixamos de as querer escrever.
|| f., 16:45 || link || (1) comments |

segunda-feira, janeiro 15

isto hoje não pára? agora é o mário pinto e as suas 'razões'

o mais extraordinário, helena, é que mário pinto acha que alguém que quereria abortar por 'capricho, negócio, feitiço, vinganças, crueldades, tudo', deveria em vez disso ter e criar uma criança. que belo atestado de parentalidade, não há dúvida. isto é que é amor e respeito pela vida.

por outro lado, mário pinto acha que quem queira abortar por 'capricho, negócio, feitiço, vinganças, crueldades, tudo', vai mesmo deixar de abortar porque a lei diz que não pode. isto é que é lógica e razão e bom senso.

a não ser que mário pinto não diga mas pense que quem queira abortar por 'capricho, negócio, feitiço, vinganças, crueldades, tudo' deva abortar em dor, hemorragias e tudo o que mais possa haver de mau, ou, se tiver dinheiro, numa clínica com anestesia por 500 euros, ao lado das outras todas que querem abortar por razões que o mário pinto talvez achasse atendíveis mas que pagam pelas outras que ele imagina que queiram abortar por 'capricho, negócio, feitiço, vinganças, crueldades, tudo'. isto é que é sentido da justiça social e humanismo.

enfim.

(comentário deixado no blasfémias, ao post de helena matos linquado)
|| f., 22:54 || link || (0) comments |

do mal e dos óculos escuros

já que os meus admiradores do blogue do não fizeram o favor de postar três de seguida sobre mim (que fiz eu para merecer tanta atenção, tanto desvelo?), eu, que também tive uma certa educação, embora não jurídica (confesso, sou disso culpada), não quero desmerecer.

e dedico estas palavras que a seguir transcrevo do dn de domingo (sem linque) -- da pena da minha colega e amiga céu neves em entrevista ao reitor do santuário de fátima, monsenhor luciano guerra -- à caríssima e insubstituível mafalda:

'Na via-sacra explicou a diferença entre despenalizar e descriminalizar e até disse que os pais nem sempre aplicavam uma pena aos filhos. É a favor ou contra a penalização?

Sou a favor e não sou a favor. Em princípio, entendo que todo o mal tem uma pena,a começar pela própria família, até para correcção do mal. Mas, às vezes pode haver atenuantes, por exemplo, se houver arrependimento.

Um crente que pratica o aborto não pode ser absolvido?

Quem teve uma fraqueza e se arrepender é objecto da misericórdia divina. Mas a Igreja é bastante dura e o Direito Canónico excomunga essa pessoa. A pessoa faz um aborto em plena consciência de que está a fazer um mal.

As pessoas não o confessam, mas fazem o aborto. A diferença é que [se ganhar o sim a 11 de Fevereiro]deixa de ser clandestino.

Todos os pecadores pecam clandestinamente, mas estar nessa clandestinidade já é uma pena. Mas, se um marido engana a mulher, é diferente ser no estrangeiro ou à sua frente.

É diferente porquê?

Evidentemente que não houve escândalo. Se faz o mal onde não há contágio, tem uma atenuante.

O problema é saber-se?

É menos mau'
|| f., 21:43 || link || (0) comments |

rigoroso exclusivo sick (ou sik?)

entrevista ao 'casal presidencial', anunciou a sic em rodapé. e cumpriu, ó se cumpriu. lá está maria cavaco silva, a monopolizar a conversa, perante as perguntas embevecidas de raquel alexandra (a jornalista) e aníbal (o tal que foi eleito presidente).

disse maria que 'conseguiu' que a levassem ao gate of india ('que se vê aqui da janela do quarto', informou ela) e que foi 'um choque'. logo a seguir, cortaram para outro plano. ficámos sem saber o motivo do choque. embora motivos de choque não faltem.

aqui no dn estamos todos de boca aberta, enquanto o casal presidencial se queixa do picante, em uníssono. o picante às vezes dá a volta à tripa. outras vezes são outras coisas.
|| f., 20:43 || link || (0) comments |

tssss, tssss, tssss

já passaram praticamente duas horas duas e ainda não apareceu aqui nenhuma brigada para me interrogar (e a sede da pj é a cinco minutos). se calhar o melhor é dizer aos meus editores que afinal posso escrever um texto para o dn de amanhã, é capaz de dar tempo.
|| f., 19:08 || link || (1) comments |

era uma vez um crime, uma criminosa, e os cúmplices

não vou aconselhar à mafalda, como a luna fez, que aprenda a ler. too late, i'm afraid. mas posso requisitar-lhe que me denuncie à polícia. parece que sou cúmplice de um crime que na ordem ético-jurídica dos cosmos da mafalda é igual a um homicídio a sangue frio (e premeditado, ainda por cima). faça-me esse favor, mafalda: seja coerente uma vez na vida. a não ser que queira também ser cúmplice. aliás, parece que a pj aceita cartas anónimas -- para o caso de lhe faltar a coragem e querer pôr os óculos escuros.
|| f., 17:01 || link || (0) comments |

e ao cardeal dizem nada

na sexta, no contra os canhões do dn, publiquei o texto que a seguir se transcreve. três dias depois, a minha caixa de correio do dn e a blogosfera -- habitualmente tão reactivas quando o tema é o aborto e as posições da hierarquia católica -- mantêm um quase sepulcral silêncio sobre a matéria. nem na guarda avançada anti-câncio, uns certos blogues que parecem não ter outro assunto (que pasmada vida tereis, senhorias, digo eu, para tanto se ocuparem desta humilde criatura) se deu conta da minha análise à posição do policarpo, posição à qual hoje joana amaral dias também faz referência.

o motivo é óbvio: josé policarpo causou grande consternação nas hostes do não. a sua mensagem (a primeira de cinco anunciadas, a segunda das quais se esperava para ontem e não apareceu no site do patriarcado -- e porquê?) mostra a profunda divisão da própria hierarquia da igreja católica. as dúvidas de policarpo, a sua preocupação com o aborto clandestino e portanto com os valores da vida real -- e não apenas da vida com v grande, abstracta e ideológica, que é a única coisa que parece ralar uma parte, a mais virulenta, dos apologistas do não -- honra-o e mostra que é acima de tudo um humanista. policarpo não podia, sendo quem é e representando o que representa, dizer mais do que disse. o dilema moral que tão bem expõe no seu texto, pleno de contradições e com algumas passagens duvidosas (que indicação é aquela à polícia judiciária de que fala? quem a deu? e, a existir, como é que cardeal sabe dela?) é mais do que suficiente para revelar o que ele realmente pensa. voltarei a este assunto.



O cardeal do dia seguinte

José Policarpo é um homem surpreendente. Há mês e meio, dizia que a Igreja Católica (IC) não se devia envolver "activamente"na campanha do referendo e que quem tivesse dúvidas devia abster-se. Agora, decidiu escrever um texto por semana sobre o assunto. O primeiro, datado de 7 de Janeiro, faz revelações extraordinárias, entre as quais se conta o facto de o cardeal-patriarca considerar que a alteração proposta no referendo não se justifica porque "o cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez" diminuiu "a realidade do aborto de vão de escada"e trouxe "a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência".

Valerá a pena dissecar tais afirmações. É sabido que o catecismo católico rejeita a generalidade dos métodos anticonceptivos, incluindo o preservativo, considera a pílula do dia seguinte um horror e é contra todas as formas de aborto, químicas ou cirúrgicas - o anterior papa comparou-as ao Holocausto, o actual ao terrorismo. O que Policarpo está a enumerar são portanto - só podem ser - para si barbaridades, a pior das quais decerto "a solução química para a interrupção da gravidez".

Seja tal solução química traduzida como a pílula do dia seguinte (sempre mencionada pela IC como "abortiva") ou o misoprostol, remédio para o estômago cuja utilização caseira tem tido consequências crescentemente visíveis nas urgências dos hospitais e nos tribunais (dois dos casos mais mediatizados de acusações de aborto foram relativos ao seu uso por adolescentes "apanhadas" por via de hemorragias que as teriam matado se não fossem socorridas), não se percebe como pode o cardeal usá-la como justificação sem incorrer em insanável contradição, muito menos invocá-la para alegar que "diminuiu o aborto de vão de escada".

Por fim, que "decisão de abortar" pode ser trazida "para o campo da liberdade pessoal", quando a lei que existe a criminaliza? Será a liberdade de cometer um crime no quarto dos fundos, de abortar e sofrer as consequências? Estranha noção de liberdade, estranha forma de caridade. De tal forma estranhas que se diria estar José Policarpo a alinhar argumentos 'a contrario', como quem expõe as suas dúvidas. Ou antecipa o dia seguinte.
|| f., 16:40 || link || (0) comments |

alerta

está a dar um filme na sic com o jeff bridges. em calções.
|| f., 01:02 || link || (0) comments |

justamente

hoje pareceu-me ver um blogger no ginásio. estava de calções, a correr na passadeira. parecia-me ele, mas estava suficientemente longe para eu não não ter a certeza. podia ser alguém parecido, e além disso há qualquer coisa de estranho em encontrar uma pessoa que vimos sempre completamente vestida e em ambiente profissional noutro sítio e de calções. é como se descobrissemos um segredo ou uma intimidade qualquer. será que a pessoa quer falar connosco ali? será que quer ser vista de calções? que saibamos se tem muitos ou poucos pêlos nas pernas, se os joelhos são tortos, se se nota a barriga sob a t shirt, se está a suar, se tem bícepes decentes, enfim.

por estas razões todas não me aproximei o suficiente para confirmar se era ele, fui para outra zona e quando voltei a passar mais perto da passadeira ele já lá não estava.

à saída, mandei-lhe uma mensagem. eras tu, na passadeira? ele respondeu que era, que tinha percebido que eu não lhe queria falar e compreendia. e depois acrescentou: estavas de calças justas.
|| f., 00:42 || link || (0) comments |

domingo, janeiro 14

das boas pessoas

jantei com uma amiga esta semana. quando já iamos a caminho de um táxi, ela lembrou-se de me dizer, sem sequer eu ter introduzido o assunto, que não votaria a 11 de fevereiro. 'porque não concordo', disse ela.

em 98, ela não votou. estivemos na noite anterior a discutir isso. a minha amiga é católica. a minha amiga abortou, não sei se uma se duas vezes. diz que se arrepende de ter abortado. percebo isso -- percebo bem de arrependimentos. contou-me que um dos abortos -- ou o único? -- foi feito numa mesa de cozinha com uma bomba de bicicleta. só retive isso: uma mesa de cozinha e uma bomba de bicicleta. que foi horrível. que ela era muito nova.

desde 98, falámos pouco ou nada disso. excepto uma vez, quando me ligou a dizer que uma empregada dela tinha ficado grávida de um anormal e que era preciso um número de telefone. eu tinha o número de telefone, mas além do número de telefone era preciso acompanhar a miúda. acompanhei a miúda ao quarto dos fundos sem anestesia para o 'desmancho' às 9 semanas (já contei essa história aqui). a minha amiga deu-me o rolo de notas de 400 euros e ficou no carro, de óculos escuros, à espera.

a minha amiga é boa pessoa: só as boas pessoas, que se ralam com os outros, dão 400 euros do seu bolso para resolver o problema de uma empregada de 18 anos aterrorizada com uma gravidez não desejada. só as boas pessoas agradecem como ela me agradeceu. só as boas pessoas admitem, como ela admitiu enquanto procurávamos um táxi, que se uma filha sua engravidasse ela talvez a ajudasse a abortar. 'não sei', disse ela.

tantas boas pessoas que há como a minha amiga. tantas, tantas. temo que 11 de fevereiro prove que são a maioria.
|| f., 14:39 || link || (6) comments |

50 dias

às vezes vens sem avisar. quando olho para o teu lugar vazio, ao fundo, na diagonal do meu olhar. quando te encontro na avenida, a rapariga de óculos escuros e ipod. quando me lembro de ti sem me lembrar primeiro. quando passo pelo teu nome na lista do telefone. quando penso num certo táxi em madrid e na noite em branco antes da boda do felipe e no primeiro beijo dos princípes na varanda do palácio e no understatement irónico do teu sorriso. quando te vejo em atocha, recortada no nome dos mortos, a morder as lágrimas. quando me lembro de nós na final do euro 2004, a claque de duas na bancada a fazer concorrência aos gregos.

quando a intérprete pergunta onde estás

e faço as contas ao que sobrevivemos e ao que vamos sobreviver
|| f., 03:27 || link || (0) comments |

"Em busca do autobronzeador ideal"

É este o assunto da prosa que deu origem a uma carta de um leitor ao provedor do Público. É este o assunto da prosa (Em busca do autobronzeador ideal) que levou o provedor do Público a interpelar a jornalista que a assinou. É este o assunto (Em busca do autobronzeador ideal) que levou a jornalista a responder ao provedor do Público. É este o assunto da prosa (Em busca do autobronzeador ideal) que levou o provedor do Publico a acusar a jornalista de “plágio”. É este o assunto (Em busca do autobronzeador ideal) que levou o director do Público a publicar no jornal uma nota garantindo que o caso será averiguado. É este o assunto (Em busca do autobronzeador ideal) que levou o director do Público a fazer um blogue cujo título (Uma forma de plágio) já tem inscrito a condenação da jornalista.

E é isto que o excita no escrutínio jornalístico.

PS 1: Declaração de interesses: fui jornalista do Público desde finais de 96 até meados de 2006. Nada me liga nem ao seu director, nem à jornalista e nem ao provedor. Sei quem são, apenas.´

PS 2. É bem possível que volte ao assunto.
|| JPH, 03:22 || link || (0) comments |

sexta-feira, janeiro 12

mais sobre the hard hardy

"Even as a novelist, then, Hardy was a poet, using image and metaphor to unify stories that he knew were deformed by pressure to get a sensational twist into each installment of the serial. So it makes sense that, after writing “Tess” and “Jude,” he would turn, or return, to verse. Those novels contained as much of his view of life as he could put into prose; to go any further into his dark places, he recognized, would mean leaving the novel-reading public behind.

Indeed, Hardy could not have written a novel as reckless of taboos, as defiantly uningratiating, as “Jude the Obscure” if he had not already begun to bid farewell, inwardly, to his novelist’s career. For more than twenty years, he had dutifully neutered his novels at the behest of editors like the Reverend Dr. Donald Macleod, who published “The Trumpet-Major” in Good Words, but only after warning Hardy to avoid “anything—direct or indirect—which a healthy Parson like myself would not care to read to his bairns at the fireside.” Even a sophisticated man of letters like Leslie Stephen, the editor of The Cornhill Magazine, criticized Hardy for allowing his heroines to get involved with scoundrels. When Hardy pointed out that in fact women often do marry the wrong man, Stephen replied, “Not in magazines.”

In “Jude,” Hardy attacked this kind of repression and evasion with the fictional equivalent of a sledgehammer. Indeed, as Tomalin writes, “Reading Jude is like being hit in the face over and over again,” as we witness the slow death of each of Jude Fawley’s hopes and ideals. He studies hard for years, hoping to overcome poverty and work his way into Christminster, the novel’s version of Oxford, but he is casually rejected. He loses his rigid self-control only once, when he gives in to the village seductress Arabella, but this minor slip dooms him to marry a woman he has already begun to loathe. When Arabella leaves for Australia, Jude is free to pursue Sue Bridehead, his cousin and soul mate. But they harbor neuroses about sex and marriage too powerful to overcome, and their experiment in free love ends in horror. At every turn, the institutions of Victorian society—marriage, family, church, university—thwart human happiness, as if they had been designed by a misanthropic god.

It is no wonder that the Church of England’s newspaper called the book “a shameful nightmare, which one only wishes to forget as quickly and as completely as possible”; or that the public, inflamed by the scandal, made it a best-seller. For the cautious and private Hardy, notoriety of the kind that would have delighted Zola or Shaw was agonizing. He could see the funny side when an outraged Australian reader burned a copy of “Jude” and mailed him the ashes. But he was genuinely pained, Tomalin writes, to notice that “some of his acquaintances turned away rather than speak to him.” In 1896, a year after “Jude” was published, he noted, “Perhaps I can express more fully in verse ideas and emotions which run counter to the inert crystallized opinion—hard as a rock—which the vast body of men have vested interests in supporting. . . . If Galileo had said in verse that the world moved, the Inquisition might have let him alone.”
"

(excerto do texto da new yorker cujo linque deixei ali em baixo )
|| f., 18:48 || link || (3) comments |

canhões 2

Ficheiros secretos

Apareceu um novo desporto nacional. Chama-se, e desculpem o francês, “dar porrada na Ana Gomes”. A ideia é dar a entender que a eurodeputada “sonha” com voos da CIA que transportam prisioneiros ilegamente com escala em vários países europeus, incluindo Portugal. Então desde que alegou a existência de testemunhos oculares nos Açores sobre a transferência de ”pessoas agrilhoadas” foi o descalabro. Houve de tudo, incluindo referências à série de TV_sobre detectives que investigam fenómenos paranormais e ao seu mote “the truth is out there” (em tradução muito livre, “eles andem aí”). Há até quem chegue ao ponto de dizer que Ana Gomes tem razão no que diz e exige saber mas que a maneira como o faz é “errada” e “contraproducente”, quiçá anti-patriótica. Isto para justificar o modo como vários dirigentes do PS têm lidado com a questão – desconsiderando-a e desconsiderando quem a suscita. É bonito. E, sobretudo, faz pensar sobre quem é que realmente anda numa de ficheiros secretos.

(texto publicado no contra os canhões de hoje no dn e sem linque para não variar -- já viram como me repito? eu e o site do dn)
|| f., 18:40 || link || (0) comments |

canhões 1

Deus nos valha mesmo

Já que a laicidade constitucionalmente proclamada do Estado é uma graça, quem pode surpreender-se com o facto de o director-geral dos impostos mandar rezar uma missa de acção de graças e convocar os seus funcionários para a mesma? Ninguém, e muito menos o ministro da tutela, que invoca tradição semelhante na Direcção Geral de Alfândegas. Já que está com a mão na massa (literalmente) Teixeira dos Santos podia decretar que os euros passassem a dizer, como os dólares, “confiamos em Deus”. E mandar ele próprio rezar umas missas contra o défice. Não vá o diabo tecê-las.


(texto publicado no contra os canhões de hoje, no dn, e sem linque -- para não variar)
|| f., 18:38 || link || (0) comments |

outras coisas que apreciei deveras

'afonso costa do século xxi' também não está mal. que seria do meu amor próprio sem tanta adoração pública?
|| f., 16:54 || link || (0) comments |

sim, é tudo meu

há uma daquelas coisas que passa por piropo e que reza assim: 'isso é tudo teu?'. uma espécie de pergunta retórica ao alcance de qualquer camionista, que sabe-se lá porquê (ai a mente humana é um prodígio) me alembrou quando li, numa caixa de comentários do blasfémias, que eu tenho como agenda 'acabar com a instituição FAMÍLIA'. deve haver algum engano: eu por enquanto só queria acabar com as maiúsculas.
|| f., 16:48 || link || (0) comments |