Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quinta-feira, novembro 30

eu e o papa

afinal, parece que entre mim e bento xvi há uma ou duas coisas em comum, para além do dna humano. eu também digo: não tenham medo.

não tenham medo das trevas nem daqueles que querem pensar por vós. não tenham medo de decidir pelas vossas cabeças. não tenham medo da mentira nem das ameaças do terror. não tenham medo da verdade. não tenham medo de ser livres. não tenham medo do medo.
|| f., 13:33 || link || (0) comments |

Avante!... A verdade a que temos direito

O título do dia está no Avante!, que tem como antetítulo:

Freguesias do Seixal contestam Lei das Finanças Locais:

“Fazemos com um tostão o que muitos não fazem com um milhão”
|| Nuno Simas, 13:04 || link || (0) comments |

tapetes de arraiolos

caríssimo vlx (do mar salgado), vai-me desculpar, mas essa recusa em admitir que o que está em causa no referendo tem obviamente a ver com a lei que já existe (não sei se já reparou mas está em causa acrescentar uma alínea à lei, não fazer outra diferente) é um bocadinho, como dizer?, infantil.

quer isto dizer, obviamente, que é importante compreender qual o espírito e o fundamento da lei vigente para discutir a alteração.

quanto ao seu notável desconhecimento sobre tudo o que diz respeito à matéria, nomeadamente sobre o tipo de abortos legais que se levam a cabo nos hospitais portugueses e como, confundindo números de abortos voluntários legais com os de abortos espontâneos e considerando que abortos de causa fetal não são abortos de fetos vivos, viáveis (e humanos, já agora), pois não sei que lhe diga, a não ser que tente informar-se -- a não ser que a sua ideia seja desinformar com a maior honestidade possível, ou seja, com base na sua própria e teimosa ignorância.

e depois, claro, há a questão fundamental para si e para todos os defensores do não. que, como muito bem disse odete santos ontem num debate com isilda pegado, partem para esta discussão, homens e mulheres, com uma ideia de base: as mulheres não têm capacidade para decidir. e deixadas decidir, decidem mal. por isso, acham, têm de as obrigar a decidir bem, no caso, ameaçando-as com prisão, julgamentos, multas, vergonha pública, trabalho a favor da comunidade e, não esquecer, as consequências de abortos feitos em parcas ou nenhumas condições de segurança.

trata-se, pois, de as obrigar a cumprir a sua função -- dizia isilda pegado, da 'federação pela vida', com notável quão enganadora candura: nenhuma mulher escolhe abortar se lhe forem dadas as condições para ter o filho.

para isilda pegado, 'dar condições' a uma mulher para ter um filho será, presumo, ensiná-la a bordar tapetes de arraiolos lá naquelas instituições de caridade a que pegado chama 'as nossas instituições', dar-lhes um tecto, farinhas lácteas, e, presumo, apoio afectivo e alguma formação profissional.

é destas 'condições' que falam, quando falam estas associações. não estão pois em condições de compreender que decidir, em consciência e responsabilidade, ter um filho é um pouco mais que isso.

como me parece impossível explicar a vlx que quando escreve, em resposta a um comentário, isto -- 'quem lhe garante a si que, numa situação concreta, a mulher que decide abortar se encontra numa circunstância traumática e dolorosa e não é antes, muito simplesmente, uma pessoa totalmente irresponsável e inconsciente? Pois é...' -- o que está a dizer é que não só não reconhece às mulheres capacidade racional e de auto-determinação (já sabíamos) como considera que, se uma mulher for, como ele diz, 'uma pessoa totalmente irresponsável e inconsciente' (o que do ponto de vista de vlx, é um pouco pleonástico), a melhor coisa que lhe ocorre é obrigá-la a ter, irresponsável e inconscientemente, um filho, para o criar irresponsável e inconscientemente. eis uma posição decerto muito consciente e responsável e, já agora, caridosa, do caríssimo vlx.


(não coloco links porque o mac não deixa, não porque esteja a pagar a vlx da mesma moeda. a minha maldade de mulherzinha inconsciente e irresponsável exprime-se de outras formas, e além disso gosto do mar salgado, tem lá pessoas selvaticamente admiráveis)
|| f., 12:45 || link || (0) comments |

NIMBY...

significa Tirem-me Os DrÓgados da Porta...
|| JPH, 11:31 || link || (0) comments |

quarta-feira, novembro 29

Para a série macacos eróticos (1)

Este é o Joe Lando, isto é, o Sully, o bom semi-selvagem da Dra. Quinn, que é a melhor telenovela que anda por aí e dá todas as noites à meia-noite e meia no People and Arts. Passa-se numa vilória do Colorado há século e meio atrás, os índios são bons, alguns cow-boys são maus mas têm bom fundo, o Sully é bueníssimo, a Dra. Quinn é óptima e lindíssima (a Jane Seymour). O mundo perfeito é bom antes de dormir.
|| asl, 18:18 || link || (0) comments |

Encantados

pelo prémio do selvático FNV, o melhor dos bloggers (ao lado do Luís M. Jorge, do Pedro Mexia, do Pedro Lomba , quando está, e do João Pinto e Castro).
|| asl, 16:57 || link || (0) comments |

atónita

gostei particularmente de atonement, de ian mcewan. gostei ainda mais porque o li em itália (esperem aí, isto tem uma razão, não é só para me fazer viajada)e porque uma réplica da fonte dos tritões, em roma, é central no livro e dei comigo a ficar num hotel na via dei trittoni, ao lado da fonte, depois de ter acabado de ler o livro na sicília.

para além da coincidência, atonement é um livro de uma deslumbrante crueldade emocional, soberbamente escrito.

começa-me a chatear esta cena da caça ao plágio.
|| f., 16:47 || link || (0) comments |

de anónimo para anónimo

o vlx do mar salgado acha que eu sou um homem anónimo. parece que depois afinal descobriu que quando se clica no f. se descobrem novos mundos. fico feliz por ter, ao menos nisso, servido para o esclarecer em alguma coisa.

de resto, lamento ter de dizer-lhe, ou melhor, de lhe repetir, que segundo a legislação em vigor -- aconselho consulta -- basta um atestado médico para se abortar por violação e por risco para a saúde psíquica e física da mulher. para abortar por malformação é necessário o equivalente disso em versão colegial, ou seja, a opinião favorável de uma comissão criada nos hospitais para avaliar esse tipo de pedidos (os que dizem respeito aos chamdos 'problemas do feto').

e é preciso, claro, que a mulher em causa NÃO QUEIRA ter o bebé. que o rejeite.

o número de abortos legais, que anda nos mil e tal em 2005, é esmagadoramente constituído por abortos por causa fetal. os tais que acontecem geralmente a partir das 16 semanas até às 24, após exames como a amniocentese terem permitido diagnosticar os tais problemas. se dividir o número pelos dias do ano, concluirá facilmente que se faz mais de um aborto desses por dia.

naturalmente, caro vlx, não vou sequer elaborar sobre isso a que dá o nome de 'abortar porque apetece'. a grosseria da ideia é tal que não me apetece colocar-me a esse nível.

adenda:
só para sua reflexão, caso seja possível, aconselho-o a pensar por que motivo considera excepcionalmente justificada a interrupção de uma gravidez de um feto com trissomia 21 (mongolóide), ou anão, ou hemofílico (três causas aceites em vários hospitais/comissões como de aborto legal). se lhe apetecer, claro
|| f., 15:45 || link || (0) comments |

soprano talk, 2

é depois da primeira traição, no entanto, que começam as coisas sérias. ou a sério. se se sobreviver, claro. mas isso é outra história.
|| f., 15:05 || link || (0) comments |

A "Caixa" (III)

Não é de hoje nem de ontem, é de todos os tempos: o populismo alimenta-se da inveja social. Nesta discussão sobre o encerramento da Caixa de Previdência dos Jornalistas a coisa é mais do que óbvia no argumentário de todos os não-jornalistas a favor do dito encerramento.

O argumento funciona assim: "Eh, eh, eh, que bom, agora os jornalistas vão ficar tão mal como nós". O interesse geral ganha? Os "privilégios" serão redistribuidos? Não interessa. O que interessa é nivelar tudo. Por baixo, de preferência, à boa maneira soviética. Abençoado o Governo que tem eleitores destes no bolso.
|| JPH, 12:34 || link || (0) comments |

soprano talk

tony mata pussy. 'amava-te como a um irmão'

michael abraça fredo, beija-o na boca. 'u broke my heart. u broke my heart'

qualquer coisa de admirável, mortalmente admirável, nesta impossibilidade de perdoar uma traição. uma espécie suprema de lealdade própria: perdoar-te é trair-me.
|| f., 00:18 || link || (0) comments |

terça-feira, novembro 28

Enfim, lá percebeu, mais vale tarde...

"Por mais que isso custe à boa consciência ocidental, a ideia de um franchise do modelo democrático no mundo islâmico esbarra com a realidade, como esbarrou o ‘internacionalismo proletário’ nas suas inóspitas experiências africanas e, aliás, fosse onde fosse."
Paulo Portas, no Sol, edição de 25 de Novembro 2006

Mas, como é costume na pandilha nacional-bushista, Paulo Portas quer fazer-nos passar por parvos, como se ninguém se lembrasse de que defendia exactamente o contrário quando os EUA invadiram o Iraque em nome da "democracia". Mais um caso de amnésia selectiva.
|| JPH, 16:33 || link || (0) comments |

segunda-feira, novembro 27

A "Caixa" (II)

Como todos os assalariados médios, desconto directamente 31 por cento do meu vencimento para o Estado (20% de IRS + 11% para a Segurança Social). Depois da Caixa de Previdência dos Jornalistas fechar continuarei a descontar o mesmo. Em troca receberei um serviço pior do que recebo. Se quiserem nem me importo de não receber nada. Em troca exigo pagar menos (ao Estado, claro). Quer dizer: caminho rapidamente para os braços de quem me quer dar o direito de escolher entre sistemas públicos, sistemas privados ou sistemas mistos. Repito: o direito de escolher.
|| JPH, 18:23 || link || (0) comments |

Santana “popstar”

No sábado fui ao Corte Inglês, levado pela notícia da chegada de uns livros de Pérez-Reverte. Um engano, um engano!
Bom, e eis senão quando, pelo sistema sonoro, anunciam o grande evento: “Hoje à tarde, venha conhecer Pedro Santana Lopes”. Qual estrela de telenovela!
Nem mais!
E depois era anunciada a sessão de autógrafos do “Pedro” - “venha autografar o seu livro”.
Pelas televisões vi que até se formou uma fila de pessoas para Santana pôr a sua assinatura. Santana está para ficar e até “ameaça” escrever outro! “Tenho material para outro livro”, disse o autor e o 24Horas deu-lhe título na edição de domingo.
|| Nuno Simas, 18:16 || link || (0) comments |

Um post pouco natalício

Lá vem outra vez o Natal!
Aquelas músicas irritantes cheias de guizinhos de imaginárias renas daquele não menos imaginário velhote de barbas brancas...
O “Gingle Bells”, "Silent Night", "White Christmas", o coro de Santo Amaro de Oeiras… E tudo para nos levarem uns euros em prendas de Natal.
Que enjoo!!
|| Nuno Simas, 18:06 || link || (0) comments |

O tempo dos ratos

"Mas sei o que é o 'realismo' tradicional americano dos últimos anos: lidar com ditadores, apoiar ditadores, comprar ditadores e depois acordar com o 11 de Setembro em casa."
João Pereira Coutinho, ontem (26 de Novembro), no DN

Ou, por outras palavras: os americanos deitaram-se na cama que fizeram. Se bem me lembro, quem dissesse uma coisa destas no pós 11 de Setembro era logo acusado, no mínimo, de ser "amigo dos terroristas", um Bin Laden infiltrado na permeável sociedade ocidental, uma porcaria de pessoa, um nojo, um vómito, etc, etc, etc. E quem acusava era gente da laia deste Pereira Coutinho. Que hoje diz o que diz. O tempo é dos ratos.

No ratos pontifica, em lugar de destaque, um senhor que dá pelo nome de João Carlos Espada. Ontem, também no DN, disse (não há link): "As ameaças que enfrentamos requerem acordos de fundo, não frivolidades ideológicas." "Acordos de fundo"? Agora? Por onde andava o sr. Espada quando, por causa do Iraque, uns "amigos dos terroristas", como eu, falavam precisamente na necessidade desses "acordos de fundo", sublinhavam a necessidade de não se ignorar a ONU, denunciavam o erro que os EUA cometeriam avançando unilateralmente, sem legitimidade internacional nem apoio de (quase) ninguém? Aos ratos é perda de tempo oferecer memória. Dizem que é do queijo mas não me parece. É da coluna vertebral.
|| JPH, 14:15 || link || (0) comments |

Lembrar a Zé

Nestas coisas não sou bom em palavras. Peço emprestadas as dos outros.

“(…) o que um jornalista faz - se for a sério, e a Zé era - é decifrar vidas. Não há mais nada. E faltavam muitas, demasiadas”.
|| Nuno Simas, 12:37 || link || (0) comments |

A "Caixa"

Quanto ao encerramento da Caixa de Previdência dos Jornalistas, devo confessar: não sei o que pensar. Não tenho uma ideia fechada. Não digo nem sim nem sopas. Posso ser contra ou ser a favor. Mas por enquanto não sei. E há razões para isso.

(Mas antes disso um lamento. Um lamento à pobreza do discurso dos que têm defendido o fim da Caixa. De tudo o que tenho lido, pouco mais vejo do que a reprodução acéfala da propaganda governamental anti-"privilégios". Alguém - o Governo, claro - carregou nessa tecla e vai daí debitou-se automaticamente um discurso sequestrado ideologicamente pelo populismo mais básico. Um discurso fácil e que se faz independentemente de qualquer ponderação séria de custos e benefícios. Aliás faz-se precisamente porque ninguém tem ideia nenhuma sobre essa parte do assunto. A ignorância é o pasto onde o populismo engorda e este caso tem sido exemplar nisso.)

É justamente porque ninguém pôs números em cima da mesa que não sei se a medida é louvável ou não. O Governo até agora não o fez. E, sendo assim, fico sem saber: o interesse geral ganha ou perde com a extinção da Caixa? O Estado poupa ou não? Está-se de facto perante uma situação de "privilégio" que sobrecarrega os utentes do SNS ou não? E extinguindo a Caixa, que custos terá isso para o SNS (mais utentes, logo mais custos)? Compensa? Não sei. Cheira-me que quando souber será demasiado tarde.
|| JPH, 11:45 || link || (0) comments |

um amor de bond

devia ter ido ver o prairie home companion, o último do altman. em vez disso, o casino royale. uma coisa estuporada, pensei. já me tinham avisado que era um bond diferente dos outros, não só pelo craig mas porque, incrível dos incríveis, o mortal agente secreto se apaixonava. ri-me e respondi 'sim, ainda havemos de o ver com uma ranchada de filhos e em casa a tomar conta deles'.

claro que 70 a 80% do filme é o costume. porrada, corridas, carros pelo ar, um terrorista negro todo queimado que parece o homem aranha a saltar de guindaste em guindaste, gajas boas com sotaques exóticos a cair das árvores, armas com silenciadores daqui até à china, paisagens 'paradisíacas' e 'cosmopolitas' e 'sofisticadas', das bahamas a veneza, iates e hoteis de trezentas estrelas, gadgets qb (menos do que é costume), um mau que chora sangue (têm sempre umas peculiaridades físicas disparatadas) e um jogo de poker que nunca mais acaba e que para quem como eu não percebe da poda é uma seca e peras.

mas, hélas, tem mesmo uma história de amor. e sendo suposto ser o 'primeiro' episódio da saga (tipo star wars, só conhecemos o início ao fim de vinte anos de sequelas), oferta-nos a 'explicação' para o coração de pedra com que o sr james desliza de lençois de cetim em lençois de cetim e de busto farto em busto farto, sempre de copo de martini na mão e sem um arranhão sentimental. é que ele, coitadinho, apaixonou-se por uma mulher que o enganou (mais ou menos) e morreu. ele não ama ninguém porque ama aquela, pronto. é, como se costuma dizer, 'fiel à sua maneira'.

gosto,claro, desta ideia romântica de que as pessoas que não conseguem amar afinal têm é um grande amor infeliz e secreto para expiar. e que em cada corpo novo, cada paixão instantânea, querem desesperadamente lavar -- ou renovar? -- a lembrança do que não esquecem.

mas eu, por acaso, tenho outra teoria. há pessoas que não sabem amar. nem sabem o que é.

o amor é um pouco como a fé. ou se tem ou não se tem. não o amor e a fé, mas a capacidade ou a possibilidade de lhes aceder, de ser por eles 'transfigurados'.

tirando isso, gosto daquela cara de filho da puta do daniel craig e de alguns diálogos. de quando ele diz: 'everybody has a give away sign. except you. that's why i love you'. ama-a porque não consegue lê-la -- e daí em diante, depois de a perder, não se cansará de gente óbvia.

gira, esta ideia de tentar injectar alma no bond. não estou certa de que mereça a pena, mas o resultado é desconcertante.
|| f., 01:03 || link || (0) comments |

domingo, novembro 26

nada para perceber

não sei o que faz as empatias, esse reconhecimento imediato, como de outra vida, de alguém que nunca vimos e de quem nada sabemos. quando entrei no dn, em 2004, conhecia pouca gente. havia uma massa de rostos a perder de vista, poucas referências, aquela sensação algo paranóica que nos assalta nos primeiros dias num lugar novo, de que todos falam de nós mas não connosco.

lembro-me de que reparei nela. não me lembro do que me fez reparar nela, mas quando a conheci melhor percebi que tinha acertado. a zé era direita e leal, de uma inteligência larga, sem a compartimentação esconsa que muitos jornalistas do dia desenvolvem por defesa e preguiça. gostava de joy division e cure e de bandas negras e de boa literatura. tinha um sentido de humor acerado que exercitava no messenger com a rute, a suzete, a ângela e comigo (e mais gente que eu não sei). escrevia em blogues que escondia e dos quais pedia segredo.

quando a sophia morreu, foi a ela que mandei uma sms sobre a vez em que, para uma entrevista, visitei a casa e o jardim onde a sophia vivia e fumava os seus cigarros fininhos e tossia, tossia, cigarro após cigarro, e me disse 'nunca se percebe nada, não há nada para perceber'.

sophia, que vivia perto da casa da zé, falava das biografias e do esbulho das cartas, dos papéis, dos 'testemunhos' dos amigos e inimigos, do que fica depois.

a zé morreu, não há nada para perceber. só a falta, e a dor, e esta sensação de que, como escreveu tereza coelho quando morreu al berto, todas as ruas estão vazias.
|| f., 15:51 || link || (0) comments |

sexta-feira, novembro 24

Ricos e mal agradecidos

Os judeus norte-americanos.
|| JPH, 21:02 || link || (0) comments |

o glória fácil feito pelos seus leitores (sim, é plágio do jpp)

a teresa mandou-nos isto:

'Tenho seguido com mais ou menos atenção o debate sobre o aborto. Não quero entrar em discussões éticas – onde começa e acaba a vida, etc, etc, etc. – limito-me a acreditar e a defender que a actual situação é insustentável e a lei tem de ser alterada. Certo ou errado? Não sei, é quase tão abstracto para mim como geometria no espaço. Há anos atrás, na faculdade, e para ilustrar que o valor da vida era imensurável, Figueiredo Dias, meu professor de Direito Penal, dava o exemplo do comboio desgovernado e do agulheiro angustiado – mandava o comboio para a linha onde matava uma pessoa ou para a linha onde matava várias? Eticamente não há resposta.

 
Há onze anos atrás engravidei. Ponderei fazer um aborto. Achei que não conseguia e assumi a gravidez sozinha. Nasceu a Clara. Trissomia 21 diagnosticada à nascença, apesar de ter sido uma gravidez seguida como de risco. Azar? Não. É a Clara. Ponto final parágrafo. Não consigo, como é óbvio, imaginar o mundo sem ela.

 
Dois anos depois voltei a engravidar. O mesmo pai, a mesma vida sem futuro como família. Fiz amniocentese às doze semanas. Antes do exame tratei de ter dos médicos um compromisso de que me fariam um aborto, sem funfuns nem gaitinhas, se fossem detectadas mal formações no feto. Não era a trissomia que me assustava – era o horror dos dias e noites no hospital, com a minha criança em perigo de vida. Era o vomitar tripas e coração sem saber se daí a minutos ela estaria morta. Tinha sido um processo demasiado doloroso, não aguentava, fisicamente, um segundo.

 
Fiz a amniocentese e fui apanhada na curva. Pela primeira vez, numa ecografia, consegui ver o feto. Melhor, vi uma mão. Perfeitamente delineada, de dedos abertos. Naquele momento deixou de haver ética, crenças, decisões racionais. Como é que iria ser capaz de fazer um aborto? Uma mão? Gaijinha danada, ainda não tinha nascido e já me trocava as voltas. E se me dissessem que os cromossomas se tinham andado a divertir sozinhos e estavam todos malucos? O que iria fazer com aquela mão ali, a olhar para mim? Abreviando, estava tudo bem e a Xica nasceu. Mas que me fez dançar na corda bamba, isso fez.. Discutir a seco decisões deste tipo? Deixei-me disso desde aí.

Onde quero chegar? Nem eu sei. Talvez a lado nenhum. Talvez a algum lado onde nos deixemos de armar em deuses e aprendamos a ser homens.'

e isto:

'Sabe, vivi 32 anos a brincar com a vida - era eu
que dizia aos meus amigos que se tivesse uma criancinha burra a punha à
porta de casa - e hoje sou eu quem faz as piadas. Não quero descrever
como de um momento para o outro se tem de reaprender a viver mas digo, do
fundo do coração - se consigo se pode falar assim - que se nasce uma criança
como a Clara em cada 600, ainda bem que ela nasceu na minha casa.
Jurei a mim mesma, no momento em que a Clara nasceu, que a vida não ia tirar-me o meu sentido de humor e que nunca por
nunca iria passar a ser a "coitadinha tem uma filha deficiente"....
Continuo, sobre o aborto, é a dizer o que disse - não sei como
decidir, mas exijo isso mesmo - deixem-me decidir. '

 
Teresa
|| f., 13:56 || link || (0) comments |

Intimidades

Estive a fazer contas. Cheguei à conclusão que me tenho comportado geralmente como chimpazé. No que toca à Natureza sou legalista.
|| JPH, 12:51 || link || (0) comments |

Luísa Mesquita (II)

Há um pormenor importante nesta história: a forma como a direcção do PCP lidou com o assunto, do ponto de vista mediático. Dantes, no tempo de Cunhal e também no de Carvalhas, a direcção do PCP ficaria à espera que o "caso" lhe caísse em cima. Depois reagiria na defensiva, permitindo à figura "dissidente" - como sempre permitiu - o controlo total da agenda.

Ontem tudo se passou ao contrário. A direcção do partido convocou os jornalistas e contou a história - primeiro através do líder parlamentar, depois pelo próprio Jerónimo. Luísa Mesquita só entrou depois, reagindo à "denúncia" do caso - e desta vez foi o "dissidente" que esteve na defensiva, respondendo aos argumentos originalmente lançados pela direcção.

Não sei se isto representa um novo modus operandi mediático do PCP - mas parece-me que sim. Reconheço apenas eficácia do método. É mais um sinal de que ortodoxia e burrice não andam necessariamente de braço dado.
|| JPH, 12:13 || link || (0) comments |

Luísa Mesquita

O mandato de deputado pertence a quem? Ao deputado, naturalmente. Mas haverá excepções? Sim, quando o deputado as autoriza. Foi o que fez Luísa Mesquita. Ao entrar na lista do PCP (cabeça de lista por Santarém) assinou uma declaração pondo o seu mandato à disposição do partido. E agora o aconteceu? O partido pediu-lhe para renunciar e Luísa Mesquita recusou. Violou um compromisso assinado com o partido.

Podemos aproveitar este caso para - como escreveu José Medeiros Ferreira - testar a qualidade da opinião em Portugal. O teste inclui - como sempre - evitar preconceitos e visões pavlovianas, algo useiro e vezeiro quando no caso se mete o PCP. Sendo que nem está em causa - como a própria Luísa Mesquita já afirmou - nenhuma espécie de dissidência político-ideológica, importa perceber então o que conta. É muito simples: Luísa Mesquita recusa cumprir um contrato livremente assinado por si (e aliás por todos os candidatos a deputados pelo PCP).

Quanto ao resto, sabemos também o que o próprio PCP também já reconheceu: do ponto de vista estritamente legal ninguém pode tirar o mandato à deputada. Por mim só espero que os comunistas não entrem por cenas de faca e alguidar, como por exemplo meter-lhe a tralha toda à porta do gabinete, entrar-lhe pelo computador adentro (o que é crime, note-se), etc, etc. Pelo menos que não o façam até que o presidente da Assembleia resolva o problema providenciando instalações dignas à deputada.

Este é um teste para o PCP. Mas também um teste para todo o Parlamento. Na prática Luísa Mesquita passará a deputada independente. E eu quero ver como é que uma deputada completamente isolada de qualquer grupo parlamentar poderá exercer plenamente direitos como o de agendar projectos, intervir no hemiciclo, escolher uma comissão parlamentar, etc, etc.
|| JPH, 10:28 || link || (3) comments |

o post anterior, mas em curto

o que é que muda? por que é que o meu olhar se cansa de olhar?
|| f., 02:23 || link || (0) comments |

volubilidades

lembro-me que dei conta disso pela primeira vez com a moda. não só com os estilos e as roupas, mas com a rapidez com que trocava um rosto por outro, um corpo por outro. agora era a helena, a monica, a linda, a tatjana, depois a naomi, depois a eva. lembro-me de ter visto a claudia schiffer pela primeira vez num anúncio da guess a preto e branco, uma remake de bardot, e de a ter recortado para a minha parede, ao lado da joan crawford e do rimbaud. não levou muito tempo até que me fartasse da schiffer e passasse a achá-la tronga-monga, com aqueles joelhos grossos metidos para dentro, o andar de cavalona alemã e o sorriso sempre igual.

o mesmo com actores e actrizes. a primeira vez que os vimos, aqueles que nos estremecem, nunca se perde. é uma espécie de amor à primeira vista: sabemos onde estávamos, que traziam eles vestido, que disseram. depois o hábito do rosto, da voz, e traímo-los com outros. mickey rourke, matt dillon, rupert everett, jeff bridges, wilem dafoe, rutger hauer. gudrun landgrebe (a espantosa mulher de a mulher em chamas, de robert von ackerman), kim basinger, michelle pfeiffer, diane lane, catherine ann moss, uma thurman.

uns depois dos outros. agora gabriel byrne, benicio del toro, ralph fiennes, clive owen, vincent cassel.

o mesmo com as séries. paixão assolapada pelos sopranos, por seven feet under, por sex and the city, por 24. desmarcar jantares por causa delas. planear noites de delícia no sofá, de tabuleiro na mão, à frente da tv. falamos delas com os amigos, dissecamos os personagens, decoramos as frases e os gestos. depois, ao fim de um ano ou dois, começa a parecer sempre igual. chato, repetitivo.

o mesmo com o blogues. um pingue-pongue, uma polémica, todos os dias à espera da réplica. depois mais devagar, mais esquecido. maçador.

até o mesmo com os livros. descobrimos um autor e devoramo-lo e escrevemos sobre ele lemos as biografias e as entrevistas e pomo-lo na estante e vamos à procura de outros.

é do que sobra disso, no que sobra dessa espécie de paixões sequenciais, que fica alguma coisa. os filmes e os actores que na infância e adolescência conformaram o olhar e o mundo. gary cooper, katharine hepburn, marilyn monroe, robert mitchum, ava gardner, cyd charisse. jennifer jones e gregory peck em duelo ao sol. joan crawford e sterling hayden em johnny guitar. qualquer coisa nestes que não há nos outros, uma espécie de família, de amizades perenes, essenciais. não esqueço os nomes, como não esqueço os nomes dos filmes nem as histórias. nem os diálogos. o de jonnhy guitar, por exemplo, o das mentiras e das mulheres e dos homens esquecidos (ou lembrados) e de 'estive sempre à tua espera'.

estamos sempre à espera disso, desse momento em que alguém de quem estivemos sempre à espera entra no nosso bar e faz deserto do resto.

e que dure um bocado, já que para sempre não há.
|| f., 00:48 || link || (0) comments |

ela voltou

helen mirren está de volta, com prime suspect.
|| f., 00:45 || link || (0) comments |

quinta-feira, novembro 23

Queridos chimpazés



Este ganda chimpazé depois de se ter separado da Marília Gabriela (58) já foi visto com outra velhota qualquer

|| asl, 17:14 || link || (0) comments |

quando for velha -- bom, quando tiver mais uns aninhos -- quero ser chimpazé

não sei o que vocês acham, mas isto para mim é uma boa notícia. a crer naquela ideia de que temos muito em comum com os nossos primos peludos e que a natureza é que manda e não sei quê

(é para fazer posts destes que a glória não tem caixa de comentários)
|| f., 16:42 || link || (0) comments |

outra vez o mesmo assunto, irra -- ate eu ja admiro a minha propria pachorra

caro santiago (http://www.contanatura.net/arquivo/2006/11/ainda_o_referendo_que_ai_vem_p.html), tenho a impressão de que tende a confundir ironia com abandalhamento. mas prontoS, paciência.

quanto ao parecer do cnev (conselho nacional de ética para as ciências da vida), não estava minimamente em causa naquilo que escrevi. tão pouco assumi que walter osswald defendesse o aborto eugénico -- para o caso não me interessa se defende ou não, era o que está consignado pela lei vigente, que não vai ser alterada pelo resultado do referendo, que estava em causa no post (penúltimo).

com a devida (ou indevida) vénia ao professor walter osswald, o que me interessou foi aquela frase específica e o facto de condensar a ideia primordial de quem defende o não: a ideia de que a uma mulher que rejeita a gravidez não tendo sido violada ou não lhe tendo sido detectada qualquer malformação no feto não se reconhecem 'justificações' para abortar.

quanto a textos 'sérios' e profusamente 'informados' sobre a questão, incluindo pareceres do cnev e outros, caro santiago, creio que lhe devo levar uma certa dianteira. se quiser, posso-lhe mandar uns links.

já agora, a propósito de pareceres do cnev, aconselho-lhe que leia aquele que reflecte sobre o que fazer quando o produto de um abortamento de 24 semanas nasce vivo. é só ir à página do cnev e procurar.
|| f., 13:15 || link || (0) comments |

Por uma vez de acordo...

...com o prof. Carrilho, que voltou a insistir (ver DN de hoje, não há link, mais um elemento da cabala, claro) na necessidade de os jornalistas apresentarem declarações públicas de rendimentos e interesses. Completa e absolutamente de acordo.
|| JPH, 11:33 || link || (0) comments |

quarta-feira, novembro 22

sem pedir autorização ao professor doutor? sem uma justificação que o professor doutor aprove? sem outra motivação para além da sua própria decisão?

no conta natura, publica-se um comentário de um professor de bioética da universidade católica, walter osswald, também membro (ou ex-membro?) do conselho nacional de ética para as ciências da vida, em que se lê, entre outras coisas:

'o que está em causa e o SIM autorizará, é que a grávida possa decidir, sem qualquer justificação ou outra motivação, abortar'

uma pessoa põe-se a pensar (quer dizer, uma pessoa que não seja mulher e não esteja grávida, faz favor) e realmente. como é que passa pela cabeça de alguém que uma grávida possa decidir? com justificações que só ela conhece? sem outra motivação que não a da sua decisão? sem um professor doutor em ética que decida, justifique e motive por ela?

uma mulher é uma grávida em potência. uma mãe à espera de se realizar. está farta de saber isso. era o que faltava que se esquecesse desse facto fundamental, ontológico. de cada vez que uma mulher faz aquilo que foi superiormente desenhado com o único propósito de a engravidar, tem de estar conscientemente preparada para essa possibilidade e aceitá-la.

uma grávida é por natureza uma grávida. ou seja, uma mãe. ser mãe não deve ser uma decisão, nem ter qualquer justificação, nem qualquer motivação a não ser estar grávida. qualquer grávida normal quer estar grávida, só uma grávida que não é boa da cabeça, que é uma aberração, quer decidir deixar de estar grávida, e se não é boa da cabeça como é que a podemos deixar decidir seja o que for?

a não ser, claro, que o facto de estar grávida tenha resultado de sexo forçado. ou que a grávida esteja grávida de um ser completamente humano mas com problemas, tipo um anão ou um mongolóide. aí já a podemos deixar decidir, desde que sejamos sempre nós, os professores doutores, a caucionar a decisão dela. nunca por nunca deixem uma grávida decidir sózinha ou lá com quem a engravidou se ela ou eles os dois querem ou não continuar grávidos e criar uma criança.

(aliás, se calhar devia-se era nomear uma comissão parlamentar para decidir, em nome do povo, cada direito de decidir de cada grávida. e as audições deviam passar na tv, para 'os portugueses' poderem votar, a 1 euro cada voto, que depois revertia para o enxoval da criança e para os leites em pó e as fraldas. enquanto a comissão parlamentar estivesse a decidir, a grávida era filmada 24 horas por dia, para se ter a certeza de que não se punha a decidir nada sozinha. isso é que era.)

aliás, como toda a gente sabe, quando se obriga uma grávida a levar a gravidez a termo e a ter a criança ela fica muito agradecida e arrependida e cheia de remorsos por algum dia ter querido abortar. chora muito e pede muito perdão e há até casos em que se lança aos pés de quem não a deixou abortar, nomeadamente os professores doutores e lhes diz, com a voz a tremer, 'ainda bem que a lei e os senhores doutores não me deixaram decidir', e depois vai-se embora muito contente na sua humildade de pessoa que reconhece não ter qualquer tino, para criar a criança que não queria, num momento de loucura -- só podia ser loucura -- ter.

isto é tudo tão evidente, cristalino e bom que não se percebe como há quem discorde.
|| f., 17:17 || link || (0) comments |

edital 3

hoje há alguém neste blogue agora um pouco mais colectivo que faz anos. ai há há.
|| f., 14:24 || link || (0) comments |

Ségolène

Não se ponham para aí as esquerdas portuguesas a sonhar com uma Ségolène nacional. Haja calma. Cada coisa de sua vez. A senhora chegou a candidata depois de primárias no seu partido. Cá nem para presidente da junta, quanto mais da República. Primeiro as primárias. Depois a Ségolène.
|| JPH, 13:08 || link || (0) comments |

Isto sim, é um ganda post!

O silogismo
Com R., falava imenso de sexo. Nunca fomos para a cama. Com C., raramente falava de sexo. Nunca fomos para a cama. Que se foda o silogismo (ao menos o silogismo).

Pedro Mexia, in Estado Civil
|| JPH, 11:40 || link || (0) comments |

Radioactividade (II)


[Antes e depois: Alexandre Litvinenko, ex-espião russo]
|| JPH, 11:17 || link || (0) comments |

Radioactividade

É anunciado que a RCP (Rádio Clube Português) passará a ter uma forte componente de informação. E que o director se chama Luís Osório. Saúdo vivamente que a RCP passe a ter uma forte componente de informação.
|| JPH, 10:41 || link || (0) comments |

Bom dia!

Fico sem saber o que dizer quando o carácter colectivo deste blogue é posto em causa. Não confirmo nem desminto.
|| JPH, 10:25 || link || (0) comments |

terça-feira, novembro 21

edital número 2

alegados colegas de blogue, quero-vos informar que este mesmo blogue, o glória fácil (não sei se conhecem), está na short list dos melhores blogues COLECTIVOS. CO-LE-C-TI-VOS, OK????????????????????????

bem
|| f., 17:32 || link || (0) comments |

morreu robert altman

tirando thieves like us, o remake do filme de nicholas ray, e fool for love, de sam sheppard com sam sheppard e kim basinger, não há muitos filmes de altman que recorde com grande entusiasmo. mas foi altman que me apresentou keith carradine (que depois foi estrela de vários filmes de alan rudolph, um protegido de altman de quem gosto mais que do mestre) e clive owen (em gosford park). sabia escolhê-los ao meu gosto, ele.
|| f., 17:07 || link || (0) comments |

wrong together

no outro dia, alguém escreveu num blogue que eu e o pedro lomba somos gémeos. suspeito que a graçola tinha a ver com tamanho dos nossos respectivos apêndices nasais (que o pedro diz serem de uma beleza clássica, eheh), até porque quem a fez não nos conhece de lado nenhum (aposto) e, sobretudo, não me parece, como dizer?, dado a subtilezas.

um dia ou dois depois, o pedro, com o qual por acaso estou quase sempre de acordo, pesem as dissemelhanças das nossas alegadas famílias políticas (alegadas, precisamente) e dos nossos estilos, postou um excerto de american pastoral, de philip roth. o mesmíssimo que eu, há muitos meses, postei aqui no glória.

é a isto, creio, que goethe deu o nome de afinidades electivas. é também por isto que eu gosto da blogosfera.
|| f., 17:04 || link || (0) comments |

edital

gostava de dizer o seguinte aqui aos alegados colegas da glória: daqui a nada chateio-me.
|| f., 16:21 || link || (0) comments |

razões para adorar (extremamente) o maradona

estas todas, sobretudo aquela 'há razões para a intolerância', seguida das do 'professor doutor'
|| f., 16:18 || link || (0) comments |

little things in between

há muito tempo que andava para ler to kill a mockingbird, de harper lee. naquele tipo de coincidências felizes que de tão felizes não nos parecem coincidências (também acontece com as infelizes, hélas), encontrei uma edição da random house, ainda por cima linda, a olhar para mim na fnac quando lá fui comprar a molhada de livros para férias.

é um bom livro para se ler no início da adolescência. não calhou. mas lê-lo agora, bem longe, bem depois -- tão tão depois -- é como entrar numa máquina do tempo. para quando os verões eram infinitos e os pais invencíveis e sempre justos e sempre ali. quando todos os dias inventávamos novas brincadeiras e faziamos de tudo uma aventura e até o frio e o calor eram uma conversa do mundo connosco. quando estava tudo tudo por estrear.

e depois, quer dizer, antes e durante, há a linguagem. contar como uma criança, pensar como uma criança, é uma arte difícil. lee domina-a sem alardes. to kill a mockingbird é uma história de amor pela infância contada por alguém que, como ruy belo, sabe que o verão era a única estação.

é também uma história do amor de um homem invisível por duas crianças, o amor de um estranho que vela pelo rapaz e a rapariga que vivem na casa ao lado. sem esperar nada em troca, apenas a possibilidade de os ver e de os amar e de, um dia, se for preciso, lhes salvar a vida.

'neighbours bring food with death and flowers with sickness and little things in between. boo was our neighbour. he gave us two soap dolls, a broken watch and chain, a pair of good-luck pennies, and our lives.'

às vezes penso que, ao contrário do que é comum dizer-se, as pessoas sem crianças as vêem como um milagre maior que as que as têm. falta de hábito, talvez, ou uma atenção diferente à gramática da infância, um enternecimento não possessivo com esse milagre fugaz.
|| f., 02:17 || link || (0) comments |

segunda-feira, novembro 20

coração e compaixão

num blogue chamado direito a viver (direitoaviver.blogspot.com), fernando alves escreve isto, em resposta a um post meu:

'todos nós consideramos que vida é vida mesmo que ela seja resultado de uma violação. Mas temos coração, temos compaixão. Somos incapazes de impor um sofrimento desse género a uma mulher violada. Somos incapazes de impor uma gravidez de risco a uma mulher.'

ainda bem que o bom coração e a compaixão só lhes dá para IMPOR uma gravidez 'normal' a uma mulher qualquer. ó fernando, obrigada, pela parte que me toca. já sei com o que conto, se me der para o truca-truca sem cuidados ou se a pílula ou outra coisa qualquer não funcionar. nem coração nem compaixão. o que vale é que gente como eu e, aposto, o fernando, tem dinheiro para se marimbar para os corações e as compaixões dos outros. sempre teve e sempre terá, a não ser que de repente fiquemos sem um tostão. ou com 15 anos. aí é que a coisa fica complicada. o fernando alves obrigaria uma filha sua de 15 anos a levar a termo uma gravidez que ela não desejasse? obrigaria a sua irmã? a sua melhor amiga? a sua prima?

o fernando tem um aparelho para medir o género e o grau do sofrimento dos outros -- neste caso das outras?

o fernando acha mesmo que impõe alguma coisa a alguém a não ser às muito muito pobres e muito muito desmunidas?

o fernando quer 'salvar' embriões ou fazer de conta que salva embriões enquanto condena as mulheres e as raparigas a fazer o que for preciso, como for preciso e implique o que implicar (e acredite que muitas acreditam que vão morrer) para acabar com o sofrimento que não lhes quer poupar?

bom, vou dormir (eu também durmo)

ADENDA, às 18.27h: o fernando alves em questão não é o fernando alves da tsf. o fernando alves da tsf acha que o outro fernando alves, bom. portanto não chateiem mais o fernando alves que naõ deve ser chateado com mails e assim.
|| f., 02:57 || link || (0) comments |

do amor, 2

o bruno fez uma adenda ao post anterior. quer dizer, não sei sequer se ele leu o post anterior, portanto isto, dizer que se trata de uma adenda, é uma arrogância minha. mas li-o como se fosse uma resposta, um continuo. leiam, de qualquer maneira.

ah, e para quem não sabe, a eterna descontente (a quem dediquei o post anterior) é a autora do blogue easfadastambemseenganamnocaminho.blogspot.com, que me inspirou com um poema de auden e uma carta de demissão.

do poema, funeral blues, o final:

He was my North, my South, my East and West.
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


vão lá ler o resto
|| f., 02:26 || link || (0) comments |

domingo, novembro 19

do amor

andei a ler, no verão, o de l'amour, de sthendal. confesso que achei um bocado seca, eu que tenho a cartuxa de parma entre os meus romances favoritos. antes disso, tinha lido excertos de um livro, colectânea de artigos e ensaios, de unamuno (acho eu, de repente estou com dúvidas, às vezes a minha memória trai-me -- ok, já me lembrei, um dia depois: é de ortega y gasset, afinal).

um e outro tentam dissecar o amor e os amantes e os seus tipos. o resultado não é famoso. o amor dá-se mal com ensaios. é decerto na ficção que melhor sobrevive. na ficção e, de vez em quando, naquilo que passa por verdade diarística. a blogosfera é um bom lugar para os diários de amores -- mas é sempre, porquê?, nos dos amores infelizes, traídos, acabados, em cinzas, que mais cintila e estremece.

há no amor uma vocação trágica que corre para o fim, para esse cume de sentimento e loucura que tão bem visconti filmou em 'sentimento'. amor que não mata e esfola e esventra de amor não é amor, talvez -- é assim, pelo menos, que o aprendemos na literatura e no seu sucedâneo cinematográfico, no fado e em toda a pop, na ópera e em todas as grandes líricas.

um dia, há muitos anos, alguém me perguntou, durante um jantar: 'então você gosta de tragédias, é?'. é verdade. não resisto a uma boa tragédia. acenem-me com um bom abismo (ou a possibilidade dele) e eu galopo.

dizia fanny ardant, em la femme d'a coté, de truffaut, deitada na cama de hospital depois de tentar matar-se, 'estive a ouvir rádio, estas canções pop palermas que dizem sempre a mesma coisa e é tudo verdade: não posso viver contigo nem sem ti'. talvez alguns de nós estejam formatados, fadados, prometidos, a amores infelizes. pode ser porque não há outros. ou porque não os sabemos de outro modo.

(para a eterna descontente)
|| f., 20:31 || link || (0) comments |

definitivamente, mafalda

estou contristada. parece que a mafalda do não ficou com medo de que as definições dela fossem abaladas. definitivamente, não era essa a minha intenção, mafalda. cada um, por definição, define-se como entende. a mafalda define-se, aliás, muito bem. tão bem tão bem que não me parece necessário dizer mais nada.
|| f., 19:43 || link || (0) comments |

isto ainda acaba em casamento (la para depois de 2009, claro, antes nao pode ser)

a caríssima mafalda continua apiedadíssima de mim e da minha espantosa ignorância, pelo que voltou, pacientemente, a tentar pôr ordem na minha confusa e poucochinha neurónia.

diz então a mafalfa -- nunca será demais agradecer-lhe -- que, na sequência do que já tinha dito e repetindo-se um pouco, mas pronto, é normal, estas coisas são mesmo assim, o código penal diz isto e aquilo. não sei se a mafalda, na sua infinita bondade, reparou que eu estava a falar de valores, de moral, de filosofia, está a ver?, e não do que diz a lei. ou seja, estava a falar do que subjaz à lei. mas deixe lá, não é por isso que a gente deixa de poder conversar (há sempre o tempo, e hoje ainda não choveu aqui para os meus lados). não sei se a mafalda reparou também que se ateve, na sua 'explicação', apenas à questão da violação, evitando, sabe-se lá porquê (será porque tem dificuldades nesse quesito?), a das malformações. mas, mesmo assim, a mafalda chegou lá, ao ponto, ao dito nó górdio. e diz:

"no caso de uma gravidez normal (...) a mulher, para mais numa altura em que os métodos contraceptivos estão ao dispor de todos, engravida porque quer. Logo, é desresponsabilizá-la e menorizá-la (presumindo-a inimputável, ao melhor jeito do machismo de outros tempos) aceitar que ela possa rejeitar o filho que a própria gerou de livre e espontânea vontade."

ou seja, mafalda, o que está em causa na sua distinção (e da lei) entre não crime e crime, no caso do aborto fruto de violação e fruto de sexo, digamos, consensual, ou entre a rejeição pela mulher de uma gravidez fruto de sexo não consensual e a rejeição de uma gravidez fruto de sexo consensual não é a rejeição, ou o grau da rejeição, já que estes são sempre subjectivos e só a mulher em causa os conhece. é o tipo de sexo. ou seja, a vontade que a mulher teve ou não de ter sexo. de algum modo, o que a lei e a mafalda prevêem é quase uma criminalização do sexo consensual -- para a mulher, claro (para quando o crime de recusa de colocar o preservativo para os homens?). até porque, diz a mafalda, a grávida que engravida de sexo consensual engravida 'de livre e espontânea vontade'.

não valerá talvez a pena explicar à mafalda que dar uma queca de livre e espontânea vontade não é a mesma coisa que gerar um filho de livre espontânea vontade. ou, se quiser usar uma linguagem jurídica, poderá, quanto muito, tratar-se de um 'crime' por negligência, com dolo eventual. e provando-se que a mulher tomou precauções para não engravidar -- os tais métodos contraceptivos que pelos vistos, para a mafalda e só para a mafalda, são 200% eficazes (há-de-nos contar onde os arranja, manda vir de onde? de marte? dos anéis de saturno?), então parece que não haverá possibilidade nenhuma de a considerar, nesse seu tribunal, culpada seja do que for. é como estar parado no semáforo à espera que passe para verde e vir um peão a correr meter-se debaixo do carro e matar-se, está a ver?

também não valerá a pena explicar à mafalda, que até é mulher e tudo, que a expressão "aceitar que ela possa rejeitar" é em si todo O programa de menorização e machismo, de totalitarismo e apoucamento. mas mande sempre, mafalda. é um gosto conversar consigo.

(quando se lembrar de uma justificação MORAL para o aborto dos malformados, diga coisas)
|| f., 12:36 || link || (0) comments |

sábado, novembro 18

é oficial: começou

bem me parecia que não ia resistir muito tempo. ainda tentei uma medicação nova, mas não dá. vou ter mesmo de responder ao bloguedonao.

uma tal de mafalda, creio que barbosa miranda, a crer na lista, diz que responde ao que escrevi abaixo, nomeadamente sobre quem defende a lei actual e se opõe à mudança proposta no referendo não ter nunca conseguido explicar, do ponto de vista da tal 'defesa da vida' e do 'respeito pela vida' (do feto ou embrião, claro está), qual a diferença que faz, na perspectiva do embrião ou feto, que a mulher em cujo útero se desenvolvem tenha sido violada e portanto os rejeite, ou que os rejeite por serem malformados ou sofrerem de deficiência congénita.

a mafalda diz que eu não percebi nada, e oferece-se amavelmente para explicar. obrigada, mafalda, adoro gente bem educada.

então diz a mafalda que o código penal explica tudo muito bem, que tem a ver com aquilo que o legislador define como crime e aquilo que, sendo crime objectivamente (matar uma pessoa, por exemplo) não é como tal penalizado dependendo das circunstâncias -- caso da legítima defesa.

mais uma vez, obrigada, mafalda. por acaso eu até já tinha esclarecido há uns anitos este assunto, do ponto de vista da filosofia penal, com o professor costa andrade (hei-de pôr aqui o link, não agora), mas gosto sempre que as pessoas me esclareçam, nomeadamente, como é o caso, sobre o conhecimento que os embriões e os fetos têm do código penal -- juro que estou impressionada -- e sobre o facto de matar, para usar a vossa terminologia, um embrião ou um feto fruto de violação ou padecendo de malformação poder ser visto como uma espécie de legítima defesa.

obrigada, mafalda, pelo seu esclarecimento. embora ache que isso é aquilo que se costuma chamar um tirão no pé, tipo de bazooka.

só uma nota final: já reparou a tão estudiosa de leis mafalda que o que está em causa, na interrupção da gravidez que a lei actual permite, nos casos de violação e malformação, não é exactamente a violação e a malformação, mas o facto de, estas existindo, a grávida rejeitar a gravidez? é a rejeição da gravidez, ou do ser que nela se desenvolve, que faz acontecer o aborto. é, portanto, a vontade da mulher, ou do casal, ou da família. o que está em causa para quem defende a lei actual e se opõe à alteração é considerar que umas rejeições se 'justificam' e outras não. e justificam-se umas e as outras não porquê? porque um embrião fruto de violação não tem direito à vida como outro qualquer? porque um feto malformado não é humano nem merece viver? porque não é exigível que as mulheres que querem abortá-los os amem e os criem?

cara mafalda, pense mais um bocadinho. vai ver que consegue.
|| f., 21:42 || link || (0) comments |

o que realmente interessa

que cremes usa a segolene? vendem-se cá ou temos de mandar vir? quem é o cirurgião plástico dela?
|| f., 00:32 || link || (0) comments |

sexta-feira, novembro 17

Um Soares de direita

O que a direita critica a Cavaco é que não seja para Sócrates aquilo que Soares foi para Cavaco.
|| JPH, 16:14 || link || (0) comments |

no nos hace mejores ni nos salva

a propósito de coisas que fazem de nós o que somos, maria paula sousa-nunes enviou aqui para o glória mais um magnífico poema de amaulia bautista. aqui vai,


EL DOLOR

El dolor no humaniza, no ennoblece,

no nos hace mejores ni nos salva,

nada lo justifica ni lo anula.

El dolor no perdona ni inmuniza,

no fortalece o dulcifica el alma,

no crea nada y nada lo destruye.

El dolor siempre existe y siempre vuelve,

ninguno de sus actos es el último

y todos pueden ser definitivos.

El dolor más horrible siempre puede

ser más intenso aún y ser eterno.

Siempre va acompañado por el miedo

y los dos se alimentan uno a otro.




obrigada, paula
|| f., 14:55 || link || (0) comments |

muito melhor assim

o pedro correia está zangado porque a pergunta do referendo não lhe pede autorização, a ele e aos demais portadores de espermatozóides.
porque gosto do pedro correia e não quero ver chateado, façamos-lhe a vontade:


«concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, desde que:

a) o marido concorde;
b) o unido de facto concorde;
c) o namorado concorde;
d) o gajo que ela não via há séculos e que encontrou há um mês à noite e aconteceu aquilo concorde;
e) o gajo de quem ela se divorciou e que já tem outra pessoa (e ela também)mas encontraram-se e pronto, aconteceu, concorde;
f) o gajo casado com quem ela anda concorde e já agora a gaja que vive com o gajo casado e os filhos dos dois concordem;
g) o gajo que a violou concorde;
h) aquele gajo que não lhe atende o telefone concorde;
i) o alemão que ela conheceu nas férias na tailândia concorde;
j) o padre amaro concorde;
l) caso haja dúvidas quanto ao progenitor, a mulher deve convocar todos os possíveis candidatos para análises de dna, posto o que, se ainda se estiver dentro do prazo legal, se procederá à consulta sobre o consentimento;


a concordância do presuntivo progenitor/fecundador deve ser certificada presencialmente, na presença de duas testemunhas, ou por documento reconhecido;
caso a mulher queira levar a gravidez avante e o progenitor/fecundador não queira, o conflito será dirimido em tribunal/com uma moeda ao ar/ à porrada;
caso a mulher seja casada ou viva em união de facto com um homem diferente daquele que a fecundou, o consentimento dos dois deverá ser averbado;

nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»

adenda: caso a mulher queira abortar e o fecundador não quiser que ela aborte, e a mesma não se conforme, há várias hipóteses:

a) ela deverá ser enclausurada até ao termo da gravidez, posto o que, uma vez o bebé dado à luz, será entregue ao fecundador para que o crie.
b) a mulher abortará mas pagará uma indemnização ao homem;
c) será criado um novo crime, o de 'aborto até às 10 semanas sem consentimento do fecundador'.

a lei em vigor deverá ser alterada, já que não coloca a hipótese de aborto por perigo para a saúde física ou psíquica do homem nem especifica que este deve ser sempre ouvido em todos os casos -- incluindo violação e malformação.

prontoS. já tá.
|| f., 13:08 || link || (0) comments |

O ranking televisivo de ontem à noite







Há dias assim, em que me reconforto com o meu país.
|| JPH, 11:47 || link || (0) comments |

eu e o cardeal

queria ver se não começava já a irritar-me -- afinal, não vou para nova, gasta-se um ror de dinheiro em cremes e séruns para contrariar o efeito das irritações e ainda nem sequer foi marcada a data do referendo, quanto mais do início da campanha -- mas lá terá de ser.

na sequência da minha postagem de uma entrevista efectuada em 1998 a uma enfermeira da zona de lisboa que faz abortos (está lá para baixo, procurem, não tenho meio de fazer o link neste mac) surgiram os comentários expectáveis da parte de alguns defensores do não, particularmente entusiasmados com alguns excertos, nomeadamente aquele em que a senhora descreve o produto embrionário às 8 semanas como 'uma espécie de gelatina' ou 'um pudim de gelatina'. uma reacção, digamos, normal para quem considera que aquilo que é assim descrito é uma pessoa tão válida como, sei lá, eu (provavelmente até mais, já que eu para essa gente valho manifestamente pouco, como defensora do sim, e portanto 'abortista', ou 'abortófila', como eles dizem).

a linguagem banalizadora e às vezes quase humorística dos profissionais de saúde, sejam eles facilitadores de abortos ou cirurgiões do cérebro, é sempre um pouco chocante para quem não está daquele lado. é portanto normal que se reaja da forma como descrevi. o que sendo normal vindo de quem vem mas não deixando de ser encanitante na sua suprema estultícia e má fé é outro tipo de comentários, como os que encontram na descrição das clientes da enfermeira 'motivos' para votar não. exemplo: ela diz que a maioria das clientes dela são de classe média-alta e aparecem muitas adolescentes e raramente 'gente humilde'. um génio do 'não' acha que isso é um argumento para votar não. ela diz que lhe faz impressão fazer abortos depois das oito semanas porque 'aquilo' começa a tomar forma. o 'não' rejubila: aquilo afinal tem forma, até a fazedora de anjos reconhece (não se percebe a alegria: não defendem eles que mal o espermatozóide penetra no óvulo 'aquilo' já é uma pessoa? então qual a importância de ter forma?). ela diz que há mulheres que recorrem aos seus serviços mais de uma vez: é a felicidade total na bancada anti-escolha (afinal, as gajas são todas umas malucas, só querem é abortar, concluem, temos de as impedir e forçar essas doidas irresponsáveis a ter os bebés para aprenderem).

note-se que quem assim 'raciocina' despede da vista uma questão, digamos, despicienda. estamos a falar de aborto clandestino e pago. pago a 400 euros ao tempo da entrevista, mais caro agora. este é o aborto pago por quem tem dinheiro para o pagar -- não decerto as mulheres do bairro de lata ou as imigrantes que ganham o salário mínimo. só pode ser pago pela classe média ou média-alta. só pode ser pago pelas mães classe média de adolescentes classe média. as outras, as 'humildes', tomam misoprostol (para quem não sabe, vendido sob a forma de medicamento para o estômago e que causa o aborto) no quarto lá de casa e, se o fizerem depois das nove semanas, correm o risco de sangrar até morrer (nada que impressione muito muitos 'defensores da vida', mesmo se elas, essas mulheres, têm forma completa e não se parecem nadea com pudins de gelatina).

pequeno problema: estamos a falar de algo que se passa. AGORA. ANTES. E NO FUTURO, se o não ganhar. estamos a falar de alguém que ganha dinheiro com o não. o preço cobrado por esta enfermeira, sem ecografia nem anestesia e com riscos que ela própria assume quando diz que 'se falha a electricidade no meio do procedimento tenho de acabar à mão, por raspagem, que é mais difícil', é mais elevado que o estipulado pelas clínicas de badajoz. a diferença de preço é justificada com o risco -- e de facto justifica-se. é assim, a lei do mercado. nada a fazer.

depois das 8 semanas, 'aquilo' toma forma e faz impressão à enfermeira. faz impressão a toda a gente, senhores e senhoras do não. a toda a gente. e faz ainda mais impressão quando estamos a falar do que a lei em vigor permite: abortos às 24 semanas. abortos às 16 semanas. fazem-se, sabem? aliás os abortos de 20, 22 e 24 semanas são mesmo os que mais se fazem em portugal. aí não há qualquer hipótese de falar de pudim de gelatina. mas disso é melhor não falar, não é, senhores do não? porque não dá jeito admitir que, das duas uma: ou são contra todos os abortos, independentemente de a concepção ter sido causada por violação e independentemente de o seu produto ser mongolóide, hemofílico, anão ou qualquer das outras 'anomalias' que permitem terminar a gravidez legalmente nos hospitais portugueses, ou são a favor da lei em vigor, como muitos proclamam, e então desculpem lá mas ainda vos falta explicar qual a diferença, do ponto de vista do embrião/feto, entre morrer porque tem uma deficiência e a grávida não quer ter um filho deficiente e morrer porque a grávida não o quer ter, deficiente ou não.

não estamos aqui, excelentíssimos defensores do não, a escolher entre um bem e um mal. não é assim que funciona. porque a existir, a escolha é sempre entre dois males (o mal de matar o embrião e o mal de obrigar uma mulher a ter um filho que rejeita) e porque nem sequer é essa a escolha. porque a enfermeira da entrevista existe e vai continuar a existir. o misoprostol existe e vai continuar a existir. e impedir as pessoas de ter a possibilidade de interromper uma gravidez de forma legal e segura e o menos traumática possível -- e o mais cedo possível, já que prazo legal será só de 10 semanas -- não as vai impedir de abortar.

por fim, um esclarecimento: sei que esta entrevista é polémica e eventualmente chocante. e que há defensores do sim que prefeririam que este tipo de elementos não fossem divulgados -- podem ser 'contraproducentes', dizem. postei-a sabendo disso, porque creio que este debate tem estado sistematicamente arredado da realidade e ancorado apenas em ideologia e histerias. e porque creio que é possível -- e desejável -- tentarmos ser um pouco mais honestos. jornalisticamente falando, até acho graça que haja quem, lendo a entrevista, se pergunte se eu a reli antes de a postar -- por acreditar que estou a dar 'um tiro no pé'. não espero que quem assim pensa (?) saiba o que é jornalismo ou que seja capaz de entender que alguém, defendendo uma posição, seja capaz de publicar um trabalho jornalístico em que admite dar argumentos 'ao outro lado'. não houve censura nesta entrevista, lamento. não houve a preocupação de puxar a brasa a uma qualquer sardinha. só de tentar fazer todas as perguntas e obter todas as respostas, 'boas' ou 'más'. confundir honestidade e busca da verdade com falta de argumentos ou de discernimento, como fazem alguns defensores do não, define-os cabalmente na sua infeliz e raivosa cegueira. não é uma novidade, claro. é só uma confirmação.

talvez eu, como o cardeal patriarca, tenha de concluir que não é possível um debate 'sereno' sobre esta matéria.
|| f., 11:16 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha décima

De futuro, José Sócrates deve também lembrar algo que Cavaco Silva deixou no ar: que sim, que dá todas as condições para Sócrates governar, mas - ele o disse - as reformas são necessárias e são mesmo para fazer.
Quem sabe se daqui a uns tempos o Presidente não cobra o "espírito reformista" a Sócrates nos encontros de quinta-feira? Primeiro no silêncio do Palácio de Belém; depois, se necessário - ele o disse - falando publicamente.
Estão aqui todos os ingredientes para um segundo mandato diferente.
|| Nuno Simas, 02:40 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha nona

Nota final para Pedro Santana Lopes: não é comum um primeiro-ministro contar, em livro, como acha que "caiu". Ou como quer que achem que "caiu".
É um acto que revela algum desassombro (pelo risco de exposição), mas também confirma a sua incontornável tendência para a vitimização.
É o regresso do "Menino Guerreiro"!
|| Nuno Simas, 02:35 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha oitava

Santana Lopes está de regresso. A publicação do livro e a entrevista comprovam-no. E só não regressará à liderança o PSD se não o deixarem.
|| Nuno Simas, 02:33 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha sétima

Não está no livro nem foi dito nas entrevistas: o que Jorge Sampaio fez entre a saída de Durão, em Julho, e a decisão de demitir o Governo de Santana Lopes, em Novembro, foi, de facto, esperar que uma alternativa a Santana solidificasse. José Sócrates estava lá quando o pêndulo oscilou para a esquerda. O povo deu razão a Jorge Sampaio e uma maioria absoluta ao PS. Santana Lopes foi "demitido" pela segunda vez.
|| Nuno Simas, 02:30 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha sexta

E que dizer de Santana Lopes na conversa com Judite de Sousa na RTP? Pouco. Foi uma espécie de 2audio book2 do livro sobre a sua versão dos bastidores da crise de 2004.
Mais do que Jorge Sampaio, o Presidente que o demitiu com quatro meses de mandato como primeiro-ministro, Santana Lopes continua é zangado com Cavaco Silva. Que acusa de ter-se aliado a Sampaio para o derrubar. Objectivamente até deu jeito a Cavaco.
Mas que diz Cavaco? Que não comenta livros. E pôs uma cara séria, de poucos amigos quando Maria João Avillez fez a pergunta. A cara do Presidente valeu por mil palavras.
|| Nuno Simas, 02:27 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha quinta

Cavaco Silva foi muito simpático, mesmo muito. Mas continuará a ser tão simpático com José Sócrates num segundo mandato, lá para 2011, se é que Sócrates consegue resistir e reeditar uma vitória nas eleições?
O calendário pode ser penoso (e longo) para o PSD e o CDS, mas também é verdade que o ciclo de poder PSD-CDS, com Durão e Portas, foi supersónico. Caiu em dois anos. Como a política é tudo menos matemática!...
|| Nuno Simas, 02:25 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha quarta

No PSD, no PSD profundo, ouviu-se um ranger os dentes… ao ver o seu ex-líder espiritual a oferecer, assim, de bandeja, uma almofada tão confortável a Sócrates. É a vida, como diria o mais famoso engenheiro da vida política portuguesa.
[Há pouco mais de dez anos, Mário Soares, Presidente, fez o mesmo no primeiro mandato de Cavaco Silva, primeiro-ministro. Cavaco bem se arrependeu de pôr o PSD a votar para reeleger Soares...]
|| Nuno Simas, 02:23 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha terceira

Mas é tudo rosas para Sócrates? Talvez não. A oposição de esquerda (até dentro do PS, como se viu no congresso do PS com Helena Roseta, Manuel Alegre e todos aqueles que abafaram as suas críticas ao Governo…) tem tem aqui uma fotografia que só pode inspirar verbos fortes de Jerónimo de Sousa, Francisco Louçãe, quem sabe?, Manuel Alegre: Cavaco dá a mão a Sócrates!
|| Nuno Simas, 02:20 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha segunda

José Sócrates rebolou no sofá. De contentamento. Depois de ver a entrevista de Cavaco Silva. Um governo a fazer o que deve, com “espírito reformista”, disse ele. Melhor apólice de seguro de vida não há.
|| Nuno Simas, 02:18 || link || (0) comments |

Um livro e duas entrevistas: apostilha primeira

O livro é o de Santana Lopes, lançado esta semana, “2004 – Percepções e Realidade”, e as entrevistas são as de Santana Lopes à RTP e de Cavaco Silva à SIC. Um "duelo" por interposta televisão.
Na RTP, um ajuste de contas com o passado. Pedro Santana Lopes resume as partes mais interessantes de um livro de 420 páginas e dá a sua versão da história da crise que o derrubou em 2004.
Cavaco Silva, na SIC e em Belém, ignora-o olimpicamente.
Quem ganhou? Cavaco Silva. Nem importa quase o que diga: ganhou as presidenciais de Janeiro e é Presidente.
O outro, Santana, perdeu as legislativas, está fazer a travessia do deserto, embora avise que tem a impressão de começar a ver, ali à frente, um oásis...
|| Nuno Simas, 02:11 || link || (0) comments |

quinta-feira, novembro 16

acabou-se a caixa doce

todos iguais, todos com os dentes cariados (epitáfio alusivo ao passamento da caixa dos jornalistas).
|| f., 22:10 || link || (0) comments |

parvot

o teófilo conta a história tal qual: julião sarmento, artista plástico, falava amavelmente com uma repórter da rtp na inauguração da exposição de amadeo quando o directo foi subitamente cortado, aparentemente por motivos técnicos. no estúdio, a pivot alberta marques fernandes resolveu comentar. primeiro com a expressão e depois com algumas palavras, incluindo 'eis um artista que diz que trabalha para outros artistas' (como se fosse uma coisa impensável e fosse suposto que os artistas trabalhem, sei lá, para essa entidade chamada público) e 'até os feixes [hertzianos, supõe-se] ficaram baralhados com estas declarações'.

a ignorância não é pecado, mas alardeá-la com ar de quem diz coisas evidentes e ainda por cima como pivot do serviço público de tv é um bocadinho demais.
|| f., 16:50 || link || (0) comments |

em nome do bem

o josef enviou este mail para o glória, a propósito do post anterior:

Também visitei a arrepiante exposição de instrumentos de tortura medievais, há alguns anos em Évora.

A (ilimitada) capacidade da mente humana para inventar formas infligir sofrimento ao seu semelhante estava ali bastante bem documentada e obrigava-nos a pensar - digo mais, obrigava-nos a pensar com o corpo todo. E a arrefecer um pouco de pavor.

O sofrimento humano revestiu-se de infinitas formas. E assim continua. Não consigo entender a função do sofrimento (consigo entender perfeitamente a função da morte: condição sine qua non da renovação da vida).
Muito desse sofrimento é criação humana. E custa engolir que (também) somos assim, capazes de infligir o mal, por vezes chamando-lhe até bem (justiça, guerra justa, salvação da alma, etc.) .

Josef
|| f., 15:35 || link || (0) comments |

coisas que fazem de nós o que somos

no outro dia, a falar com um colega do dn sobre goya, percebi que uma pequena reprodução que o meu pai me mostrou do quadro dos fuzilamentos e que eu olhei dias a fio -- os braços erguidos do homem que enfrenta o pelotão, os olhos e a boca desorbitados no meio dos companheiros já abatidos, a antecipação da morte e a coragem do desespero -- me havia esculpido a heróica ideia de resiliência e sacríficio, dos que sabem que a morte está ali e assim mesmo avançam, de olhos abertos.

muitas histórias e imagens guardo assim, com o travo puro das noções primeiras. como a narrativa do martírio de uma irmã de uma empregada da minha mãe, que foi parar ao hospital com um aborto espontâneo e foi raspada, a frio, porque o médico não acreditou nela e achou que tinha provocado o aborto e quis 'castigá-la'. a rapariga, que minha mãe recordava comovida como 'muito engraçada', morreu na sala de operações. ao médico, naturalmente -- isto passou-se nos anos sessenta -- nada aconteceu.

o horror da história da irmã da alexandrina (era assim que se chamava a empregada) ainda me estremece. na minha cabeça, cruza-se com as imagens dos instrumentos da inquisição que há uns anos, num convento de évora num dia de muito calor, me amoleceram as pernas e toldaram o olhar. acabei cá fora, sentada nos degraus, sem forças, as entranhas torcidas por tanto metal, por tanta raiva contra o corpo (o meu corpo), por tantos gritos e tanto sangue em cada uma daquelas monstruosas ideias de tortura. havia tornos especiais para esmagar seios, havia mecanismos para encher de água o ventre das mulheres até rebentarem, havia uma pirâmide metálica de ponta acerada que, explicava-se, servia para rasgar a vagina e o ânus das mulheres e dos suspeitos homossexuais, que eram suspensos de uma corda e deixados cair, uma e outra vez, sobre aquilo.

albino aroso contou, na conferência sobre direitos sexuais e reprodutivos organizada pelos eurodeputados socialistas, histórias e histórias como a da irmã da alexandrina. de como quando começou a sua actividade de médico descobriu um mundo de dor e pavor e crueldade inflingido pelos seus colegas sobre as mulheres em nome de uma ideia de justiça divina, uma sharia católica. herdeiros dos inquisidores, os médicos portugueses tomavam nas suas mãos o dever de lhes ensinar, se necessário pela morte, o seu lugar no mundo.

não tenho notícia de um único desses médicos alguma vez ter respondido, em tribunal ou noutro sítio, por esses crimes. não tenho notícia de alguma vez algum dito defensor da vida ter erguido a voz pelas vidas dessas mulheres.

claro, dir-me-ão, isso já não acontece. graças a pessoas como albino aroso, já não sucede. acredito que não. em portugal já não. mas eu, sabem, não consigo esquecer que aconteceu. não consigo perdoar que tenha acontecido. e não consigo perdoar aqueles que acreditam que há bens e ideias e autoridades que o justificam, as bençãos que o fizeram possível.
|| f., 12:05 || link || (0) comments |

the end of love

ela pede que a deixem chorar (oh let her weep). mas nunca é assim tão fácil, pois não?
|| f., 11:58 || link || (0) comments |

quarta-feira, novembro 15

adenda à entrevista postada abaixo

publicada a 28 de agosto de 2004, dn, é, digamos, trabalho de campo correspondente à entrevista feita em 1998.


Breve história de uma interrupção

Arredores de Lisboa. A rapariga tem 18 anos. Sai do carro já pálida. Talvez do jejum imposto desde manhã, ou do medo, ou da irreversibilidade do momento, ou tudo isso ao mesmo tempo. Maria da Conceição vem à porta, suave e maternal, convida para a sala.
Segura na mão da miúda, pergunta-lhe como se sente, se tomou mesmo a decisão, de quanto tempo julga estar.

A miúda conta a história: desaguada na capital para trabalho doméstico para uma família de «condição», vinda da província mais ou menos profunda, quis o destino que seguisse a clássica história da ingénua seduzida e abandonada, aos 18 anos tomada de amores por um senhor do dobro, em breve arvorado em prospectivo pai. Que, informado, esclarece a posição: nem pelos ajustes para ser pai nem para deixar de o ser. Aterrada com a possibilidade de contar aos progenitores, é aos patrões que pede ajuda. Assumindo custas e logística, aqueles contactam Maria da Conceição, que, em conversa telefónica, quer saber «o tempo» e estabelece as regras: sem comer, como nas operações, dia tal, às tantas horas, tomar um sedativo xis tempo antes. Preço, 400 euros.

E aqui estamos. Segura da determinação da cliente, a enfermeira dá a conversa por finda. É nesse momento que pede o estipêndio, um molho de notas dobradas que mete no bolso das calças. Depois, com mais uma carícia, garante: «Não vai custar muito. Vais ter coragem, não vais?» A miúda diz que sim, mas quer companhia: a jornalista também vai para o quarto ao fundo do corredor, onde uma marquesa ginecológica e um aparelho de aspiração convivem com um sofá às pintinhas e uma janela com vasos de flores. A jornalista segura a mão da miúda e vê os gestos enluvados, clínicos, que através do espéculo sugam o fruto daquele ventre e o depositam num recipiente de plástico azul. A jornalista espreita, a medo: três ou quatro gotas de sangue espesso.

Seis semanas, diz Conceição.
|| f., 20:45 || link || (0) comments |

maaaaaaiiiiis uma entrevista históóóórica, maaaaaiiiis uma corrida

quando não tenho tempo ou cabeça para pensar em coisas para debitar aqui (ainda por cima agora também divido a minha pobre verve com outro blogue, o que não melhora as coisas, não) vou ao baú. e aqui vai uma entrevista feita em 1998, nas vésperas do referendo, a uma senhora que fazia (e faz, creio, ainda) abortos em casa. no interim, mudaram os preços: a última vez que ouvi falar deles, iam nos 500 euros.
a entrevista saiu na notícias magazine, juntamente com um inquérito a todos os movimentos que participaram na campanha e uma série de outros artigos.

NADA DO OUTRO MUNDO
Chamam-lhes parteiras, abortadeiras, desmanchadeiras. Ou fazedoras de anjos, bruxas de vão de escada. Na eterna discussão dos direitos e das liberdades, dos deveres e dos castigos, das vítimas e dos pecados, estiveram sempre do lado de lá, onde nenhuma redenção é possível. Se os partidários do NÃO as acusam de massacre dos inocentes e lhes reservam os fogos de todos os infernos, os do SIM culpam-nas da morte e da humilhação das mulheres e prometem fechar-lhes o negócio. Nesta história de o aborto ser crime ou não, o lucro é a única coisa que parece não ter perdão. Mesmo quando se sabe que também aqui, como de costume, a oferta não fez mais que responder à procura. Se quiser juntar às ideias qualquer coisa da realidade, LEIA como, porquê, por quanto, e por quem.

Pode ser Ana. Ou Maria, ou Teresa, ou Joana. Um nome bem português, um rosto suave nos cinquenta anos, uma casa a condizer, clara, aprumada, confortável, cara. Bem na vida, não é assim que se diz? Trinta anos de enfermagem, muitos hospitais, muitas doenças e muitas curas, muitos nascimentos, muitos sofrimentos, muitas mortes. Os olhos claros viram isso tudo, a luz crua nos corpos, por dentro e por fora. Como é que se vive nisso, disso e depois disso? Diz-se que a partir de um certo limite já não se sente, que a dureza passa de necessidade a condição, mas quem é que sabe? Como é que se mede? Ela tenta explicar, mas seria preciso estar do lado de lá para perceber. Como para tudo, parece. E isto de fazer abortos não será excepção, antes pelo contrário. É até como se nos dividíssemos assim, de um lado as que fizeram e do outro as (e os) que nunca lá passaram. E mais longe, à distância, quem os opera, quem os provoca, quem os manipula. Uma classe à parte, necessária, providencial, redentora, nunca redimida. É como se o dinheiro que passa aqui de mãos transportasse um anátema, transferisse de uma vez a culpa, a vergonha e o segredo. Para quem os sente, claro. Porque é possível, por mais que doa aos apologistas da vitimização, que se aborte sem olhar para trás. Acontece. Acontece não haver culpa. Acontece decidir e esquecer.
E acontece haver muitos sítios diferentes onde se ir, muitos lugares diferentes para abortar, muitas formas, muito níveis, muitos preços. Este, esta mulher, é apenas um deles. Em Lisboa. Caro, para quem pode dar-se ao luxo de ter direitos. Para quem pode escolher, seja a lei o que for, diga o referendo o que disser.

NM-Como é que começou a fazer abortos?

Sra X - Foi mais ou menos na altura em que se começou a falar de sida. Havia necessidade de haver alguém em quem houvesse confiança do ponto de vista da esterilidade do material e de certificar que quem fosse fazer uma interrupção da gravidez não saísse de lá com uma doença devido à falta de assépsia.

NM - Essa necessidade de que fala foi de quem?

Sra X - De certos médicos, que queriam ter alguém de confiança a quem enviar as pessoas.

NM -E porque é que esses médicos não fazem eles próprios os abortos?

Sra X - É uma pergunta que nunca lhes fiz a eles... Penso que seja por uma questão de ética.

NM - De ética não será, já que eles lhe pediram que o fizesse...

Sra X - Pois, será talvez de conveniência...

NM - Quanto leva de fazer um aborto?

Sra X - Depende. Sessenta, setenta [contos = 300/350 euros]... Acho que é o preço justo. Mas às vezes não levo nada. Porque são colegas, porque são médicas... Ou quando é uma pessoa que eu vejo que não tem possibilidades. Mas a maior parte das pessoas que vem cá pode pagar. Aliás, as pessoas que vão a estes médicos são de posses. Há um deles que só trabalha com a classe alta.

NM - Uma das coisas que se diz é que a legalização, a existir, virá dar cabo do negócio das pessoas que fazem abortos. Não pensa nisso?

Sra X - Não, não sinto esse problema. Eu não vivo disto. Aliás, eu tenho um consultório que não tem nada a ver com isto. Como já lhe disse, nunca me passou pela cabeça fazer isto e se o faço foi porque os médicos me começaram a pedir e eu entendi que eles tinham razão. Veja lá que até para comprar o material de aspiração, tive de usar o nome de um ginecologista, doutra forma não mo venderiam...

NM - E o resto do material, como é que é?

Sra X - Olhe, o material de esterilização, não há problemas, uso o do hospital. As sondas, que são de usar e deitar fora, vêm através de um laboratório, mas em nome dos médicos.

NM - Que métodos usa?

Sra X- Uso só o método de aspiração. Nunca usei raspagem. Porque eu faço abortos só até às oito semanas...

NM - Porquê?

Sra X - Primeiro, para não correr riscos. E depois porque acho que até às oito semanas uma pessoa tem tempo suficiente para se decidir. E depois penso que me faria um bocado de impressão moral fazer uma coisa já maior. Porque assim é uma bolsa embrionária, são células embrionárias, aquilo sai tudo fragmentado, é como se fosse gelatina. Faz de conta que é um pudim de gelatina, que a gente aspira e pronto.... não faz impressão nenhuma. A sonda de aspiração tem meio centímetro, portanto já vê, para ser aspirado por uma sonda de meio centímetro tem de ser tudo muito frágil, para conseguir sair. Eu no bloco operatório vejo coisas muito mais graves... E portanto decidi que era só até às oito semanas e os médicos que me mandam as pessoas já sabem que mais que isso não.

NM - Posso saber com quantos médicos trabalha?

Sra X - Olhe, alguns nem os conheço, porque eles falam uns para os outros. Mas uns quatro ou cinco. Repare, eu não faço muitas coisas destas por mês. Não. Posso ter meses de fazer uns quatro, cinco, seis, depende... Mas nunca mais de oito ou dez. Nunca mais que isso. Porque eu quero fazer com segurança e não quero abrir a minha casa a qualquer pessoa.

NM - Que tipo de pessoas, que estrato sócio-económico, é que lhe aparecem?

Sra X - São pessoas da classe média alta, e bastante alta. Muitas jovens, miúdas com catorze, quinze , dezasseis...

NM - E qual foi a idade mais baixa que já lhe apareceu?

Sra X - Catorze.

NM - Elas vêm cá com as mães, com os namorados?

Sra X - Com as mães e com os pais. Com os namorados é raro, só as raparigas mais velhas. Essas miúdas muito jovens nunca vêm com os namorados.

NM - Tem mais pessoas de que idade? Qual é a média?

Sra X - Trintas e tais.

NM - E as circunstâncias, chega a perceber?

Sra X - Sim, sim. Porque eu converso bastante com as pessoas, para ver se as pessoas sabem o que querem. Porque isto é uma coisa que deve ser feita de livre vontade. Eu explico muito bem muito bem o que se vai passar, até porque a pessoa entendendo colabora muito melhor. Quanto às circunstâncias, penso que muitas vezes são inconsequências. As pessoas nunca pensam que aquilo lhes vai acontecer. E acontecem às vezes com brincadeiras. Olhe que eu já encontrei uma miúda grávida que estava virgem.

NM - Como?

Sra X - Deve ter havido uma brincadeira com o namorado e sem penetração, aconteceu. A miúda tinha dezoito anos, era maior, uma miúda inteligente, muito consciente... Mas a mãe tinha uma atitude muito agressiva em relação a ela. A miúda dizia que era impossível estar grávida, que nunca tinha tido uma relação normal... Mas foi ao médico, fez uma ecografia e estava de facto grávida de seis ou sete semanas. A mãe não queria acreditar que ela nunca tivesse tido uma relação, mas de facto depois quando fui observá-la disse-lhe — porque eu não sabia dessa história toda — então, tu nunca tiveste uma relação, pois não? E ela: não, nunca tive. Está a ver o meu drama? Tive de fazer tudo com o maior dos cuidados para não desvirginar a moça. E ficou intacta, felizmente. Coitada da miúda.

"Isto é uma técnica simples"

NM - O processo em si, como é que é? Há cuidados a ter antes e depois?

Sra X - Peço-lhes que não venham com o estômago cheio, porque podem querer vomitar, ainda que seja raro isso acontecer. E a seguir mando-as fazer um antibiótico ou um anti-inflamatório, embora às vezes seja o próprio médico a fazer o receituário. De resto mais nada... No dia seguinte, pode fazer a vida dela normal. Isto é uma técnica simples, não tem nada do outro mundo. Há é pessoas que empolam a situação.

NM - Quanto tempo é que leva, mais ou menos?

Sra X - Vinte minutos, meia hora. Depende muito. E eu faço tal e qual como se deve fazer, dilatação do colo, e depois a aspiração é uma coisa rápida.

NM - E é doloroso?

Sra X- Não... Porque o útero não dói. Mas claro, se for uma pessoa que tem uma inflamação, quando o útero se contrai evidentemente que pode ter uma dorzinha...

NM - Não usa anestesia?

Sra X - Não. Uso um anti-espasmódico uma hora antes, para que fique tudo mais relaxado. E depois faço uma sedação. É só.

NM - E tem uma conversa com as pessoas, a seguir?

Sra X - Não, a conversa é sempre antes. Explico-lhes tudo, mostro-lhes os bonequinhos que eu tenho aí num livrinho, mostro-lhe um desenho, como é como não é, os prós e os contras. Tudo muito bem explicado. E as pessoas depois disso ficam mais calmas.

NM - E quais são, os prós e os contras?

Sra X - Os prós, só elas sabem, a razão que as leva lá. Os contras, em princípio o único contra é faltar a electricidade enquanto se está a fazer... E aí ou se acaba manualmente ou se espera. Mas é muito chato. Não que doa, mas é menos fácil.

NM - As pessoas aparecem aqui um bocado nervosas, não?

Sra X - Nervosas, ansiosas, sim. E há quem já tenha tido experiências anteriores muito traumatizantes... E eu sei o que isso é, porque eu também já tive as minhas interrupções. Está a ver, eu separei-me do meu marido muito nova. E nessa altura não havia nada... Há trinta anos não havia pílula, não havia dispositivo intra-uterino... E as pessoas que faziam as interrupções eram muito agressivas, não tinham uma conversa, era tudo toca a marchar.

NM - Se calhar ainda há gente assim...

Sra X - Existem, tenho conhecimento disso. As pessoas aparecem-me aqui e contam, dizem-me que isto não tem nada a ver... Primeiro, nunca junto ninguém. As pessoas têm direito à sua privacidade. Para isso é que pagam. E têm direito a ser assistidas como deve ser. As pessoas que vêm cá têm direitos! Evidentemente que se eu não quiser fazer não faço, ninguém me obriga. Mas as pessoas pedem-me, pagam, podem exigir. Exigem sigilo, que nem é preciso, porque isso é uma coisa mútua...

NM - Nunca teve medo de ter problemas com a polícia, ou coisa do género?

Sra X - Não, porque normalmente as pessoas quando vêm, vêm sempre da parte de alguém.

NM- A verdade é que as únicas pessoas presas por isto são as que tiveram problemas porque causaram a morte de alguém...

Sra X - Pois. E isso acontece porquê? Porque as pessoas não são vistas por um médico antes e podem ter um problema cardíaco, uma leucemia, um problema de plaquetas e começar a sangrar e nunca mais parar...

NM - E pode ser uma gravidez mais avançada do que se confessa...

Sra X - Ah, mas eu examino primeiro e quando tenho dúvidas mando fazer uma ecografia. E já tenho tido surpresas.

NM - Mesmo sendo as pessoas enviadas pelo médico?

Sra X - Sim. Ou porque a doente foi lá e diz que tem uma falta de período de dias... Só que há pessoas que estão grávidas e continuam a ter o período. São períodos falsos... E o médico não vê assim um grande volume e dá-lhe o meu endereço. Mas eu vejo sempre antes, faço um toque...

NM - Já lhe aconteceu recusar fazer um aborto?

Sra X - Já, já. Normalmente mando para uma clínica onde sei que há condições capazes. O médico de lá nem me conhece, mas é uma pessoa que me merece confiança, inclusivamente tem sangue se for necessário... Tem tudo o que é preciso.

NM - Qual foi o tempo mais adiantado que já lhe apareceu?

Sra X - Doze, treze semanas. Mas há clínicas que fazem até às dezasseis semanas. Há uma no Porto, por exemplo, da qual tenho as melhores referências.

NM - Já fez algum aborto a uma seropositiva?

Sra X - Já. Uma colega sua, uma jornalista, por acaso. Ela é que me disse que era seropositiva. Era uma pessoa muito reservada, foi logo no início de se ouvir falar de sida. E esteve cá uma segunda vez...

NM - Era portanto uma seropositiva que não tomava grandes precauções. E é muito diferente, fazer um aborto nessas circunstâncias?

Sra X - O material habitualmente é quase todo de usar e deitar fora. E neste caso, usa-se mesmo tudo de usar e deitar fora, cânula, tubo de aspiração, espéculos... E vai tudo para o lixo do hospital.

NM - E aos restos do aborto, o que é que se faz?

Sra X - Aquilo sai tudo em líquido.

NM - Que tamanho tem um embrião de oito semanas?

Sra X - Para aí vinte milímetros, dois centímetros e meio... É mínimo. Aliás é muito poucochinho o que sai.

NM - Acontece-lhe perguntar às pessoas se querem ver?

Sra X - Se há pessoas que estão naquela ideia de que aquilo tem forma, eu digo-lhes que se quiserem vêem, que aquilo é tal e qual como se fosse uma menstruação. Evidentemente que eu sei que não é a mesma coisa que uma mestruação, que são células embrionárias. Mas de aparência, para uma pessoa leiga, é tal e qual.

NM- E isso é para quê? Para que as pessoas não saiam daqui a pensar que mataram uma criança?

Sra X - Exactamente. Só por isso. Porque de facto não se justifica.

"Ter um filho é um assunto sério"

NM - As suas clientes vêm todas da zona de Lisboa?

Sra X - Não... Há quem venha de longe. Porto, Vila do Conde... Quando têm problemas vêm cá.

NM - E há muitas mulheres que fazem várias interrupções?

Sra X - Muitas.

NM - Como é que encara isso?

Sra X - Eu acho que é descuido. Ou então são pessoas que não têm uma vida sexual estável... E depois acontece... Por outro lado também há alterações hormonais e há uma ovulação extra... As pessoas fazem as continhas todas muito bem mas falham. Ainda há muita gente que usa esses métodos das contas.

NM - Mas estas pessoas pelos vistos não usam preservativo nem nada... Não terão medo de apanhar doenças?

Sra X - Às vezes usam o preservativo mas não sabem usá-lo... Só o metem na altura, não o metem logo de princípio... E eu explico-lhes que têm de ter muito cuidado, que basta uma pequena gota que fica logo. Já houve pessoas que vêm aqui num mês e no mês seguinte ficam grávidas.

Nm - Não lhes recomenda nenhum método?

Sra X - Muitas vezes digo-lhes para irem ao doutor pôr um dispositivo... Mesmo para as miúdas mais jovens agora já há dispositivos pequeninos...

NM - Sente que as pessoas são ignorantes quanto aos meios eficazes de evitar a gravidez ou que são sobretudo descuidadas?

Sra X - Eu tenho ideia de que as pessoas precisavam de ser mais esclarecidas. Como por exemplo em relação à altura em que se deve colocar o preservativo...

NM - Mas estamos a falar de pessoas com um certo nível social e cultural...

Sra X- Sim, sim.

NM - Nunca lhe apareceu aqui gente mais humilde?

Sra X - Raramente. Às vezes aparece aqui uma filha de uma empregada, ou uma empregada trazida pela patroa. Especialmente quando são miúdas negras... Não sei porquê.

NM - São as patroas que pagam?

Sra X - Sempre.

NM - Há casos de pessoas pressionadas a abortar?

Sra X - Há. Porque quando estão com os pais ou com o marido — há maridos que não querem filhos ou não os querem numa dada altura — ou seja com quem for, é uma coisa, mas quando estão sózinhas comigo lá dentro é outra. Abrem-se mais... Dizem que não sabem se hão-de fazer, que têm medo. Eu digo-lhes que têm de pensar bem, que só elas podem decidir.

NM - Isso acontece sobretudo com as miúdas?

Sra X - Não. As miúdas geralmente querem é resolver o assunto. Há é quem esteja a estudar, o namorado está a estudar também, querem ter filhos mas mais tarde, ou pessoas que têm problemas no emprego, que estão no primeiro emprego e têm medo de ser despedidas, que não têm segurança no trabalho — porque hoje já ninguém tem — e então dizem-me que não podem, que não é altura. Há muitas que depois, mais tarde, até me vêm mostrar os bebés. É que as pessoas têm de programar a sua vida. Ter um filho é um assunto sério. Os encargos são muito grandes e as pessoas querem ter condições. Às vezes não é só a situação económica, é a disponibilidade emocional, é a disponibilidade de tempo... Porque para ter uma criança e metê-la num infantário — como acontece com tantas colegas minhas — às sete da manhã e tirá-la de lá às tantas da noite para só estar com ela à noite e aos fins-de-semana... Isso causa traumas nas crianças, um bebé quer a ternura dos pais, que os pais falem com ele, de modo que assim os miúdos passam o tempo todo num infantário onde se há pessoas que lhes dão amor outras não dão.

NM - Quantos filhos tem?

Sra X - Só uma, com trinta anos.

NM - Disse-me que também fez algumas interrupções. Como foram?

Sra X - Então não fiz... A primeira vez foi horrível. Era uma pessoa que ainda gritou comigo... Eu não gritei nada, custou-me muito em termos físicos, só chorei porque me doía muito...

NM - Estava de quanto tempo?

Sra X - Seis semanas ou sete. Nessas coisas sou muito cuidadosa.

NM - Como é que foi lá parar?

Sra X - Foi muito difícil, naquela altura havia uma enorme dificuldade em encontrar alguém. Mesmo como enfermeira não consegui... Então foi uma velha na Gomes Freire, que diziam que tinha sido enfermeira... Mas naquela altura as enfermeiras antigas não tinham preparação nenhuma. Quanto muito sabiam dar uma injecção. Era numas águas furtadas, e eu já sabia que aquilo era tudo à La Gardere, com ferros sem esterilização, cheguei lá e era um corredor cheio de gente, tudo ali à espera... Cada uma contava a sua história... Um ambiente terrível. E então fisicamente custou-me horrores e ela ainda por cima foi ordinária...

NM - Quanto tempo demorou?

Sra X - Tempo de mais. Quando cheguei a casa chorei, chorei, chorei...

NM - Porquê?

Sra X- Porque sentia uma grande mágoa. Não tinha vontade de fazer aquilo, naquela altura não tinha tido um filho ainda mas também não queria ter um filho que não tivesse um pai. Podia gostar do homem, mas não servia para pai de filhos. E além disso não era casada. Há trinta e tal anos isso fazia muita diferença.

"Deus quer é que as pessoas não sofram"

NM - Quantos abortos fez?

Sra X- Nem sei... Três ou quatro. Depois apareceu a pílula, que veio solucionar muita coisa. Antes disso era terrível. Antigamente as mulheres eram educadas para ter filhos, para a família, era o primeiro filho, eram aquelas coisas todas que a gente traz do colégio, das freiras... E isso só faz as pessoas sentirem-se mal e culpadas e não poderem encarar a vida como deve ser. Felizmente abri os olhos a tempo. Eu apreendo muito rapidamente as coisas... Comecei a ver tanta miséria que me rodeava e percebi que não podia ser... Lembro-me de um professor de moral, um padre, que dizia: "uma mulher não é nenhuma coelha, para ter tantos filhos quantos a natureza lhe permitir". E isto foi quando eu tirei o meu curso... Evidentemente que ele não dizia para interrompermos a gravidez, dizia para usarmos os métodos das contagens, das temperaturas, mas isso era a única coisa que ele podia dizer. Falava-nos da miséria em que as pessoas viviam, da promiscuidade... Porque Deus não quer que as pessoas tenham filhos para isso, para sofrer. Deus quer é que as pessoas não sofram.

NM - Acha que a visão do sofrimento, que nos hospitais onde tem trabalhado é tão evidente, lhe criou uma maior facilidade em lidar com esta questão?

Sra X - Acho que não. Acho que não tem uma coisa a ver com a outra. Da maneira como eu penso as coisas... Claro que me custa muito ver as pessoas sofrer. Dizem que as enfermeiras são duras... Não. Nós não podemos é trazer as coisas para nossa casa. Temos de ter compartimentos estanques, até porque isso é saudável, Deus me livre. Mas sentimos uma grande frustração por não poder aliviar mais. Porque há coisas que nós não podemos fazer.

NM - Sentiu alguma vez que fazia uma espécie de serviço público nesta sua actividade?

Sra X- Não... Nunca imaginei a coisa dessa forma. Eu faço porque as pessoas precisam. Como eu também já precisei.

NM - Tem ideia de quantas pessoas e clínicas facultam o mesmo serviço?

Sra X - Acho que sim. Conheço muitos médicos, uma ou duas clínicas, e pessoas que têm as portas abertas para toda a gente. E repare, há muita gente que não quer ir aos sítios públicos. E há quem vá a Londres, a Espanha...

NM - E faz os abortos onde? Aqui em sua casa ou no consultório?

Sra X - Onde me dá mais jeito. Tenho uma marquesa desdobrável...

NM - E a sua filha, como lida com isto?

Sra X - Ela é toda liberal. E acha, como eu, que as pessoas é que têm o direito de decidir da sua vida. Nós respeitamo-nos muito uma à outra, ela não se mete naquilo que eu faço. Mas evidentemente, quando eu comecei a vir para casa falei com ela . E ela disse: a mãe é que sabe.

Nm - Ela alguma vez fez uma interrupção de gravidez?

Sra x - Fez, aos 28 anos. E fui eu. Não foi fácil, quero dizer-lhe. Mas ela preferiu que fosse eu que outra pessoa.

NM - Como é que a senhora reagiu?

Sra X - Ela disse, mãe, preciso de falar consigo... E como ela não é nada desses rodeios, percebi logo que se passava alguma coisa. E disse-me que estava de cinco semanas... A minha filha abre-se muito comigo mas eu acho que cada um tem direito à sua privacidade e não lhe perguntei nada. O primeiro approach é sempre mais difícil, mas a seguir agarrei-me à técnica e pronto.

"Tenho muita fé no SIM"

NM - Vai votar no referendo?

Sra X - Vou votar, vou!

NM - E acha que vai passar o sim?

Sra X - Acho que sim, tenho muita fé nisso.

NM - Partindo do príncipio de que isto passa, que vai fazer? Já pensou alguma coisa?

Sra X - Olhe, ainda não pensei nada, sinceramente. Ainda não falei com ninguém. Sabe, eu não vivo disto, vivo do meu trabalho no hospital e de um consultório que tenho com um médico. Os lucros que vêm, vêm mais dessa sociedade que disto aqui. Mas se um dos médicos com quem eu trabalho quiser montar alguma coisa, uma clínica ou assim...

NM - Acha que esses médicos são pessoas para isso?

Sra X - Acho que há necessidade.

NM - Mas a prática abortiva é muito mal vista no meio médico...

Sra X - Olhe, mas é assim: muitas vezes eles não querem dar a cara. Então têm outra pessoa que não tenha problemas em dar a cara. E eu não tenho. Posso perfeitamente montar um consultório... Aliás, consultório já tenho, ecógrafo também tenho... Em vez de ter dois gabinetes passo a ter três. Eu só espero é que isto seja legalizado, porque é muito mais fácil trabalhar legalmente. Não quer dizer que isso vá facilitar muito mais as coisas em meio hospitalar. Mas podem aparecer clínicas...

NM - E acha que o preço dos abortos vai baixar ou não?

Sra X - Penso que se vai manter... Eu acho que o preço que levo é equilibrado. Eu sei que há pessoas aí que levam exorbitâncias...

NM - Isso em clínicas, não?

Sra X - Não, não. Pessoas... Já me disseram que chegam a levar cem, cento e tal.

NM - Do que sabe, como é que funcionam as coisas nos hospitais?

Sra X - Sei pouco. Esteve aqui uma miúda, há dias, que tinha uma epilepsia, que tinha estado em S. Francisco Xavier a tentar abortar, tinha a carta do ginecologista, tinha a carta do neurologista, tinha a lei toda do lado dela, mas chegou lá e disseram-lhe que não havia vagas, para ir lá daí a quinze dias, a rapariga começou a pensar e quis resolver o assunto de outra maneira porque teve receio de que depois fosse tarde. Estava de cinco semanas, não quis esperar mais. E uma secretária do hospital em que trabalho, há uns três anos, estava grávida e foi infectada com rubéola. Já estava de dois meses e nunca mais lhe resolviam o problema, era empata aqui, venha cá depois, faz mais esta análise, faz mais aquela... Chegou aos quatro meses e nada. Até que teve de ir a uma clínica, por sua conta e risco.

NM - Com quatro meses, fizeram-lhe um aborto?

Sra X - Não sei onde é que ela foi, só sei que conseguiu. E sei de outro caso, com um diagnóstico de hidrocefalia no feto, a senhora tinha decidido abortar — quem é quer um filho hidrocéfalo? Só uma masoquista, por amor de Deus — e tinha opinião de dois médicos, tinha tudo... Mas quando lhe resolveram a situação já estava de seis meses. Provocaram-lhe um parto, foi uma coisa atroz, de tal modo traumática que ela nunca mais quis ter nenhum filho.

NM - Como é que encara essas situações? A objecção de consciência, por exemplo?

Sra X - Em consciência, penso que esses médicos não podem admitir uma coisas dessas. Quem é que quer ter um filho anormal? Espero que Deus não me castigue... Bom, ele não castiga, coitado, tem mais que fazer...

"Têm de ser as pessoas a decidir"

NM - Acredita em Deus?

Sra X - Às vezes.

NM - Como sabe, estamos em plena campanha para o referendo, com os adeptos do Não a defender que a vida começa na fecundação e que matar um embrião é matar uma pessoa, que é uma vida humana, inviolável, sagrada... Como é que sente isso?

Sra X - Eu sinceramente não entendo. Então se isso é um atentado à vida, então os indivíduos que são condenados à morte? Aí a igreja não faz nada...

NM - Em Portugal não há pena de morte. Mas reconhece alguma validade nestes argumentos?

Sra X - Eu não.

NM - Para si, a partir de que altura é que matar o que está dentro de uma mulher é matar uma pessoa?

Sra X - Faz-me muita impressão a altura em que começa a ter forma. Às doze semanas já me faz muita impressão. Choca-me...

NM - Mas por exemplo no caso da violação o prazo é de dezasseis semanas, já vai para além desse limite...

Sra X - Acho que sim. Uma violação é uma coisa tão terrível...

NM - E no caso das malformações, vai até às 24 semanas. Não lhe faz impressão, isso? Afinal, os fetos malformados também são humanos.

Sra X - Evidentemente. Mas sabe, morrem tantas crianças lá no meu hospital. Crianças, mesmo. E essas sim, essas sentem, de certeza.

NM - Mas onde é que passa a fronteira, para si? Há um ano ou dois houve um caso, em Inglaterra, em que uma mulher estava grávida de gémeos e resolveu matar um dos embriões. A lei inglesa permite isso, até porque se se pode abortar um embrião que está sózinho, também se pode matar um de dois... Faz pensar, não é?

Sra X - Lembro-me desse caso, chocou-me muito. É muito difícil dizer... É a mesma coisa, de facto, mas faz muita impressão. Como é que se escolhe? Não sei, não sei. Há coisas a que é impossível responder. Têm de ser as pessoas a decidir. A vida é delas. Para mim, pessoalmente, seria muito difícil. Perante a lei está correcto, mas...

NM - Nunca sentiu culpa?

Sra X- Não... Absolutamente nenhuma. O pior é as crianças virem cá para fora e depois serem umas infelizes. Eu, por exemplo, dei tudo o que podia à minha filha, muitas vezes via-me e desejava-me para lhe poder dar tudo... Penso, às vezes, o que é que uma criança de catorze anos pode fazer com um bebé nos braços? Quando ela ainda está em idade para brincar... É uma responsabilidade muito grande.

NM - Concorda com a tese de que as pessoas são sobretudo irresponsáveis, que não tomam as precauções necessárias para não engravidar?

Sra X - Acho que as pessoas mesmo tomando anticoncepcionais e usando métodos correm o risco de ficar grávidas. Um dia porque se esquecem de tomar a pílula, o que é normal, porque ninguém é infalível, não é? Porque eu esqueço-me de tanta coisa, posso perfeitamente esquecer-me de tomar a pílula... Por outro lado, mesmo com os dispositivos intra-uterinos pode haver falhas: o papel do dispositivo é manter a mucosa do útero irritada, para o ovo não se conseguir fixar. Pode bastar tomar um antibiótico para que a mucosa deixe de estar irritada... e a pessoa pode ficar grávida mesmo com um dispositivo intra-uterino. Não há nenhum método cem por cento seguro. E quanto às contagens e ao método das temperaturas, então... Há pessoas que têm ciclos irregulares, que são menstruadas de quarenta em quarenta dias... E depois varia. Eu própria cheguei a estar oito meses sem ter período. O sistema hormonal não é certo em toda a gente. De modo que isso de as pessoas dizerem que nunca fizeram um aborto... É uma questão de sorte. E há pessoas que andam para aí a falar a falar, dessas que são contra, e já fizeram interrupções de gravidez. E se não são elas, são eles.

NM - Como é que sabe?

Sra X - Ora! Essas coisas sabem-se todas. Acho incrível as pessoas andarem a pregar uma coisa e fazerem o contrário.

NM - E quanto às pessoas que dizem que fizeram abortos e votam não, porque estão muito arrependidas, como é que as vê?

Sra X - Essas são pessoas que não sabem aquilo que querem. Estão arrependidas porquê? Na altura não pensaram bem? Então deviam ter pensado. Mas agora querem pensar pelos outros.
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